RAFAEL MARTINELLI

#DasUrnas | Cristian perde no voto, mas fica perto de ser o ‘Grande Eleitor’ em Cachoeirinha

Cristian apostou no papel de 'Grande Eleitor' de Claudine e quase venceu eleição / Foto: André Boeira

No #DasUrnas, siga diariamente quem ganhou, quem perdeu, quem empatou e os números e análises da eleição suplementar pós-impeachment.


Cachoeirinha saiu das urnas no último domingo (12) com a vitória de Jussara Caçapava (Avante) e uma conclusão ainda em aberto neste ‘tempos líquidos’ da política: o tamanho da força de Cristian Wasem (União Brasil) mesmo fora da disputa.

A diferença de 530 votos que separou Jussara de Claudine Silveira (PP), candidata do grupo do ex-prefeito, pode ser outro som do silêncio que grita, assim como a abstenção, o que já analisei em #DasUrnas | Quase metade de Cachoeirinha não votou; silêncio das urnas impõe alerta à política — e também a Jussara.

Cassado, inelegível por oito anos, Cristian não apareceu na urna. Mas esteve em toda a campanha. E, se a historicidade da eleição suplementar não o inscreve formalmente como o ‘Grande Eleitor’ — porque, afinal, seu grupo não venceu —, restou perto disso.

É um alerta tanto para o grupo da prefeita democraticamente eleita, quanto para outra personagem estelar da oposição: David Almansa (PT). Porque o tempo da política — e sua metralhadora cheia de mágoas — não para, assim como o tempo de Cazuza.

O pleito de Cachoeirinha foi, desde o início, desenhado como um teste: até onde vai o capital político de um líder afastado do poder?

Cristian apostou tudo nessa resposta.

Transformou a candidatura de Claudine em extensão direta de seu projeto político. A vereadora é esposa de seu vice-prefeito cassado, Delegado João Paulo Martins (PP). Mais do que uma campanha, construiu um plebiscito: não sobre nomes, mas sobre o impeachment.

De um lado, a narrativa da reorganização administrativa, o “arrumar a casa”, encarnado por Jussara, embora, até dezembro, a hoje prefeita tenha convivido com a gestão que tinha o ex-prefeito como ‘síndico’. Do outro, a tese da injustiça — o “golpe” — defendida por Cristian e assumida por Claudine.

Funcionou. Quase venceu, mesmo que os vereadores tenham jogado dentro das quatro linhas da Constituição. Goste-se ou não.

Enfrentando uma máquina política robusta — maioria na Câmara, megacoligação, mais recursos e capilaridade — o grupo do ex-prefeito levou a disputa ao limite. Perdeu no detalhe. E, na política, perder no detalhe também é, inegavelmente, ao menos para quem analisa sem torcida ou secação, uma forma de mostrar força.

É possível fazer um paralelo com a política nacional: a família Bolsonaro lançou Flávio como presidenciável sob o cálculo de que, mesmo em caso de derrota nas urnas, manteria a hegemonia da oposição.

Hoje ameaça vencer a eleição.

O ‘político teflon’

Reputo que há um elemento que ajuda a explicar esse desempenho: a resiliência política de Cristian.

É inegável que tem seus feitos. O resultado eleitoral de Claudine mostra que o eleitor não percebeu o governo Cristian como desastre.

Porém, ao longo dos últimos anos, também construiu uma imagem que resiste a crises. Um ‘político teflon’, no qual denúncias, investigações e desgastes parecem não aderir.

Durante o mandato, enfrentou episódios de alto potencial de dano — como operações da Polícia Federal, questionamentos sobre gestão e críticas a políticas públicas, como o caso do suposto sumiço de verbas do Fundeb, a devolução de recursos da enchente e a simbólica ‘ciclovia-meme’, no qual as três gestões compartilham evidências de incompetência.

Ainda assim, nada disso se traduziu, de forma decisiva, em rejeição eleitoral.

O histórico reforça essa leitura: mesmo sob pressão, venceu eleição com margem ampla em 2024, no que chamei de ‘7 a 1’ das urnas.

Agora, mesmo fora da urna, mostrou capacidade de mobilização suficiente para levar uma candidatura competitiva até o limite da vitória.

Zumbi, não — e a casa das duas mulheres de oposição

A eleição colocou frente a frente dois modelos clássicos.

Jussara representava a estrutura: maioria institucional convertida em força eleitoral. Claudine, a emoção: uma candidatura carregada de simbolismo e narrativa.

O resultado confirma o padrão — a estrutura venceu, assim como em eleições e reeleições anteriores, de José Stédile, Vicente Pires, Miki Breier e do próprio Cristian.

Mas com um adendo relevante: a emoção quase virou o jogo. E inclui na conta da ‘emoção’, ou falta dela, meia cidade não ter ido às urnas.

A campanha de Claudine operou com menos base e menos recursos. Ainda assim, mobilizou um eleitorado suficiente para transformar a disputa em voto a voto.

Isso revela que Cristian não apenas transferiu votos. Transferiu narrativa. E narrativa, em contextos de ruptura, como o pós-impeachment, pode ser um combustível eleitoral poderoso.

Se Claudine tivesse vencido, o recado seria inequívoco: o eleitor não teria comprado a tese de que a “casa estava bagunçada” — e teria optado por reparar o que considerou uma injustiça.

Não foi o que aconteceu. Mas o resultado apertado impede qualquer leitura simples.

A vitória de Jussara valida, no plano formal, a força da maioria institucional, em uma Cachoeirinha que é fisiológica por natureza. Mas o desempenho de Claudine mostra que essa maioria não é hegemônica.

Além de um eleitor cansado, que não foi às urnas, há uma cidade dividida.

E, sobretudo, há uma confirmação de que Cristian não é um zumbi político, como outros ex-prefeitos. Pelo contrário. Resta com potencial para ser ‘Grande Eleitor’ ainda em 2026 e, apesar da eternidade que dois anos representam na política, em 28.

Não por acaso, em post de agradecimento após a eleição, Cristian dividiu o protagonismo com a esposa, Fabi Medeiros. Após o impeachment, ele trocou o MDB pelo União Brasil, de Luiz Carlos Busato. Fabi concorre ao cargo de deputada estadual, Busato vai à reeleição a deputado federal.

O desempenho de Cristian como ‘Grande Eleitor’ permite projetar que Fabi deve ser uma das candidaturas preferenciais do UB nas eleições de outubro. Busato, que é o chefão do partido no RS e uma das principais figuras nacionais, já deve ter feito cálculos em seu pragmatismo implacável.

Chegamos, então, a 28, e ao alerta que, na abertura deste artigo, fiz a Jussara — que certamente projeta ser candidata à reeleição — e a Almansa, que se preservou pensando na próxima eleição.

Um sucesso de Fabi nas urnas em 26 pode colocá-la na disputa pela Prefeitura. Aí, restará ao (quase) ‘Grande Eleitor’ administrar seu grupo político. Claudine também saiu gigante das urnas. E já testada.


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