RAFAEL MARTINELLI

A prefeita Jussara, o meme e o monstro: como as redes antissociais transformam humilhação em curtidas

Imagem sobre arte do genial Pawel Kuczynski

Este artigo não é sobre identitarismo — que por vezes resta satisfeito ao se alimentar, nas redes antissociais, do cancelamento de algum vilão do dia, enquanto outra mulher é morta. É sobre desumanização. Sobre a transformação da política em espetáculo de humilhação pública.

Críticas pesadas a governantes são legítimas. Sátiras também. Caricaturas fazem parte da democracia justamente por arrancarem dos poderosos a aura artificial de intocabilidade. O problema começa quando o debate abandona decisões administrativas, prioridades políticas, erros de gestão ou práticas de poder e passa a mirar o corpo, o rosto, o peso, a idade, os trejeitos, a aparência física. Quando o objetivo deixa de ser confrontar ideias e passa a ser reduzir alguém à condição de criatura grotesca, caricatura humana, objeto de escárnio coletivo.

É nesse ponto que a crítica degenera em humilhação. E é exatamente isso que tenho visto acontecer com a prefeita de Cachoeirinha, Jussara Caçapava. Uma mulher fora dos padrões plastificados da sociedade instagramável, transformada em alvo recorrente de comentários que pouco têm relação com gestão pública e muito com aparência física.

Nada disso é novo. A ex-prefeita de Gravataí, Rita Sanco, vítima de um golpeachment em 2011, era atacada sempre com uma camada adicional: o deboche sobre aparência, “temperamento”, a velha ideia de que mulheres seriam “intratáveis”, “desequilibradas”, “emocionais demais” para exercer poder.

O mesmo ocorreu com Dilma Rousseff. Parte do debate público preferiu reduzi-la a montagens misóginas, memes sexualizados e caricaturas degradantes — como a infame imagem em que aparecia com uma bomba de gasolina entre as pernas. Não era crítica econômica. Era humilhação com verniz político.

Em Gravataí, Rosane Bordignon, que perdeu uma eleição para prefeitura por ínfima margem dos votos, frequentemente era alvo de ataques relacionados à suposta sanidade mental. Em Cachoeirinha, Fabi Medeiros, esposa do ex-prefeito, era acusada de “mandona”. Recentemente, a deputada estadual Patrícia Alba foi acusada de “exagerar” nas críticas em entrevista ao Seguinte:. Mulheres “irritadas” viram “histéricas” (adjetivação misógina) em cinco minutos.

Isso não é percepção isolada. É padrão documentado.

Relatório do Programa de Diversidade & Inclusão da FGV Direito Rio, no âmbito do Projeto Mídia e Democracia, mostrou que mulheres na política recebem ataques com grau muito maior de violência, toxicidade e misoginia do que homens. Segundo a pesquisa, 95% dos conteúdos analisados se enquadravam em duas categorias: inferiorização e desumanização.

A inferiorização aparece na tentativa permanente de retratar mulheres como incapazes, despreparadas, emocionalmente inadequadas ou intelectualmente inferiores para exercer poder. Já a desumanização vai além: transforma adversárias em aberrações, objetos de repulsa, criaturas indignas de pertencimento ao espaço público.

Fato é que as redes sociais potencializam isso numa escala industrial.

Em artigo publicado no jornal El País, a jornalista Rosario G. Gómez descreve como plataformas digitais criaram um “eco infinito” para humilhações públicas. O problema não é apenas o ataque em si, mas a lógica de recompensa do ambiente digital: quanto mais cruel, mais compartilhável; quanto mais degradante, maior o engajamento.

Humilhar virou moeda social. Existe hoje uma estética da lacração baseada na destruição simbólica do outro. Não basta discordar. É preciso ridicularizar. Viralizar. Transformar o adversário em meme ambulante. E isso produz uma degradação brutal da convivência democrática.

As redes sociais deram a qualquer pessoa “a máquina de responder”, como descreveu o professor Arturo Gómez Quijano no mesmo artigo do El País. Mas entregaram essa máquina sem manual de civilidade, sem educação digital e, muitas vezes, sem qualquer freio moral. O resultado é uma indústria de humilhação performática.

E não é coincidência que mulheres sejam alvo preferencial desse mecanismo. O relatório da FGV aponta que ataques frequentemente recorrem à aparência física, sexualização, etarismo e questionamentos sobre sanidade mental. Mulheres são reduzidas ao corpo. Quando não são transformadas em monstros, são transformadas em objetos. É uma lógica antiga adaptada ao algoritmo.

Curiosamente, até homens vítimas de ataques físicos ajudam a demonstrar como esse método revela mais sobre quem agride do que sobre quem é atacado. O escritor gaúcho Ernani Ssó já escreveu no Seguinte: sobre isso ao comentar o apelido “Nine”, usado para ridicularizar Luiz Inácio Lula da Silva pela perda de um dedo num acidente de trabalho.

Ssó recorda o caso de Miguel de Cervantes, atacado séculos atrás por ser velho e maneta — o que muito o feria. A conclusão permanece devastadoramente atual: quando alguém abandona críticas morais, éticas ou políticas para zombar de uma característica física, talvez esteja apenas confessando a pobreza do próprio argumento.

Porque é mais fácil rir de um dedo amputado do que discutir desigualdade social. É mais fácil debochar da aparência de uma prefeita do que analisar políticas públicas.

E há algo ainda mais perigoso nesse processo: a normalização da desumanização política.

Recentemente escrevi sobre isso ao analisar a fala de um vereador de Glorinha que dizia não admitir “petistas” dentro de casa. O problema não era apenas a grosseria. Era o mecanismo simbólico: transformar adversários em seres moralmente inferiores, indignos de convivência humana legítima.

O jornalista Reinaldo Azevedo definiu esse fenômeno como a “hiper-humanização” dos aliados e a “coisificação” dos inimigos. De um lado, o grupo tratado como plenamente humano. Do outro, o adversário reduzido a caricatura descartável.

É exatamente aí que a humilhação estética se conecta à erosão democrática. Quando uma prefeita deixa de ser criticada como agente pública e passa a ser tratada como aberração física, o debate político deixa de existir. O que sobra é linchamento simbólico. E linchamentos têm audiência.

Há gente que transformou isso em modelo de negócio emocional. Influenciadores do ressentimento descobriram que humilhar mulheres rende curtidas, seguidores, compartilhamentos e pertencimento tribal. Quanto mais cruel a piada, mais aplausos recebe da bolha.

O problema é que sociedades que naturalizam a desumanização acabam banalizando também outras violências. A verbal prepara terreno para a simbólica. A simbólica prepara terreno para a real.

A democracia exige crítica dura. Mas exige também reconhecimento mínimo da humanidade do outro. Jussara pode e deve ser criticada por decisões políticas, prioridades administrativas, alianças, erros, omissões, incompetências eventuais ou mal feitos. Isso é democracia. O que não deveria ser normalizado é transformar aparência física em instrumento de degradação pública.

Ao fim, reputo que, quando a política abandona argumentos e passa a operar pela humilhação estética, não estamos diante de coragem crítica. Estamos diante apenas da velha crueldade humana turbinada por algoritmo.

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