Circulou nos grupos de WhatsApp do meio político, daqueles materiais que chegam como “frequentemente encaminhado”, um print de story do Instagram da esposa de Thiago De Leon (PDT) reproduzindo reportagem da Forbes Money sobre os impactos econômicos do fim da escala 6×1. O destaque não estava apenas na matéria. Estava no comentário acrescentado à publicação: “preparem os bolsos e façam o…”.
A reação de De Leon foi de revolta, quando consultado pelo Seguinte:. O ex-vereador, presidente do PDT de Gravataí e pré-candidato a deputado estadual, sustenta que sua esposa não é figura pública e que não deveria ser arrastada para o debate político.
– Sou a favor do fim da escala 6×1 e ela tem opiniões diferentes das minhas – afirmou.
– Ela não é uma figura pública e o Instagram dela é até fechado. Não é a primeira vez que envolvem a família que não tem nada a ver. Isso me revolta. Na campanha fizeram também – acrescentou.
Guarda razão sua manifestação.
Tenho escrito com frequência sobre um fenômeno que as redes antissociais transformaram em método: a substituição do debate político pela humilhação pública. Foi exatamente o que analisei recentemente ao tratar dos ataques à prefeita de Cachoeirinha, Jussara Caçapava (Avante). Criticar agentes públicos é legítimo. Transformar terceiros em alvo para atingir alguém navega numa zona cinzenta semelhante.
Mas a política também é assim. E De Leon, como qualquer pessoa que se dispõe a disputar eleições, pode acabar sendo o alvo do dia.
O interesse dos adversários não surgiu propriamente da opinião da esposa. Surgiu da posição ocupada por De Leon. Ele preside justamente o PDT, partido que carrega o trabalhismo no nome e que historicamente defende a redução da jornada de trabalho.
A maldade política — porque política também é feita de maldades — constrói então uma narrativa simples e facilmente compartilhável: se o presidente municipal do PDT defende o fim da escala 6×1, mas sua esposa compartilha conteúdo contrário, pareceria que ele não consegue convencer nem a própria família de que a proposta é boa.
A crueldade da interpretação aumenta porque a esposa de De Leon é frequentemente identificada pelos adversários como herdeira de uma tradicional empresa do ramo alimentício de Gravataí. O enquadramento fica pronto. Trabalhismo de um lado. Empresariado de outro. O algoritmo agradece.
E havia combustível acumulado. Há poucas semanas analisei o episódio da foto da frente ampla de esquerda em apoio a Juliana Brizola (PDT) e à reeleição de Lula em que De Leon apareceu sem reproduzir o tradicional gesto do “L”. Escrevi então que gesto também é linguagem e que ausência de gesto vira discurso. Na política, os ausentes são mortos temporários, como dizia Millôr.
O “L” não feito produziu uma dúvida nos bastidores: afinal, qual era exatamente o lugar político que De Leon pretendia ocupar? O da esquerda tradicional? O do centro? O do que chamei à época de um ‘extremo-centrismo’?
Agora o print da esposa acaba sendo lido pelos mesmos observadores como mais um elemento dessa narrativa. Talvez injustamente. Mas política raramente opera por critérios de justiça. Opera por símbolos. E símbolos possuem vida própria.
É importante registrar que a postagem reproduzia argumentos econômicos que existem e são defendidos por parte do empresariado e por setores do mercado.
Segundo estudos citados pela Forbes Money e por entidades empresariais, a transição da escala 6×1 para a 5×2, com redução da jornada de 44 para 40 horas semanais, poderia gerar impacto anual de R$ 158 bilhões às empresas brasileiras. Há projeções que apontam aumento dos custos de mão de obra, pressão inflacionária e dificuldades especialmente para micro e pequenas empresas.
São argumentos legítimos dentro do debate público.
Mas também existe o outro lado da discussão. A PEC aprovada pela Câmara dos Deputados determina dois dias de descanso semanal, reduz a jornada para 40 horas sem redução salarial e estabelece período de transição de até 14 meses. O texto ainda prevê mecanismos de adaptação para pequenos negócios e exceções negociadas por acordos coletivos.
E aqui reputo importante fazer um registro pessoal.
Associo-me à leitura desenvolvida pelo jornalista Reinaldo Azevedo ao sustentar que a redução da jornada não representa qualquer espécie de apocalipse econômico inevitável. Como argumenta o jornalista, toda ampliação de direitos trabalhistas costuma vir acompanhada de previsões catastrofistas sobre colapso econômico que raramente se confirmam na dimensão anunciada.
Não significa ignorar custos de adaptação. Eles existem. Mas o Brasil possui plena capacidade de absorver gradualmente uma mudança dessa natureza. Trata-se, ao fim, de uma discussão sobre produtividade, qualidade de vida e modernização das relações de trabalho dentro do próprio capitalismo, não contra ele.
Dos Grandes Lances dos Piores Momentos
Fato é que o episódio entra naquela categoria que costumo chamar de ‘Dos Grandes Lances dos Piores Momentos’.
A esposa de De Leon sempre manteve discrição nas campanhas. Foi assim quando ele concorreu a vice-prefeito na chapa de Marco Alba (MDB) — uma chapa ‘MarxDonalds’, o que alimenta mais a lenda. Foi assim durante sua passagem pelo governo Eduardo Leite (PSD), que antes criticava. E é assim agora.
Por isso mesmo, a circulação do print produziu efeito político maior do que produziria em condições normais.
Especialmente porque De Leon, desde que deixou o governo estadual, passou a ocupar espaço de oposição mais intensa ao governo de Luiz Zaffalon (PSD), em Gravataí, e entrou claramente em modo campanha para 2026.
Quem aparece mais, apanha mais. É uma das poucas leis universais da política. E quem critica também precisa estar preparado para ser criticado — inclusive de maneira injusta.
Ao fim, porém, permanece uma diferença importante.
Criticar a posição política de alguém é legítimo. Transformar familiares em instrumentos permanentes de desgaste político é algo que deveria causar desconforto mesmo em adversários.
Porque, como escrevi ao analisar os ataques à prefeita Jussara, existe uma fronteira entre o debate democrático e a desumanização. Quando o adversário deixa de ser tratado como sujeito político e passa a ser reduzido a caricatura, o debate empobrece.
Ainda assim, há uma consequência política inevitável.
Quando o “L” não feito encontra o print da esposa criticando a redução da jornada acrescido de um comentário sobre “preparar o bolso” e “fazer o L”, De Leon corre o risco de alimentar justamente a dúvida que já o acompanha há algum tempo.
A dúvida sobre onde termina a estratégia e começa a convicção. Porque o eleitor costuma tolerar mudanças de posição. O que costuma punir é a sensação de cálculo excessivamente visível.
E, nesse aspecto, a política tem algo de I-Juca-Pirama. Ao tentar agradar muitos campos simultaneamente, corre-se o risco de restar, como no verso de Gonçalves Dias, “rejeitado da Morte na guerra e dos Homens na paz”.
O problema é que o espaço do ‘extremo-centrismo’ já parece ocupado em Gravataí. E é ocupado por Dimas Costa (PSD), ex-deputado que concorre ao mesmo cargo, é o ‘embaixador’ de Leite no município e, em mais um ‘Dos Grandes Lances dos Piores Momentos’ dessa história, é o candidato daquele que De Leon nesta sua fase influencer — de “A Gravataí que ninguém mostra” — transformou no principal algoz: Zaffa.
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