É o fetiche ideológico do vice-prefeito Mano do Parque (PL). A pedido dele, a prefeita Jussara Caçapava (Avante) deu início ao processo para tentar implantar uma escola cívico-militar em Cachoeirinha.
Por meio do Decreto nº 8.907/2026, a Prefeitura oficializou a criação de uma Comissão Especial de Estudos — coordenada pelo secretário municipal de Educação, Ildo Júnior — para analisar a viabilidade técnica, pedagógica, jurídica e orçamentária da medida. Nos bastidores e em vídeos, Mano tenta suavizar a proposta garantindo que o militar da reserva atuará apenas na disciplina e “da sala de aula para fora”, quando chamado e sob supervisão pedagógica.
O discurso de apoio se ancora em argumentos de que alunos do modelo tiram notas maiores, além de aprenderem “disciplina e hierarquia” desde cedo. Mas basta olhar para o debate com profundidade para perceber que estamos diante daquilo que venho chamando, ao longo de artigos nos últimos cinco anos, de uma verdadeira ‘mina ideológica’.
Cometo com a prefeita Jussara a mesma crítica que dirigi em Gravataí ao prefeito Luiz Zaffalon (PSD) — hoje um político que se posiciona no ‘extremo centro’ — e também ao esquerdista Daniel Bordignon (PT), que na campanha eleitoral bateu continência ao modelo.
Em Cachoeirinha, já há reação. O Sindicato dos Municipários (Simca) manifestou preocupação com a condução do processo. Embora o decreto estabeleça que a comissão ainda vai emitir um parecer de viabilidade, a Escola Municipal de Ensino Básico (EMEB) Fidel Zanchetta já estaria sendo tratada como a escolhida. Conforme relatos recebidos pelo sindicato, a direção, o Conselho Escolar e os servidores foram pegos de surpresa poucos dias após o decreto, sem debate com a comunidade. Pior: profissionais contrários teriam sido orientados a solicitar remanejamento. O SIMCA critica a apresentação do projeto para 2027 antes da conclusão dos estudos, apontando a falta de respaldo legal e cobrando a intervenção do Conselho Municipal de Educação e da Câmara de Vereadores.
Repito aqui o que venho sustentando: civil de nascença, e que me perdoem os defensores a crueza, mas reputo que essas são escolas militares ‘fake’ — ao menos no que se construiu no imaginário popular. Elas nada têm a ver com os colégios militares de excelência mantidos pelas Forças Armadas. Como bem apontou o jornalista Reinaldo Azevedo, o modelo resume-se a um “gigantesco cabidão de empregos para militares da reserva fazerem um bico, atuando como bedéis”, recebendo salários superiores aos dos professores para “dar pitaco” e impor autoritarismo.
Do ponto de vista pedagógico, especialistas da Ufrgs, como Aline Cunha e Iana Gomes de Lima, cansam de alertar: a qualidade dos colégios militares decorre de processos seletivos afunilados e salários muito maiores para os docentes, e não do fardamento de crianças em escolas públicas plurais e sucateadas. Querem substituir o respeito e a coletividade pelo medo e pela submissão. É a falsa memória do “no meu tempo é que era bom”, fruto de meras lembranças autobiográficas sem qualquer respaldo em indicadores internacionais do PISA.
Além disso, há um componente irônico — mas principalmente moral — estarrecedor nessa escolha em Cachoeirinha. A escola posta na ‘mira’ homenageia Fidel Zanchetta. Como contou o Seguinte:, em reportagem do jornalista Silvestre Silva Santos, por ocasião de seu centenário, “Seu Zanchetta” foi um visionário empreendedor e benemérito da cidade, responsável por lotear bairros como o Veranópolis e a Vila Fátima, onde doou o terreno e mandou construir a própria escola em 1969 — em uma célebre parceria com a professora Ana Fogaça, ex-vereadora não apenas de esquerda, mas comunista assumida.
Fidel é pai de Sônia Zanchetta, jornalista e ativista cultural que é uma das figuras mais respeitadas da cidade, uma das chefonas na Feira do Livro de Porto Alegre e notadamente progressista. Tentar transformar a escola fundada por um homem comunitário e que carrega o nome do pai já falecido de uma intelectual progressista, e o legado vivo de uma professora comunista, em um quartel de disciplina militarizada é, se não um daqueles episódios que chamo ‘Dos Grandes Lances dos Piores Momentos’, uma profunda falta de respeito com a história da família e do município.
O nome “Fidel”, como o Castro, o El Comandante, só completa a triste ironia.
E vale a provocação incômoda trazida por Juliana Cardoso em artigo publicado no portal Viomundo: por que não existem escolas cívico-militares para os filhos dos ricos? A escola militar fake fica para os pobres. A elite econômica matricula seus herdeiros em escolas que estimulam o pensamento crítico, a autonomia e a liderança, preparando-os para questionar e mandar. Já para a periferia, reserva-se a pedagogia da docilidade, do “sim, senhor” e do apito, treinando futuros subordinados sob o pretexto cínico da disciplina. Se a marcha e a continência fossem a chave para o sucesso educacional, os bairros nobres estariam cheios delas.
Para completar o cenário de fragilidade da iniciativa, o tema ainda não está pacificado no STF. A AGU também já se manifestou apontando a inconstitucionalidade do modelo estadual por invadir a competência da União.
Ao fim, a escola sabor militar, fake, é puro suco de fetiche ideológico. O governo deveria priorizar a gestão democrática e a memória de seus pioneiros, investindo no que a educação real precisa: valorização dos professores civis, infraestrutura pedagógica e liberdade para pensar.






