A festa de aniversário de Fabi Medeiros foi um lançamento político cuidadosamente construído. O Clube Onze Unidos recebeu cerca de mil pessoas na noite desta sexta-feira (26). Havia música, homenagens, emoção, referências à família e à fé. Mas havia, sobretudo, estratégia. A filha do ex-prefeito Francisco Medeiros foi oficialmente apresentada como pré-candidata a deputada estadual pelo União Brasil.
Ao seu lado, estavam exatamente as peças que explicam a fotografia política da principal oposição em Cachoeirinha neste momento.
O marido, o ex-prefeito Cristian Wasem, cassado no impeachment de janeiro e inelegível por oito anos. O deputado federal Luiz Carlos Busato, presidente estadual do União Brasil e pré-candidato à reeleição. O vice-prefeito cassado Delegado João Paulo Martins (PP). A vereadora Claudine Silveira (PP), que perdeu a eleição suplementar para Jussara Caçapava (Avante) por apenas 530 votos.
Mais do que um aniversário, o encontro serviu para mostrar aquilo que escrevi recentemente após a festa que lançou Cleo do Onze (MDB) a deputado federal: o grupo político derrotado nas urnas continua unido. E continua esperando os próximos capítulos da política de Cachoeirinha.
Um dos trechos politicamente mais importantes da noite veio do próprio Cristian.
Durante anos, a influência de Fabi na administração municipal foi tema constante dos bastidores. Era criticada pelo grupo que hoje governa Cachoeirinha. Nunca teve com relacionamento com a então vereadora Jussara.
À época, escrevi que mulheres não podem ser medidas por uma régua diferente da utilizada para homens que ocupam espaços de poder. Muitos tratavam sua atuação como mera especulação. Cristian resolveu acabar com qualquer dúvida.
Disse que Fabi “sempre esteve ao meu lado, nos bastidores, fazendo a gestão junto conosco”, chamou-a de “coração guerreiro” do governo e comparou sua participação à da sogra Maria Antônia Medeiros ao lado do ex-prefeito Francisco Medeiros.
Na prática, confirmou aquilo que a política de Cachoeirinha comentava havia anos. Fabi não era apenas primeira-dama. Participava das decisões.
Ela devolveu o gesto. Ao agradecer ao marido, destacou exatamente aquilo que sempre procurou construir como imagem pública. Disse que Cristian sempre valorizou mulheres, foi criado por mulheres guerreiras e jamais tentou limitar o espaço feminino na política.
Não parece coincidência. É construção narrativa.
Na eleição suplementar escrevi que Cristian perdeu no voto, mas saiu perto de se consolidar como o ‘Grande Eleitor’ de Cachoeirinha. A diferença de apenas 530 votos mostrou que seu capital político permanece vivo mesmo sem mandato.
O lançamento de Fabi reforça exatamente essa leitura. Ela é candidata. Mas o principal ativo eleitoral continua sendo Cristian.
Foi ele quem apresentou a esposa como sucessora política do grupo. Foi ele quem relembrou que Francisco Medeiros foi deputado estadual antes de voltar para ser prefeito.
A frase não parece destinada apenas à Assembleia. Permite outra leitura. Se Fabi vencer em outubro, poderá perfeitamente entrar na discussão sobre 2028.
Cristian plantou essa semente ao dizer que o sogro “foi deputado estadual e depois voltou para ser prefeito”.
Na política, analogias raramente são inocentes.
Mas talvez o discurso mais explosivo tenha sido o de Luiz Carlos Busato. O deputado revelou publicamente algo que até então não integrava o debate político local. Disse que pretende alterar o Decreto-Lei nº 201, de 1967, que disciplina os processos de impeachment de prefeitos.
Segundo Busato, a legislação tornou-se desequilibrada ao permitir que cassações eminentemente políticas produzam automaticamente oito anos de inelegibilidade.
A defesa feita pelo parlamentar foi clara. Corrupção deve continuar sendo punida. Mas cassações políticas, como a de Cristian, mereceriam tratamento diferente.
A fala ajuda a compreender outra passagem do discurso de Cristian: “O deputado Busato vai nos defender em Brasília”. Não se trata apenas de solidariedade política. Existe uma estratégia jurídica sendo construída.


Como Busato pode devolver Cristian às urnas
Aqui talvez esteja o ponto mais interessante da noite. É preciso separar narrativa política de realidade jurídica.
Uma eventual alteração no Decreto-Lei 201 não devolveria automaticamente Cristian à Prefeitura. Isso depende das ações judiciais que ainda discutem o impeachment — tema sobre o qual já escrevi diversas vezes.
Mas existe outra consequência possível. Se o Congresso modificar a própria sanção prevista para prefeitos cassados — especialmente o período de inelegibilidade — surge uma discussão sobre a incidência retroativa da norma mais benéfica.
O paralelo possível é o debate nacional em torno do chamado PL da Dosimetria. A proposta, atualmente submetida ao Supremo Tribunal Federal, parte justamente da lógica de que alterações legislativas mais favoráveis podem repercutir sobre condenações já existentes.
São casos completamente distintos. Mas a lógica jurídica discutida é semelhante: normas sancionatórias mais benéficas podem produzir efeitos retroativos quando aplicáveis.
Caso uma mudança reduza ou altere os efeitos da inelegibilidade prevista para cassações por impeachment, Cristian poderá discutir judicialmente sua elegibilidade futura.
Não voltaria ao mandato perdido. Mas poderia voltar às urnas. E talvez isso ajude a compreender uma frase que ele próprio me disse dias atrás: “E se eu volto para a prefeitura?”.
Na época, parecia apenas uma provocação política. Depois do discurso de Busato, ela passa a ganhar contexto.
Ao fim, Fabi abriu o discurso cantando “Só o Começo”. Não parece escolha casual. Toda a construção de sua fala foi baseada justamente na ideia de recomeço.
Lembrou a morte do pai. As dificuldades enfrentadas pela família. As lágrimas dos filhos. A cassação do marido. E concluiu anunciando que inicia “uma nova história”.
A música falava que “não é o fim, é só o começo da jornada”.
Politicamente, dificilmente haveria metáfora melhor.
Na política, derrotas raramente encerram histórias. Às vezes apenas mudam seus protagonistas. Cristian parece compreender isso. Inelegível, tenta exercer outro papel. O de fiador eleitoral. O de ‘Grande Eleitor’.
Primeiro com Claudine. Agora com Fabi. E talvez, amanhã, consigo mesmo.
Porque a política costuma ensinar que cassações encerram mandatos. Nem sempre encerram projetos. Principalmente quando alguém, em Brasília, começa a tentar mudar as regras do jogo.
Assista ao vídeo produzido pelo GG, da SEGUINTE TV, na festa de Fabi






