A sessão solene que homenageou mulheres na Câmara de Vereadores de Gravataí foi um reencontro com a própria história política da cidade.
Na noite em que o Legislativo entregou a Comenda Destaque Mulher Gravataiense, uma das maiores honrarias da Casa, a ex-prefeita Rita Sanco (PT) voltou à tribuna 15 anos depois da aprovação de seu impeachment naquele mesmo plenário.
Convidada a discursar em nome das homenageadas, a professora de História — ‘Dos Grandes Lances dos Piores Momentos’ cassada em um 15 de outubro, dia dos professores — fez uma fala serena sobre o Dia Internacional da Mulher e a importância da participação feminina na política.
Mas o gesto tinha uma camada extra de simbolismo.
A comenda entregue naquela noite foi criada pela própria Rita em 2001, quando exercia mandato no Legislativo. Mais de duas décadas depois, a autora da iniciativa retornava ao plenário como homenageada.
E num momento em que a cidade volta a discutir um dos episódios políticos mais traumáticos da sua história recente: o impeachment de 2011.
A ‘maldição de Rita’
O afastamento de Rita da Prefeitura permanece como um capítulo controverso da política local.
A então prefeita — a mais votada da história de Gravataí — foi cassada pela Câmara em um processo que testemunhei, reportei e, com o decorrer dos anos, passei a chamar de ‘golpeachment’: uma decisão política tomada dentro da legalidade formal, mas que depois restou sem que se comprovassem crimes de responsabilidade ou corrupção.
Rita cumpriu oito anos de inelegibilidade, mesmo tendo sido absolvida judicialmente das 11 denúncias apresentadas contra seu governo.
O episódio produziu efeitos que, nos bastidores da política gravataiense, ganharam até um nome informal, mesmo sendo ela a principal vítima: a ‘maldição de Rita’.
A expressão surgiu da sequência de acontecimentos — da imponderabilidade das mortes físicas às circunstanciais mortes políticas — que atingiu personagens centrais daquele processo.
Historifico, mesmo sabendo teclar pelo delicado terreno de uma provável incompreensão. Peço a Voltaire a bênção: “O segredo de aborrecer é dizer tudo”.
O vereador Bernardo Nunes, que integrava o bloco favorável à cassação, faleceu às vésperas da votação, vítima de câncer.
Nos anos seguintes, também morreram figuras importantes daquele período, como Acimar da Silva, prefeito eleito indiretamente após a cassação e assassinado em um assalto; Nadir Rocha, presidente da Câmara que assumiu interinamente a Prefeitura; Cau Dias, vítima de câncer; e Roberto Andrade, morto em decorrência da Covid-19.
Outros personagens tiveram o que, na política, costuma ser chamado de ‘morte política’.
Vereadores que votaram pela cassação, como Dário Bhlem, Zilon Espíndola, Márcio Souza, Ricardo Canabarro e Vail Corrêa, não voltaram a conquistar mandatos.
Nem mesmo parlamentares que votaram contra o impeachment conseguiram manter trajetória eleitoral. Tânia Ferreira, Carlito Nicolait, Airton Leal e Carlinhos Medeiros também ficaram fora da vida parlamentar nos anos seguintes.
Airton voltou neste mandato.
Entre os poucos sobreviventes políticos daquele período estão o atual vice-prefeito Dr. Levi e o vereador Cláudio Ávila, autor do pedido de impeachment e hoje parlamentar.
Volto a isso — para fazer a conexão com Cachoeirinha, que experimenta um impeachment — na conclusão deste artigo.

Um plenário cheio de simbolismos
A sessão que marcou a volta de Rita também foi carregada de gestos simbólicos.
Pela primeira vez em uma data alusiva ao Dia Internacional da Mulher, o presidente da Câmara, Dilamar Soares (Podemos), cedeu a condução da sessão a uma vereadora.
A escolhida — em comum acordo entre as três parlamentares — foi Anna Beatriz da Silva (PSD), que presidiu os trabalhos ao lado de Márcia Becker (PSDB) e Vitalina Gonçalves (PT), propositora da homenagem a Rita.
As três ocuparam juntas a mesa principal.
O plenário estava lotado, com mais de 300 pessoas acompanhando a entrega da comenda a 21 mulheres que se destacam na sociedade gravataiense.
Antes das homenagens, porém, o ambiente foi tomado por um momento de silêncio.
Foram lidos os nomes de 20 mulheres vítimas de feminicídio no Rio Grande do Sul apenas nos primeiros meses de 2026.
Na primeira fileira do plenário, bancos vermelhos simbolizavam essas vidas interrompidas.
A cerimônia também reuniu no mesmo plenário lideranças de grupos que em 2024 protagonizaram uma das eleições mais tensas da história recente de Gravataí.
De um lado, o prefeito Luiz Zaffalon (PSD) e o deputado estadual Dimas Costa (PSD). Do outro, a deputada estadual Patrícia Alba (MDB), representante do grupo do ex-prefeito Marco Alba (MDB).
Os dois grupos travam o que batizei de ‘III Guerra Política de Gravataí’, após o rompimento entre Zaffa e Marco — que havia sido o ‘Grande Eleitor’ da eleição do atual prefeito em 2020.
Na sessão, porém, prevaleceu a institucionalidade.
Cumprimentos foram trocados, autoridades foram citadas nominalmente e as provocações ficaram no campo sutil.
Quando Patrícia lembrou a luta de seu mandato para a escola estadual modelo do Breno Garcia, Zaffa respondeu citando o deputado Dimas como ‘embaixador’ do governador Eduardo Leite em Gravataí — outra expressão que cunhei.
E parou por aí.

Vidente dos fatos
A volta de Rita à tribuna ocorreu poucas horas depois de o presidente da Câmara anunciar ao Seguinte: que articula um projeto simbólico para anular a sessão que cassou a prefeita em 2011; assista em “Sou candidato a prefeito”: a entrevista em que Dila fala sobre gestão, corte de gastos e polêmicas políticas de Gravataí.
A medida não teria efeito jurídico — o processo permaneceria como ocorreu —, mas representaria um gesto político de revisão histórica.
No próximo 18 de março, Rita também receberá a Medalha do Mérito Farroupilha, concedida pelo deputado estadual Pepe Vargas, em cerimônia marcada para o próprio plenário da Câmara.
Fato é que, entre homenagens, memórias e movimentos de bastidores, a política gravataiense parece disposta a revisitar sua história.
Ao fim, chego à conclusão do artigo conectando ao hoje de Cachoeirinha. O prefeito cassado Cristian Wasem (MDB) foi vítima de um ‘golpeachment’? Reputo há, ainda, diferenças.
Rita foi absolvida em todas as instâncias judiciais. Pemaneceu o julgamento político. Foi quando, então, criei a expressão ‘golpeachment’.
As denúncias sobre Cristian ainda não foram analisadas juridicamente em seu mérito.
E não sou policial, promotor, juiz ou vidente, para investigar, processar, julgar ou antecipar o que vai acontecer. Nem toda história se repete como farsa.






