No #DasUrnas, siga diariamente quem ganhou, quem perdeu, quem empatou e os números e análises da eleição suplementar pós-impeachment.
Por trás da vitória voto a voto de Jussara Caçapava neste domingo (12), na eleição suplementar para a Prefeitura de Cachoeirinha, há um fenômeno, um som do silêncio, que grita mais alto que os 530 votos de diferença: 42.506 eleitores simplesmente não foram às urnas.
Em um universo de 102.143 aptos, a abstenção de 42,22% não é um detalhe estatístico. É personagem central da eleição. E, talvez, o mais eloquente.
A prefeita eleita governa com a legitimidade formal das urnas, como manda a democracia. Fez o gol. Venceu. É prefeita. Ponto.
Mas governa, também, sobre um silêncio ensurdecedor: representa cerca de 22,12% do eleitorado total da cidade.
É aqui que a análise começa — e o alerta também.
Cachoeirinha não vive uma eleição. Vive um ciclo.
Um ciclo que, como venho descrevendo, beira o ‘Dia da Marmota’ (como no filme) institucional: cassações, denúncias, CPIs, suspeitas de corrupção, Polícia Federal na porta de prefeitos, afastamentos pela Justiça, eleições suplementares em série.
Em menos de seis anos, cinco comandos no Executivo. Não é normal. E o eleitor sabe.
A abstenção deste domingo é a tradução mais fiel do que chamo de ‘Pobre Cachoeirinha!’: uma cidade em que a política, há uma década, mistura-se quase diariamente com o noticiário policial.
E o eleitor, diante disso, fez uma escolha consciente — e isso é importante sublinhar: não foi desinformação. Pesquisas indicavam que entre 80% e 90% dos eleitores sabiam da eleição. Ainda assim, 40% decidiram não votar.
Não é ausência. É recusa.
O que aconteceu em Cachoeirinha dialoga com um movimento mais amplo no Brasil.
Em reportagem do G1 logo após a eleição de 2024 apontar abstenção exponencial e nos patamares do pleito da pandemia, especialistas já apontaram que o fenômeno tem relação com desilusão política, falta de identificação com candidatos e até a percepção de que o resultado já está definido.
Há também um dado estrutural: os mais pobres estão deixando de votar mais.
Isso ajuda a explicar — ao menos em parte — o cenário local. Jussara, segundo pesquisas, tinha melhor desempenho justamente entre eleitores de menor renda e escolaridade.
Se esse eleitor vota menos, o impacto é direto no resultado.
Outro fator aparece com força aqui: o “já ganhou”.
Como observou ao Seguinte: o sociólogo Roberto Garcia, do Studio Pesquisas, a expectativa de vitória de Jussara pode ter desmobilizado parte do eleitorado. Quando a eleição parece decidida antes do voto, o voto perde sentido.
E o eleitor fica em casa.
Há uma transformação silenciosa em curso no sistema eleitoral brasileiro.
O voto segue sendo obrigatório no papel. Mas, na prática, tornou-se facultativo.
Com o e-Título, justificar ausência é simples. A multa é simbólica: um cafezinho na padaria, pago no Pix, sem sair do celular.
O resultado é um “voto obrigatório fake”. E isso muda tudo.
Porque, se antes a abstenção era exceção, agora começa a se tornar regra. E, mais grave: uma regra politicamente significativa.
Quem não vota também está votando — contra o sistema.
Aí, incluem-se as quatro candidaturas: Jussara, Claudine Silveira, Tairone Keppler e Laís Cardoso.
Entre o impeachment e a ‘maldição’
Há ainda um fator específico desta eleição: o contexto institucional.
A votação ocorreu logo após o impeachment de Cristian Wasem, que reorganizou completamente o cenário político local. Como já analisei, não foi apenas uma ruptura política — foi institucional.
E isso divide o eleitor.
Entre os que aprovaram a cassação e os que a rejeitaram.
Entre os que queriam “arrumar a casa” e os que viam “injustiça”.
Esse ambiente de tensão, somado ao desgaste acumulado, também ajuda a explicar a abstenção elevada.
O eleitor, muitas vezes, não vê saída — e opta por não escolher lado.
Nas redes sociais, após o resultado apertado, surgiram projeções de novos cenários de instabilidade, inclusive com menções a um eventual impeachment futuro.
Não parece plausível. A própria história recente mostra um limite, ali cruzando a 59.
Em Gravataí, o impeachment de Rita Sanco, em 2011, tornou-se um trauma político revisitado anos depois, a ponto de, neste ano de 2026, a Câmara reconhecer, simbolicamente, que as acusações não se sustentaram.
O efeito disso foi claro: impeachment virou tabu. ‘Maldição de Rita’, até, como conto em Câmara de Gravataí reconhece que impeachment era ‘golpeachment’ contra prefeita Rita; o decreto.
A política aprende — às vezes pelo erro.
E o eleitor, em Cachoeirinha, já deu sinais de que não tolera mais instabilidade permanente.
Jussara venceu. Agora precisa governar
A vitória de Jussara, como mostrei em #DasUrnas | Em eleição voto a voto, Jussara transforma maioria política em vitória nas urnas; é a primeira prefeita eleita em Cachoeirinha, foi a vitória da estrutura. Da maioria institucional convertida em maioria eleitoral.
Mas a abstenção mostra o limite dessa lógica. Arranjo político ganha eleição. Não garante governabilidade social.
E é aqui que começa o verdadeiro desafio.
Reputo que Jussara precisa fazer três movimentos simultâneos:
1. Pacificar a cidade
O “hoje vão ter que me engolir”, dito no calor da vitória, cabe como desabafo. Não como método de governo.
Cachoeirinha precisa de estabilidade — não de revanche.
A declaração você assiste em SEGUINTE TV | “Vão ter que me engolir”: Jussara Caçapava é eleita prefeita de Cachoeirinha; assista como foi, da expectativa à vitória.
2. Transformar aliança em resultado
Sua megacoligação é um ativo poderoso — e heterogêneo.
Tem lulistas, bolsonaristas, aliados do governo estadual, pontes com Brasília.
Para dar nome às coisas, as quatro principais candidaturas ao governo gaúcho abriram apoio para a prefeita interina. Seu partido, o Avante, “fez o L” em 2022, seu vice, Mano do Parque (PL), vestia boné do Bolsonaro na festa da vitória, e seu pré-candidato a deputado estadual, Dimas Costa, é o ‘embaixador’ de Eduardo Leite, governador até 31 de dezembro.
Precisa usar esse pragmatismo implacável para buscar recursos e entregar políticas públicas.
Pragmatismo eleitoral precisa virar pragmatismo administrativo.
3. Governar sem pensar em 2028
A máxima segue válida: governo bom ganha eleição. Ponto.
Fosse tão ruim o governo Cristian e não teria o prefeito cassado exercido com tanta força o papel de ‘Grande Eleitor’ de Claudine Silveira, segunda colocada.
Menos boné, mais sandália da humildade
Ao fim, a eleição de Cachoeirinha produziu dois resultados.
Um, formal: Jussara é prefeita. Outro, político: quase metade da cidade não quis participar da escolha.
E esse segundo resultado é o mais difícil de administrar. Porque não se resolve com articulação. Nem com maioria na Câmara. Nem com coligação.
Resolve-se com governo. Com entrega. Com estabilidade. Com a reconstrução de algo que hoje parece escasso: confiança.
É menos boné de torcida organizada e mais sandália da humildade.
A bola entrou. É gol. A democracia funciona assim. Mas, desta vez, o estádio estava meio vazio. E quando o estádio esvazia, o problema não é o placar.
É o jogo.
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