RAFAEL MARTINELLI

Davi assume secretaria estratégica e coloca Gravataí no centro do governo Leite

Depois de 16 anos, Gravataí volta a ocupar uma cadeira no primeiro escalão do governo do Estado. E não é qualquer cadeira. O ex-secretário da Fazenda do município, Davi Severgnini, recebeu na noite desta quarta-feira o convite do governador Eduardo Leite para assumir a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano (Sedur), uma das pastas mais poderosas do Palácio Piratini, especialmente no contexto pós-enchentes.

A nomeação, formalmente atribuída ao governador e ao secretário de Governo Artur Lemos, tem digitais políticas conhecidas: Dimas Costa, o ‘embaixador’ do governador em Gravataí, que após dois anos como deputado estadual acompanhou Lemos, o ‘número 1’ de Leite, na Secretaria de Governo, assumida ontem.

O governador já tuitou a nomeação.

É um reposicionamento de Davi. Estadual e, inevitavelmente, municipal.

A chegada ao governo estadual ocorre pouco mais de um mês após uma saída que sacudiu os bastidores da política de Gravataí.

Davi deixou a Prefeitura em fevereiro, após 11 anos como secretário da Fazenda e 14 anos de atuação no Executivo. Pediu exoneração ao amanhecer, sem reunião final, sem foto de despedida — um gesto que, por si só, já dizia mais do que qualquer nota oficial.

Era, até então, o que eu chamava ‘Zaffa do Zaffa’, pela proximidade e influência sobre o prefeito Luiz Zaffalon, o que o fazia, ao menos no meio político, a grande aposta para a sucessão em 2028.

Mais do que guardião das contas, era articulador político, fiador de alianças e operador da maior coligação eleitoral da história da cidade, construída na reeleição de 2024.

Zaffa, publicamente, tentou segurar. Disse que ele poderia voltar “na mesma hora”. Não voltou.

Hoje, subiu.

Um secretário ‘made in Gravataí’

A Sedur não é uma secretaria qualquer. Com orçamento bilionário, concentra obras estruturantes, especialmente na Região Metropolitana: pavimentação urbana, planejamento territorial e, no pós-catástrofe climática, o cinturão de diques que envolve cidades como Porto Alegre, Canoas, Cachoeirinha, Alvorada e a própria Gravataí.

É, na prática, um centro de poder técnico com forte impacto político.

Dimas resumiu o simbolismo:

– É um secretário made in Gravataí.

A frase carrega mais do que orgulho local. Traduz uma construção política. Foi Davi quem articulou o apoio de Dimas à reeleição de Zaffa. Agora, é Dimas quem ajuda a conduzi-lo ao Estado.

– Lealdade não prescreve. Lealdade não depende de caneta – disse, em uma frase que explica tanto o passado quanto o presente.

‘Animal político’, como descreve Zaffa, Dimas comete uma máxima da política: nega a influência na nomeação.

– Foi o governador quem convidou.

Discreto — quase avesso à exposição —, Davi construiu poder longe dos holofotes.

Não tem redes sociais. Não cultiva a liturgia do cargo em público. Mas, nos bastidores, tornou-se um dos nomes mais influentes da política local.

Foi ele quem comandou o cofre público por mais de uma década, construiu pontes entre governo e Câmara, montou uma megacoligação de 11 partidos, sustentou a governabilidade mesmo em cenários de crise e ajudou a redefinir alianças após o rompimento entre Zaffa e o ex-prefeito Marco Alba.

Com traquejo político e perfil técnico, virou uma espécie de “primeiro-ministro informal” do governo municipal.

Sua ida ao Estado amplia esse raio de ação.

Nomeação tem efeitos colaterais políticos

A escolha de Davi não é neutra.

Ela fortalece Dimas Costa em sua pré-candidatura a deputado estadual, dentro do governo estadual, consolida a ponte entre Gravataí e o Piratini e reposiciona forças locais.

E tem alvo indireto: o grupo do ex-prefeito Marco Alba, também pré-candidato à Assembleia Legislativa.

Davi e Marco são adversários políticos desde o rompimento que marcou o que chamei de ‘III Guerra Política de Gravataí’. Alba é ligado ao MDB do vice-governador Gabriel Souza. Davi, Dimas e Zaffa, ao PSD de Leite.

A nomeação, portanto, também alimenta esse conflito.

Na prática, sem torcida ou secação, reforça um lado e enfraquece outro.

Sucessão de Zaffa volta ao radar

Embora evite “polêmicas políticas”, como disse ao assumir o cargo, Davi retorna a um lugar de onde nunca saiu: o da sucessão municipal.

Antes mesmo de deixar a Prefeitura, já era tratado como potencial candidato em 2028. Nome preferido de Dimas, ainda que não unanimidade dentro do grupo de Zaffa após os ruídos que marcaram sua saída.

Agora, com uma secretaria de peso nas mãos, ganha vitrine, musculatura e capilaridade.

Se antes operava os bastidores, passa a ter palco estadual.

O último secretário estadual oriundo de Gravataí havia sido Marco Alba, entre 2007 e 2010, no governo Yeda Crusius. Marco também é apontado como candidato à Prefeitura em 28.

A volta ao primeiro escalão não é apenas simbólica.

Significa acesso direto à máquina estadual, influência sobre investimentos e capacidade de intermediação política — ativos valiosos em qualquer eleição.

Especialmente em uma região que ainda tenta se reconstruir após eventos climáticos extremos.

Ao assumir, Davi foi fiel ao seu padrão:

– Vamos lá, trabalhar.

Sem discurso longo. Sem anúncio grandioso. Sem entrar em disputas. Mas, como mostra sua trajetória, o silêncio não é ausência de movimento. É método.

Certamente, após a sua nomeação, seu telefone vai voltar a tocar, tanto quanto quando era o todo poderoso do governo Zaffa. 


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