Ao menos moralmente, o PT nunca soltou a mão de Rita, mesmo quando inelegível. Mas quando a ex-prefeita de Gravataí recebeu a medalha da 56ª Legislatura da Assembleia Legislativa, na noite de quarta-feira (18), no plenário da Câmara de Vereadores, o gesto ultrapassou o partidarismo e o protocolo. Havia ali mais do que reconhecimento. Havia memória. Uma memória política. Uma memória cada vez mais desvelada.
A honraria foi entregue pelo deputado estadual Pepe Vargas, proponente do reconhecimento ainda no ano passado quando presidia a Assembleia Legislativa gaúcha, acompanhado por duas figuras que ajudam a dimensionar o ato: o ex-governador Olívio Dutra e o ex-prefeito de Porto Alegre Raul Pont.
O plenário estava cheio. Militantes, dirigentes sindicais, lideranças de movimentos sociais, políticos, amigos, familiares. Mais de uma centena de pessoas.
Na mesa, além da homenageada e de Pepe, nomes como o deputado estadual e ex-vice-governador Miguel Rossetto, a histórica cutista e ex-presidente do Cpers/RS Helenir Aguiar, o ex-presidente da OAB gaúcha Paulo Torelly e a vereadora Vitalina Gonçalves, que em 2024 retomou um mandato que os petistas não tinham por mais de uma década.
Na condução institucional, o presidente da Câmara, Dilamar Soares (Podemos), o Dila.
E é aqui que o ato começa a ganhar outra camada.
Dila, que petista não é, afirmou que receber a homenagem no plenário era “devolver a Casa ao povo”. Referia-se ao espaço ter sido negado para o evento pela gestão anterior. Mais do que isso: anunciou que trabalha para uma sessão simbólica de devolução do mandato de prefeita a Rita.
Não tem efeito jurídico. Tem efeito político. E, talvez, histórico.
Porque Rita não é apenas uma ex-prefeita homenageada. É personagem central de um dos episódios mais controversos da política gravataiense: o impeachment de 2011.
Quinze anos depois, como já se viu recentemente em sua volta à tribuna da Câmara, a cidade ainda não encerrou esse capítulo. No máximo, aprendeu a conviver com ele.
Ou a revisitá-lo — de tempos em tempos.
Pepe Vargas deixou isso explícito ao justificar o local da entrega da medalha. Disse que não faria sentido realizar a homenagem em outro espaço que não aquele plenário — “por tudo o que ele significa”.
A frase tem texto, principalmente quando o deputado lembrou o impeachment de Rita, em 2011, e ganhou subtexto ao historicizar o episódio como um laboratório para o impedimento de Dilma, em 2016.



A ‘ideia’ Rita
Ao falar, Rita fez o movimento oposto ao do embate: foi para o coletivo. Característica sua.
Disse que recebia a medalha como reconhecimento de uma luta construída na cidade por respeito, justiça e democracia. Falou de sonhos — uma vida sem violência para as mulheres, educação pública de qualidade, direito à habitação.
E reforçou: são construções coletivas.
É uma escolha narrativa. Em vez de revisitar o conflito, reafirma a causa. A idéia.
Pepe, por sua vez, tratou de individualizar o mérito. Disse que toda luta coletiva também carrega qualidades pessoais — e citou diretamente honestidade, seriedade e compromisso com a democracia como atributos que dão sentido à medalha.
É o ponto de encontro entre biografia e política.
A homenagem ocorre dias depois de outro momento carregado de simbolismo: o retorno de Rita à tribuna da Câmara, 15 anos após a cassação, em sessão dedicada ao Dia Internacional da Mulher.
Analisei em artigo no Seguinte:. Leia em Rita volta à tribuna 15 anos depois da cassação — e Gravataí revisita o impeachment de 2011.
Naquela noite, a autora de uma honraria criada em 2001 voltava ao plenário como homenageada. Agora, retorna novamente — desta vez, com uma medalha do Parlamento gaúcho.
Não são fatos isolados. São sinais.
Gravataí parece viver um movimento silencioso de revisão de sua própria história recente. Não necessariamente jurídica — essa já teve seu curso, com a absolvição de Rita nas instâncias judiciais —, mas política. E simbólica.
A medalha da 56ª Legislatura, nesse contexto, deixa de ser apenas uma honraria. Passa a ser um gesto. Um posicionamento. Uma leitura de passado.
Ao fim, a pergunta não é apenas o que representa a homenagem a Rita. Mas o que ela diz sobre Gravataí. Sobre como a cidade escolhe lembrar. E, principalmente, sobre como decide — ou não — reinterpretar sua própria história.
O PT não soltou a mão de Rita. A política de Gravataí ensaia retomá-la. Com um cumprimento, que seja.






