RAFAEL MARTINELLI

A marcha cívico-militar avança em Gravataí e Cachoeirinha: Zaffa projeta mais duas escolas e comunidade da Fidel Zanchetta é convocada — e uma provocação

Prefeito de Gravataí teve encontro com o governador eleito

O prefeito de Gravataí, Luiz Zaffalon (PSD), encontrou-se com o governador eleito Luciano Zucco (PL), na quinta-feira (29). Embora tenha registrado em suas redes sociais apenas um protocolar “tratando das coisas de Gravataí”, Zaffa confirmou com exclusividade ao Seguinte: a ‘continência’ da conversa: escolas cívico-militares.

“A nossa escola é a inspiração dele”, disse o prefeito, referindo-se à escola Murialdo, a primeira rural do modelo no país. “Tenho mais duas na fila”, revelou, antecipando que a EMEF Olenca Valente reúne as características necessárias para receber a estrutura e que a preferência seguinte é pela Morada do Vale.

Zaffa e a secretária municipal de Educação, Aurelise Braun, figuram como entusiastas declarados do modelo. O projeto conta ainda com o apoio ostensivo do vereador Policial Evandro Coruja (PP), citado por Zaffa como um dos principais articuladores e incentivadores da expansão no município.

Paralelamente, a Prefeitura de Cachoeirinha deu um passo concreto na mesma direção. Por meio de nota da Secretaria Municipal de Educação (Smed), a administração convidou a comunidade escolar da EMEB Fidel Zanchetta para uma reunião pública nesta quarta-feira (4), às 18h. O encontro, que ocorrerá na sede da escola, no bairro Fátima, é apresentado como um momento de “diálogo e apresentação da proposta”.

O vice-prefeito Mano do Parque (PL) é quem articula. A prefeita Jussara Caçapava (Avante) já disse a professores que deve seguir a decisão da comunidade escolar.

A escolha da Fidel Zanchetta atrai atenção e controvérsia. A instituição carrega o nome de um dos pioneiros da cidade — cuja família possui histórica atuação no campo cultural e progressista —, o que acabou acendendo o debate sobre a preservação da memória local diante da tentativa de alteração do modelo de gestão; analisei a polêmica em artigo recente: leia em A ironia de fardar a escola Fidel Zanchetta: Cachoeirinha insiste em modelo militar ‘fake’ e atenta contra a história da família de um pioneiro.

Uma análise: os limites técnicos e a provocação incômoda

É direito do gestor público buscar alternatives para a sensação de insegurança e indisciplina que aflige a comunidade escolar. Assim como é parte da delegação das urnas a políticos como Zucco, Zaffa e Mano, que prometeram o modelo ainda em campanha, buscar a implementação.

Reputo, porém, que a expansão das escolas cívico-militares exige uma reflexão sóbria, sem calo de ferradura ideológica e ancorada no que diz a legislação e a pesquisa educacional. Conforme tenho sustentado em uma série de artigos no Seguinte: (desde antes de a Murialdo aderir ao modelo em junho de 2021), o modelo cívico-militar comercializado na política passa distante dos colégios militares de excelência mantidos pelas Forças Armadas.

Trata-se de uma administração compartilhada em que militares da reserva atuam como monitores da porta da sala para fora. Por essa razão, e como o segredo de aborrecer é dizer tudo (Voltaire), a rigor técnico e pedagógico, aproxima-se do que rotulo como uma escola militar ‘fake’.

A posição encontra amparo nas análises de especialistas da área de Educação. Pesquisadoras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) apontam que a ilusão de qualidade atribuída aos colégios militares decorre do orçamento muito superior, da remuneração elevada de seus professores e de processos seletivos altamente afunilados — e não do ato de fardar os estudantes.

Professores civis alertam ainda para o desvio conceitual do ambiente escolar: enquanto a formação cidadã prevista pela Constituição e pela Lei de Diretrizes e Bases (LDB) busca o pensamento crítico e a autonomia, a lógica militarizada impõe a lógica da conformidade. Soma-se a isso o fato de que os monitores da reserva não passam por formação pedagógica específica para o ambiente escolar.

Para além das questões jurídicas — como as ações sub judice que questionam a constitucionalidade do modelo perante a LDB e o Supremo Tribunal Federal —, há uma provocação fundamental sobre a estrutura social desse modelo: por que não existem escolas cívico-militares particulares para os filhos da elite econômica?

A pergunta é incômoda, mas necessária. O modelo cívico-militar é oferecido quase exclusivamente para a periferia e para a rede pública. As famílias de alta renda matriculam seus filhos em instituições privadas que estimulam a liderança, o questionamento, a autonomia e a criatividade — competências exigidas para o topo do mercado de trabalho e para o exercício do poder. Para os filhos da classe trabalhadora, no entanto, reserva-se o discurso da docilidade, do alinhamento em fila e do “sim, senhor”.

Ao fim, Zucco, Zaffa e Mano estão em seu direito de defender o modelo. Eu, civil de nascença, de criticar. Resta esperar que a comunidade escolar decida com informações mínimas. A provocação que deixo é: se a farda e o apito fossem o segredo da excelência educacional, os bairros nobres estariam repletos de colégios cívico-militares, não?

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