O sindicato dos professores fala em “precarização”, “desrespeito” e “adoecimento” nas escolas municipais. O governo Luiz Zaffalon responde que as medidas fazem parte de uma tentativa de reorganizar a rede e melhorar indicadores educacionais constrangedores para a quarta economia do Rio Grande do Sul.
No meio disso, Gravataí tenta evitar que a crise que já explodiu em cidades vizinhas desembarque de vez nas escolas municipais.
Ainda não há indicativo de greve, diferentemente de Canoas, onde a paralisação dos professores entra na segunda semana, ou de Cachoeirinha, que já enfrentou uma greve de um dia. Mas o ambiente na rede municipal gravataiense deixou de ser apenas de desconforto administrativo. Virou embate político.
Na terça-feira (5), a direção do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública Municipal de Gravataí (SPMG) ocupou a Tribuna Popular da Câmara de Vereadores para apresentar um manifesto contra a condução da política educacional do município.
A presidente do sindicato, Silvina Peres, resumiu o sentimento da categoria:
– O que está em curso não é apenas um conjunto de medidas equivocadas, mas um projeto de gestão que oprime educadoras e educadores.
O texto lido na tribuna fala em sobrecarga, retirada de direitos, assédio moral e ausência de diálogo com a categoria. Também acusa o governo de impor medidas “distantes da realidade concreta” das escolas.
Depois da manifestação, o presidente da Câmara, Dilamar Soares, disse que tenta intermediar uma reunião entre sindicato e Executivo. Mas o ruído entre os dois lados já ultrapassou o rito burocrático dos ofícios.
O centro da crise passa por três pontos: hora-atividade presencial, retirada do difícil acesso e perdas salariais.
A principal irritação da categoria hoje atende pelo nome de hora-atividade.
A hora-atividade é aquele período em que o professor não está em sala de aula, mas continua trabalhando: planejamento, correção de provas, reuniões pedagógicas, elaboração de atividades, formação. A legislação do piso nacional determina que ao menos um terço da carga horária seja reservado para isso.
O conflito começou quando a Secretaria Municipal da Educação passou a exigir que parte desse período fosse cumprido presencialmente nas escolas.
O sindicato diz que a prefeitura exige presença sem garantir estrutura mínima.
Segundo professores, faltam salas adequadas, internet de qualidade, climatização e até silêncio para trabalhar. Nos bastidores da rede, a medida rapidamente ganhou um apelido político, verbalizado pela vereadora Vitalina Gonçalves, ex-presidente do SPMG:
– É só castigo para os professores.
A secretária municipal da Educação, Aurelise Braun, rebate.
Segundo ela, a exigência ocorre “a cada 15 dias” e busca estimular planejamento coletivo e formação pedagógica.
– Tudo é feito com organização. São dias também usados pela Smed para formação – afirmou ao Seguinte:.
Aurelise, que também é professora da rede municipal, disse conhecer a dinâmica da hora-atividade fora da escola.
– Sei como funciona, serve para o professor fazer seu planejamento em casa, sozinho, mas serve, por vezes, como uma folga do professor para resolver seus problemas particulares, cuidar de coisas da vida. Queremos dias presenciais para também construir entre pares os planos pedagógicos.
Ao defender a presencialidade, a secretária também tenta sustentar o debate no terreno dos resultados.
– De 497 municípios, Gravataí, quarta economia gaúcha, está em 439º no Ideb. Queremos construir juntos um avanço, sair de Ideb de 5.6 em séries iniciais e 4.0 em séries finais – argumentou.
Outro foco do conflito é a retirada do adicional de difícil acesso em parte das escolas da rede. Historicamente, o benefício funciona como compensação financeira para professores que atuam em regiões afastadas ou com dificuldade de deslocamento.
Mas, em Gravataí, o debate ganhou uma camada a mais: a crise do transporte público.
O sindicato afirma que muitos professores passaram a depender de carro próprio ou aplicativos porque linhas e horários já não dão conta da rotina escolar. Na prática, o adicional ajudava a financiar uma logística que o sistema de transporte coletivo deixou de oferecer.
Por isso, a retirada do benefício não é tratada apenas como perda salarial. É vista como fator que pode aumentar a rotatividade de professores em regiões periféricas e dificultar a permanência de profissionais em determinadas escolas.
A prefeitura rebate.
Segundo Aurelise Braun, o município mantém vale-transporte para os servidores e preservou o difícil acesso apenas para 25 escolas efetivamente rurais ou distantes da área urbana.
Ela cita como exemplo a Escola Cincinato Jardim do Vale.
– Tem diversas linhas de ônibus na Avenida Dorival de Oliveira e basta caminhar uma quadra. Antes tinha difícil acesso – disse.
A secretária rejeita a ideia de perseguição à categoria.
– Não tem pegação de pé ou castigo. Tem gestão.
O sindicato também acusa o governo de provocar perdas de cerca de 25% para professores e funcionários da educação.
A prefeitura responde dizendo que o reajuste vinculado ao piso nacional do magistério já contemplou os percentuais reivindicados.
Segundo Aurelise Braun, o cálculo apresentado pelo sindicato considera perdas anteriores ao reajuste aplicado pela atual gestão.
– Ao pagar o piso, o prefeito deu mais que 25% de aumento para a categoria. O que querem agora é 25% em cima do piso – afirmou.
O gemido
Até aqui, o que diferencia Gravataí de outras cidades da Região Metropolitana é que o conflito ainda não desembocou em greve. Mas o ambiente já é de mobilização crescente.
No manifesto apresentado na Câmara, o sindicato prometeu seguir “nas escolas, nas ruas e em todos os espaços necessários” até que haja negociação direta com o prefeito e a Secretaria da Educação.
De um lado, professores que denunciam perda de direitos, precarização e desgaste emocional. De outro, um governo que diz enfrentar resistências para reorganizar a rede e melhorar indicadores ruins.
No meio, tensão.
“É assim que o mundo acaba, não com um estrondo, mas com um gemido”, escreveu T. S. Eliot em Os Homens Ocos.
Em Gravataí, o gemido já parece ter ecoado na tribuna da Câmara, na terça-feira.
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