RAFAEL MARTINELLI

#DasUrnas | Quase metade de Cachoeirinha não votou; silêncio das urnas impõe alerta à política — e também a Jussara

Primeira mulher eleita prefeita na história de Cachoeirinha, Jussara Caçapava comemora a vitória, domingo / Foto: Dani Araújo

No #DasUrnas, siga diariamente quem ganhou, quem perdeu, quem empatou e os números e análises da eleição suplementar pós-impeachment.


Por trás da vitória voto a voto de Jussara Caçapava neste domingo (12), na eleição suplementar para a Prefeitura de Cachoeirinha, há um fenômeno, um som do silêncio, que grita mais alto que os 530 votos de diferença: 42.506 eleitores simplesmente não foram às urnas.

Em um universo de 102.143 aptos, a abstenção de 42,22% não é um detalhe estatístico. É personagem central da eleição. E, talvez, o mais eloquente.

A prefeita eleita governa com a legitimidade formal das urnas, como manda a democracia. Fez o gol. Venceu. É prefeita. Ponto.

Mas governa, também, sobre um silêncio ensurdecedor: representa cerca de 22,12% do eleitorado total da cidade.

É aqui que a análise começa — e o alerta também.

Cachoeirinha não vive uma eleição. Vive um ciclo.

Um ciclo que, como venho descrevendo, beira o ‘Dia da Marmota’ (como no filme) institucional: cassações, denúncias, CPIs, suspeitas de corrupção, Polícia Federal na porta de prefeitos, afastamentos pela Justiça, eleições suplementares em série.

Em menos de seis anos, cinco comandos no Executivo. Não é normal. E o eleitor sabe.

A abstenção deste domingo é a tradução mais fiel do que chamo de ‘Pobre Cachoeirinha!’: uma cidade em que a política, há uma década, mistura-se quase diariamente com o noticiário policial.

E o eleitor, diante disso, fez uma escolha consciente — e isso é importante sublinhar: não foi desinformação. Pesquisas indicavam que entre 80% e 90% dos eleitores sabiam da eleição. Ainda assim, 40% decidiram não votar.

Não é ausência. É recusa.

O que aconteceu em Cachoeirinha dialoga com um movimento mais amplo no Brasil.

Em reportagem do G1 logo após a eleição de 2024 apontar abstenção exponencial e nos patamares do pleito da pandemia, especialistas já apontaram que o fenômeno tem relação com desilusão política, falta de identificação com candidatos e até a percepção de que o resultado já está definido.

Há também um dado estrutural: os mais pobres estão deixando de votar mais.

Isso ajuda a explicar — ao menos em parte — o cenário local. Jussara, segundo pesquisas, tinha melhor desempenho justamente entre eleitores de menor renda e escolaridade.

Se esse eleitor vota menos, o impacto é direto no resultado.

Outro fator aparece com força aqui: o “já ganhou”.

Como observou ao Seguinte: o sociólogo Roberto Garcia, do Studio Pesquisas, a expectativa de vitória de Jussara pode ter desmobilizado parte do eleitorado. Quando a eleição parece decidida antes do voto, o voto perde sentido.

E o eleitor fica em casa.

Há uma transformação silenciosa em curso no sistema eleitoral brasileiro.

O voto segue sendo obrigatório no papel. Mas, na prática, tornou-se facultativo.

Com o e-Título, justificar ausência é simples. A multa é simbólica: um cafezinho na padaria, pago no Pix, sem sair do celular.

O resultado é um “voto obrigatório fake”. E isso muda tudo.

Porque, se antes a abstenção era exceção, agora começa a se tornar regra. E, mais grave: uma regra politicamente significativa.

Quem não vota também está votando — contra o sistema.

Aí, incluem-se as quatro candidaturas: Jussara, Claudine Silveira, Tairone Keppler e Laís Cardoso.

Entre o impeachment e a ‘maldição’

Há ainda um fator específico desta eleição: o contexto institucional.

A votação ocorreu logo após o impeachment de Cristian Wasem, que reorganizou completamente o cenário político local. Como já analisei, não foi apenas uma ruptura política — foi institucional.

E isso divide o eleitor.

Entre os que aprovaram a cassação e os que a rejeitaram.

