“À beira do precipício. Lá embaixo, olhando para cima”. Era uma tirada do Millôr. Em fevereiro deste ano, o debate público em torno do Hospital Universitário (HU) de Canoas orbitava perigosamente na borda de semelhante abismo. Discutia-se a chamada “interdição ética cautelar” imposta pelo Conselho Regional de Medicina (Cremers), uma medida absurda que ameaçava fechar portas para novos bebês, gestantes e crianças em setores críticos como UTI neonatal, pediatria e centro obstétrico.
Naquele momento, como registrei no Seguinte:, prevaleceu a sensatez jurídica e o interesse público: a Justiça Federal barrou o encerramento precipitado dos acessos e evitou o que seria um colapso em cadeia para os 153 municípios gaúchos dependentes da alta complexidade da instituição.
Nesta quinta-feira (17), a cena vivida nos corredores do HU foi o oposto do fantasma do fechamento. Não se falou em restrição de portas, mas em expansão. Em ato oficial pela manhã, com a presença de autoridades, servidores e imprensa, a Prefeitura de Canoas e a Associação Saúde em Movimento (ASM) entregaram 50 novos leitos destinados exclusivamente ao atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Com a entrega imediata, a capacidade operacional do hospital saltou de 309 para 359 leitos — um incremento de aproximadamente 16% na estrutura assistencial da casa. Do total de vagas abertas, 15 foram destinadas à unidade de isolamento, 20 à obstetrícia e 15 à pediatria. A conquista soma-se a investimentos anteriores que já haviam garantido dez novos leitos de UTI adulta, sete salas cirúrgicas e um novo angiógrafo.
A abertura desses 50 leitos não é um evento isolado; é parte do cumprimento de um plano maior e de compromissos institucionais firmados pela administração municipal. No início de setembro, a 3ª Vara Cível de Canoas homologou um plano de ação para a recuperação do Hospital de Pronto Socorro (HPS) de Canoas — fechado desde as devastadoras enchentes de 2024. A decisão judicial definiu cronogramas rigorosos para as obras do HPS até 2027, sob pena de multa ao município, e estabeleceu que, enquanto a estrutura do pronto-socorro passa por recuperação, a rede local precisa responder à demanda reprimida.
O plano judicializado previu justamente a ampliação da capacidade do HU em até 100 leitos adicionais para absorver o impacto da reorganização da urgência e emergência no município. Portanto, ao colocar os 50 leitos em funcionamento nesta quinta-feira, a Prefeitura dá um sinal claro de cumprimento dos pactos celebrados com o Ministério Público, com o Judiciário e, acima de tudo, com a população.
Durante o ato oficial, as declarações das lideranças expressaram o alívio e a determinação de quem precisou atravessar a tempestade política e administrativa para colher resultados concretos.
“Cada novo leito representa mais atendimento, mais acesso e mais dignidade para quem precisa da saúde pública. Estamos em um processo contínuo de evolução do Hospital Universitário, com a realização de mutirões de cirurgias, ampliação de setores, novos equipamentos e novas salas cirúrgicas. Agora, entregamos mais 50 leitos e chegamos a 359. Seguimos trabalhando para que o HU possa utilizar plenamente sua estrutura e ampliar ainda mais os serviços oferecidos à população nos próximos meses”, destacou o prefeito Airton Souza.
A fala do chefe do Executivo sintetiza a postura adotada desde a crise do início do ano: a substituição do confronto ideológico pela articulação pragmática. A ampliação do HU reflete a capacidade de manter pontes abertas entre a gestão municipal (do PL) e o Governo Federal (do PT), garantindo aportes financeiros indispensáveis. Algo que deveria ser óbvio em relações republicanas, mas que resta em extinção como vagalumes — mas isso já analisei em uma série de artigos anteriores. Sigamos.
A secretária municipal da Saúde, Ana Boll, ressaltou o fortalecimento focado na proteção materno-infantil, segmento que meses atrás esteve no centro do debate sobre interdição.
“Hoje é mais um dia importante para o Hospital Universitário. A abertura de 50 novos leitos significa ampliar o acesso e permitir que mais pessoas sejam atendidas simultaneamente. Temos um avanço importante especialmente na linha materno-infantil, com 20 leitos de obstetrícia e 15 pediátricos, além dos leitos de isolamento. O HU é referência na Rede Alyne para o atendimento de gestantes, incluindo casos de risco e partos normais, além de contar com alojamento conjunto e UTI neonatal. Com essa expansão, temos condições de fortalecer e ampliar essa rede de atendimento”, disse.
Pelo lado da gestão operacional, a presidente da Associação Saúde em Movimento, Cláudia Vitti, pontuou o esforço de reconstrução do ambiente hospitalar.
“É um momento muito especial, resultado de um trabalho que exigiu esforço e superação. A estrutura do Hospital Universitário sempre teve grande potencial, mas era necessário recuperar os leitos, os equipamentos e as condições adequadas de atendimento. Hoje, ver essa capacidade sendo retomada é motivo de muita alegria. Mais do que ampliar a estrutura, estamos garantindo dignidade aos pacientes, oferecendo um ambiente adequado, equipes preparadas e acolhimento para que cada pessoa possa receber o cuidado necessário e retornar o quanto antes para junto de sua família”, afirmou.
Já a superintendente hospitalar da entidade, Tatiani Pacheco, detalhou a engenharia financeira e a articulação institucional que viabilizaram a entrega, ressaltando que a nova oferta atende a pacientes que já aguardavam por socorro.
“Estamos abrindo 50 novos leitos que já atendem a uma demanda existente, com pacientes aguardando por atendimento. Essa ampliação faz parte de um projeto apresentado em conjunto pela Prefeitura, Câmara Municipal e Associação Saúde em Movimento ao Ministério da Saúde, com etapas definidas para a reabertura e a retomada da capacidade do Hospital Universitário. Neste momento, o Governo Federal destinou um aporte mensal de R$ 4,8 milhões, recurso que viabiliza a estruturação dos leitos, a aquisição e disponibilização de equipamentos e também a ampliação dos atendimentos previstos no plano operativo pactuado com o Município”, explicou.
Ao fim, a trajetória do Hospital Universitário — da ameaça de silêncio nas UTIs neonatais à entrega de 50 novos leitos — sintetiza o que deveria ser a regra na administração do SUS: cooperação técnica sobrepondo-se a doenças da política.
Em uma Canoas que ainda carrega as cicatrizes de ter tido metade do seu território debaixo d’água, e onde a esmagadora maioria da população não tem outra alternativa além do atendimento público, a ampliação do HU reafirma um diagnóstico fático: diante da dor e da urgência, a boa política não precisa calçar ferradura ideológica. Insisto: deveria ser o óbvio; é cada vez mais um vagalume — em extinção.







