RAFAEL MARTINELLI

A tragédia na educação obriga Gravataí a sair do bullying político

Prefeito recebeu sindicato dos professores na sexta

A política adora transformar crises em bullying. Ainda mais quando há sindicato, prefeitura, rede social, notas oficiais e vereadores no meio. Cada lado escolhe sua torcida, distribui culpas, compartilha prints e tenta converter complexidade em slogan.

Mas há momentos em que a realidade bate na porta da sala de reuniões e obriga todo mundo a baixar um pouco o tom, nem que seja para evitar que a própria cidade fique no ‘cantinho do castigo’.

A primeira reunião entre o governo Luiz Zaffalon e o Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública Municipal de Gravataí (SPMG), realizada nesta sexta-feira (22), parece ser justamente esse momento. Sem sindicalismo em cima de caixote ou gélidas planilhas elaboradas por burocratas.

Não foi paz selada. Não foi reconciliação histórica. Não foi foto sorridente apagando semanas de desgaste, acusações e desconfiança. Foi algo mais modesto — e talvez mais importante: uma ‘trégua operacional’.

Depois de semanas em que professores falaram em “adoecimento”, “precarização”, “castigo” e retirada de direitos, e o governo respondeu com discurso de reorganização da rede e enfrentamento de índices constrangedores da educação municipal, prefeitura e sindicato finalmente sentaram à mesa. E, reputo, o simples fato de sentarem já tem peso político.

Participaram da reunião a presidente do SPMG, Silvina Peres, integrantes da direção sindical, o prefeito Luiz Zaffalon, a secretária da Educação Aurelise Braun, o secretário da Fazenda Laone Guimarães, além de representantes da Procuradoria-Geral do Município, da Secretaria de Administração e do presidente da Câmara, Dilamar Soares.

Dila, aliás, emerge como personagem importante desse capítulo. Foi ele quem operou a reaproximação entre governo e sindicato num ambiente que já ultrapassava o desconforto administrativo e começava a entrar numa espiral perigosa de radicalização política. Funciona hoje como uma espécie de fiador institucional do diálogo. Tem o respeito do prefeito, trânsito no governo, relação com a vereadora Vitalina Gonçalves (PT), eleita pela categoria, e ajuda a produzir algo que desaparecia rapidamente em Gravataí: confiança mínima.

Os sinais de recuo estratégico já vinham aparecendo dos dois lados. O sindicato segurou uma campanha grevista que, nos bastidores, segundo apuração do Seguinte:, já tinha peças prontas para circulação. Em cidades vizinhas, como Canoas e Cachoeirinha, paralisações chegaram às escolas. Gravataí evitou, até aqui, o estrondo. Ficou no gemido — mesmo que mereça o gemido toda a atenção da poesia de T.S Eliot, em Os Homens Ocos, sobre o mundo acabar com um gemido, não um estrondo.

E o gemido já tinha ecoado na Tribuna Popular da Câmara, nas redes sociais, nos grupos de professores e nos corredores das escolas municipais. O centro do conflito permanece o mesmo: hora-atividade presencial, difícil acesso, condições de trabalho, perdas salariais e falta de recursos humanos nas escolas.

O sindicato segue sustentando que há sobrecarga, retirada de direitos e ausência de estrutura para exigir presencialidade pedagógica. O governo mantém o argumento de que tenta reorganizar uma rede que convive com indicadores educacionais incompatíveis com a quarta economia do Rio Grande do Sul.

E é aqui que a reunião ganha relevância para além da disputa sindical clássica. Porque Gravataí começa a descobrir algo desconfortável: existem duas ideologias sentadas à mesa.

A primeira é a ‘ideologia dos números’. Ela aparecerá nas próximas reuniões em forma de planilhas, impacto financeiro, reivindicações salariais, percentuais, cortes de direitos alegados e capacidade fiscal do município. É o terreno clássico da disputa entre governos e servidores.

A segunda é mais cruel: a ‘ideologia da tragédia’ educacional. A crise como ‘projeto’, como desvelou o iluminado Darcy Ribeiro.

Ela aparece nos índices de alfabetização, nas crianças que chegam ao fim do ensino fundamental sem dominar leitura e matemática, no Ideb constrangedor para uma cidade rica, nos alunos que avançam acumulando defasagens até explodirem no ensino médio — ou na vida.

Essa ideologia não cabe facilmente em nota oficial. Nem em carro de som. Nem em postagem indignada. Nem em discurso pronto sobre “castigo” ou “gestão”.

O próprio Zaffa, num raro momento de sincericídio político, já admitiu dias atrás algo pouco usual para governantes:

– O modelo praticado por décadas, inclusive por dois anos no meu governo, deu nesta tragédia.

A frase importa porque tira parcialmente o debate daquele jogo automático em que governo culpa sindicato, sindicato culpa governo, e ambos fingem surpresa diante dos resultados ruins. Os números da educação de Gravataí já ficaram graves demais para permitir conforto ideológico.

Talvez por isso a reunião da sexta tenha produzido algo relevante: a retomada formal da mesa de negociação, com calendário de encontros e criação de grupos permanentes de trabalho.

Parece burocrático. Mas, na prática, significa que prefeitura e sindicato decidiram conversar antes que a política educacional do município escorregasse de vez para o modelo de guerra permanente que domina boa parte do debate público brasileiro.

A tensão, claro, continua ali. Ela aparece quando a categoria fala em “luta coletiva” e diz seguir “mobilizada”. Aparece quando o governo insiste na reorganização pedagógica e administrativa da rede. Aparece quando professores relatam falta de estrutura para cumprir exigências presenciais. E aparece quando a prefeitura olha para os índices educacionais e conclui que manter tudo igual talvez seja a pior escolha possível.

Nada disso desapareceu. A diferença é que agora existe uma mesa. E talvez Gravataí esteja percebendo algo que a liquidez da política desaprendeu: problemas complexos normalmente não têm soluções simples. Muito menos soluções simples e certas, como ironizava Mencken.

Na educação pública, a frase parece ainda mais atual. Porque a cidade talvez esteja descobrindo que o verdadeiro adversário não é exatamente o sindicato. Nem exatamente o governo. É a defasagem educacional. E ela já ficou grande demais para caber apenas numa guerra política.


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