Entre os que queriam “arrumar a casa” e os que viam “injustiça”.

Esse ambiente de tensão, somado ao desgaste acumulado, também ajuda a explicar a abstenção elevada.

O eleitor, muitas vezes, não vê saída — e opta por não escolher lado.

Nas redes sociais, após o resultado apertado, surgiram projeções de novos cenários de instabilidade, inclusive com menções a um eventual impeachment futuro.

Não parece plausível. A própria história recente mostra um limite, ali cruzando a 59.

Em Gravataí, o impeachment de Rita Sanco, em 2011, tornou-se um trauma político revisitado anos depois, a ponto de, neste ano de 2026, a Câmara reconhecer, simbolicamente, que as acusações não se sustentaram.

O efeito disso foi claro: impeachment virou tabu. ‘Maldição de Rita’, até, como conto em Câmara de Gravataí reconhece que impeachment era ‘golpeachment’ contra prefeita Rita; o decreto.

A política aprende — às vezes pelo erro.

E o eleitor, em Cachoeirinha, já deu sinais de que não tolera mais instabilidade permanente.

Jussara venceu. Agora precisa governar

A vitória de Jussara, como mostrei em #DasUrnas | Em eleição voto a voto, Jussara transforma maioria política em vitória nas urnas; é a primeira prefeita eleita em Cachoeirinha, foi a vitória da estrutura. Da maioria institucional convertida em maioria eleitoral.

Mas a abstenção mostra o limite dessa lógica. Arranjo político ganha eleição. Não garante governabilidade social.

E é aqui que começa o verdadeiro desafio.

Reputo que Jussara precisa fazer três movimentos simultâneos:

1. Pacificar a cidade

O “hoje vão ter que me engolir”, dito no calor da vitória, cabe como desabafo. Não como método de governo.

Cachoeirinha precisa de estabilidade — não de revanche.

A declaração você assiste em SEGUINTE TV | “Vão ter que me engolir”: Jussara Caçapava é eleita prefeita de Cachoeirinha; assista como foi, da expectativa à vitória.

2. Transformar aliança em resultado

Sua megacoligação é um ativo poderoso — e heterogêneo.

Tem lulistas, bolsonaristas, aliados do governo estadual, pontes com Brasília.

Para dar nome às coisas, as quatro principais candidaturas ao governo gaúcho abriram apoio para a prefeita interina. Seu partido, o Avante, “fez o L” em 2022, seu vice, Mano do Parque (PL), vestia boné do Bolsonaro na festa da vitória, e seu pré-candidato a deputado estadual, Dimas Costa, é o ‘embaixador’ de Eduardo Leite, governador até 31 de dezembro.

Precisa usar esse pragmatismo implacável para buscar recursos e entregar políticas públicas.

Pragmatismo eleitoral precisa virar pragmatismo administrativo.

3. Governar sem pensar em 2028

A máxima segue válida: governo bom ganha eleição. Ponto.

Fosse tão ruim o governo Cristian e não teria o prefeito cassado exercido com tanta força o papel de ‘Grande Eleitor’ de Claudine Silveira, segunda colocada.

Menos boné, mais sandália da humildade

Ao fim, a eleição de Cachoeirinha produziu dois resultados.

Um, formal: Jussara é prefeita. Outro, político: quase metade da cidade não quis participar da escolha.

E esse segundo resultado é o mais difícil de administrar. Porque não se resolve com articulação. Nem com maioria na Câmara. Nem com coligação.

Resolve-se com governo. Com entrega. Com estabilidade. Com a reconstrução de algo que hoje parece escasso: confiança.

É menos boné de torcida organizada e mais sandália da humildade.

A bola entrou. É gol. A democracia funciona assim. Mas, desta vez, o estádio estava meio vazio. E quando o estádio esvazia, o problema não é o placar.

É o jogo.


LEIA TAMBÉM

Uma análise sobre a eleição deste domingo em Cachoeirinha


Assista ao vídeo da SEGUINTE TV

Participe de nossos canais e assine nossa NewsLetter

Facebook
WhatsApp
Twitter
LinkedIn
Pinterest

Conteúdo relacionado

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Receba nossa News

Publicidade