Cancelei os exames de rotina com o cardiologista. Nada foi tão forte para testar o meu coração quanto os minutos finais da partida entre Brasil e Japão pela primeira fase do mata-mata da Copa do Mundo da Fifa 2026. Não imaginava que o jogo acabaria com tal dose de emoção. Mas os sinais foram dados logo no primeiro tempo. Aos 29 minutos, os japoneses abriram o placar com um chute de fora da área de Kaishu Sano, 25 anos. O golaço de Sano desorganizou os brasileiros. Comecei a contar os minutos para terminar o primeiro tempo porque sentia que os japoneses fariam um “balaio de gols”. No intervalo, o técnico da Canarinho, o italiano Carlo Ancelotti, 67 anos, reorganizou o time e a estratégia de jogo. Deu certo. Aos 56 minutos, Casemiro, 34 anos, empatou com um gol de cabeça que começou com uma disputa acirrada pela posse da bola em cada centímetro do campo. Próximo aos 90 minutos, a ideia geral era que o jogo iria para a prorrogação (30 minutos) e talvez para a decisão na cobrança de pênaltis. Terminado o tempo regulamentar, o árbitro italiano Maurizio Mariani, 44 anos, deu seis minutos de acréscimos. E no primeiro minuto Gabriel Martinelli, 25 anos, fez o segundo gol do Brasil. O jogo ainda durou mais alguns tensos minutos. O Brasil ganhou por 2 a 1 e se classificou para as oitavas de final. O Japão voltou para casa. Vamos conversar sobre o assunto.
Fiz um resumo do que aconteceu na nervosa partida entre Brasil e Japão para falar com os leitores sobre a influência do desempenho da Seleção na Copa na disputa pelas manchetes dos jornais. Mas antes cabe uma informação que julgo ser necessária repeti-la para o leitor. Sou especializado na cobertura de conflitos agrários, migrações e crime organizado nas fronteiras. Sou repórter há 50 anos, sendo 40 deles trabalhando em redação de jornal, e atualmente viajo pelas estradas em busca de histórias para contar. Como tenho reprisado, não entendo “patavinas” de esportes. Mas entendo de jornalismo. Estamos em um ano eleitoral. Portanto, todos os acontecimentos econômicos, policiais e de costumes acabam ganhando as manchetes se tiverem reflexo nas campanhas dos candidatos à Presidência da República, principalmente na do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o principal adversário do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, que concorre à reeleição. Venho acompanhando a caminhada da Seleção rumo ao sonhado Hexacampeonato. No início, havia uma descrença geral com o time. Mas a confiança do torcedor vem aumentando a cada nova vitória e dessa forma os assuntos referentes à Copa permanecem dominando os espaços nobres dos noticiários. No fim de semana anterior à disputa da vaga nas oitavas de final eu fiquei atento às pautas que ganhavam maior destaque nos programas jornalísticos de rádio, TV e outras plataformas de comunicação, especialmente entre os comentaristas políticos. Ao natural, a Copa do Mundo ia se impondo na conversa. No final do programa, invariavelmente os jornalistas davam o seu palpite do escore de Brasil e Japão. Na noite de domingo e parte da madrugada de segunda-feira, fiquei zapeando os canais da TV a cabo. Nunca tinha visto tantas matérias sobre a história do futebol no Japão. Os jogadores japoneses foram descritos como obedientes, focados e muito bem preparados fisicamente. Nas reportagens que vi, era opinião geral dos analistas que a Seleção Japonesa seria um “osso duro de roer”. Apostavam na habilidade de drible dos brasileiros para enfrentar a obediência tática e a técnica dos adversários.
Após a vitória sobre o Japão, liguei para um colega repórter que fez cobertura de futebol por muitos anos. Disse que estranhava o imenso volume de entusiasmo dos torcedores com o fato da Seleção ter passado para as oitavas de final. Perguntei: “Cara, o Brasil já passou de fase muitas vezes antes. Por que esse entusiasmo todo?” Ele respondeu que me daria a sua opinião. Disse: “Por vários motivos, especialmente econômicos, os grandes craques brasileiros vão jogar no exterior cada vez mais novos. Vão morar em outros países, onde passam o auge das suas carreiras, e quando estão velhos e cansados voltam para o Brasil. O que isso significa? Que os times brasileiros estão carentes de bons jogadores e, em consequência, se tornaram grandes perdedores no cenário internacional. A Copa do Mundo é o único momento em que o nosso time tem os nossos melhores jogadores”. Não há novidades na explicação do meu amigo. Mas é um relato fiel da realidade. Tenho defendido que a união que as vitórias da Seleção causam entre os brasileiros é uma boa oportunidade que temos para conversar sobre alguns problemas que prejudicam todos nós, mas que estão fora da pauta política devido a polarização da disputa eleitoral, que não é uma coisa nova. A polarização sempre existiu no país. O que aconteceu é que o debate político foi substituído pelas “pautas de costumes”. No que vai resultar essa situação eu não sei e duvido que alguém saiba. O fato é que enquanto pudermos conversar, há uma esperança. Portanto, quanto mais tempo a Seleção mobilizar a torcida, mais chances temos para conversar e para encaminhar soluções para os nossos problemas comuns.






