A política de Gravataí acaba de produzir um daqueles gestos que não mudam o passado, mas revisam um episódio mal parido.
O presidente da Câmara de Vereadores, Dilamar Soares (Podemos), o Dila, publicou o Decreto Legislativo 4/2026. No papel, um registro institucional. Na prática, uma espécie de ‘cassação moral’ do impeachment que, em 2011, retirou do poder a então prefeita Rita Sanco (PT) e o vice Cristiano Kingeski (PT).
Não há anulação. Não há devolução de mandato. Não há revisão formal. Mas há algo mais difícil de produzir na política, principalmente num parlamento com apenas uma vereadora do partido de Rita: um reconhecimento histórico.
O decreto registra que decisões judiciais posteriores julgaram improcedentes as acusações que embasaram a cassação e, a partir disso, a Câmara reconhece, ainda que “em plano estritamente institucional e simbólico”, a restauração da honra, da imagem e da dignidade de Rita e Kingeski.
É pouco? Reputo é tudo o que é possível.
Ou, como tenho chamado desde que o Judiciário desmontou as denúncias: uma resposta tardia ao ‘golpeachment’.
Dila já tinha antecipado a articulação com exclusividade para o Seguinte: em 11 de março, na entrevista “Sou candidato a prefeito”: a entrevista em que Dila fala sobre gestão, corte de gastos e polêmicas políticas de Gravataí; assista.
O texto do decreto é cirúrgico e cuidadoso. Afirma que os fundamentos da cassação “não subsistiram posteriormente no âmbito jurisdicional”. Traduzindo: a Justiça disse que não havia crime.
Mas, ao mesmo tempo, preserva o ato político de 2011. Não há revisão, nem nulidade. A Câmara respeita “a autonomia das legislaturas pretéritas” e a separação entre os Poderes.
É o equilíbrio possível entre o jurídico e o político. Entre o que pode ser desfeito e o que só pode ser reinterpretado.
A exposição de motivos deixa claro: trata-se de “registro histórico” e “reconhecimento simbólico”. Um gesto de memória institucional.
Um gesto — mas não qualquer gesto.
O decreto não passou por votação em plenário. Nem precisava. A segurança jurídica veio do procurador-geral da Câmara, José Luís Blaszak, ex-juiz do Tribunal Regional Eleitoral, que elaborou o texto sob encomenda da presidência.
Além de Dila, 14 dos 21 vereadores assinaram a iniciativa. Equivale ao ‘quórum qualificado’, necessário para uma aprovação de impeachment. Uma maioria política que, ainda que não revise o passado, sinaliza uma leitura diferente sobre ele.
Além do proponente Dila, assinaram o decreto Airton Leal (MDB), Alex Peixe (PSDB), Anna Beatriz da Silva (PSD), Beto Bacamarte (MDB), Bombeiro Batista (Republicanos), Claudecir Lemes (MDB), Clebes Mendes (PSDB), Fábio Ávila (Republicanos), Guarda Moises (Republicanos), Hiago Pacheco (PP), Marcia Becker (PSDB), Paulinho da Farmácia (Podemos), Roger Corrêa (PP) e Vitalina Gonçalves (PT).
A Câmara também vai realizar uma sessão especial para marcar o reconhecimento, com a presença de Rita e Kingeski.
O passado voltará ao plenário onde foi decidido. Agora, bem parido.



A ‘maldição de Rita’
O impeachment de 2011 não foi apenas um processo político. Foi um evento que reorganizou a história da cidade e deixou marcas que o tempo não apagou.
Rita Sanco foi a prefeita mais votada da história local. Foi cassada. Ficou oito anos inelegível. E, depois, foi absolvida de todas as denúncias. Cristiano, vice mais jovem já eleito na aldeia, também. Ambos tiveram suas carreiras políticas ceifadas.
No intervalo entre esses fatos, criou-se uma narrativa informal nos bastidores da política: a ‘maldição de Rita’.
Uma sequência de mortes físicas e políticas atingiu personagens centrais daquele processo. De vereadores que não voltaram a se eleger a lideranças que desapareceram da cena pública — ou da própria vida.
Detalhei dia 13, em Rita volta à tribuna 15 anos depois da cassação — e Gravataí revisita o impeachment de 2011.
Não se trata de misticismo. Trata-se de percepção política. Uma cidade tentando dar sentido ao seu trauma.
O decreto de Dila não nasce isolado. Ele é parte de uma sequência. Primeiro, a volta de Rita à tribuna, 15 anos depois da cassação, no mesmo plenário, agora como homenageada. Depois, a medalha da Assembleia Legislativa entregue no mesmo espaço onde perdeu o mandato.
Agora, o reconhecimento institucional de que as acusações não se sustentaram.
Não há revisão jurídica. Essa já ocorreu — e absolveu. O que está em curso é outra coisa: uma revisão política. E simbólica.
Gravataí parece, aos poucos, revisitar sua própria história.
É o fim da ‘maldição’? A pergunta fica.
Se a sequência de episódios funestos era, no fundo, a permanência de um episódio mal resolvido na memória política da cidade, o decreto pode ser o início de um encerramento.
Não do fato. Mas do seu significado.
A cassação de 2011 continuará existindo. Mas, a partir de agora, coexistirá com um registro oficial de que suas bases ruíram no Judiciário.
É uma convivência incômoda. Mas, insisto, talvez seja a única possível.
Ao fim, o que muda? Na prática, nada. Na história, tudo.
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