“Sou grato por estar vivo”. A frase de Dr. Levi Melo (Podemos), ao retornar nesta segunda-feira à Prefeitura de Gravataí depois de seis meses afastado, talvez continue sendo a mais importante de todas. Mas ela já não é a única.
Porque, se em março escrevi que havia momentos em que a política era insuficiente para explicar a realidade, junho marca o instante em que a realidade volta inevitavelmente a encontrar a política.
Levi voltou. Ao gabinete, à rotina institucional, ao centro do debate público. E, com isso, encerrou-se a principal dúvida que pairava sobre a política gravataiense desde dezembro. A dúvida nunca foi apenas médica. Era política.
Qual seria o tamanho da recuperação? Haveria condições de retornar à vida pública? A pré-candidatura a deputado federal sobreviveria à doença? O grupo liderado por Luiz Zaffalon teria um de seus principais ativos políticos preservado para o futuro?
Hoje, a resposta é objetiva. Sim. Levi está de volta. Não ao mesmo lugar. Não nas mesmas condições. Não com a mesma rotina de antes. Mas voltou.
Ao reassumir as atividades no Executivo Municipal, o vice-prefeito fez questão de conectar trabalho e recuperação.
– Voltar a trabalhar me faz bem e contribui para a minha recuperação – afirmou, em nota enviada ao Seguinte:.
A frase ajuda a compreender o momento. Para muitos pacientes, a recuperação significa voltar para casa. Para Levi, significa também voltar a exercer um papel público que faz parte da sua identidade há décadas: médico, empresário, vice-prefeito, liderança política.
A doença interrompeu tudo isso. Mas não apagou. O retorno desta semana tem um simbolismo que vai além da agenda administrativa. Ele representa a retomada de uma trajetória que, há poucos meses, parecia suspensa por tempo indeterminado.
Há um detalhe importante que ajuda a entender por que a volta de Levi produz tanto impacto político. Ele nunca deixou de ser uma referência dentro do governo. Mesmo afastado. Mesmo internado. Mesmo durante os longos meses de recuperação.
Sua ausência era sentida justamente porque sua presença sempre foi relevante. Talvez ninguém tenha resumido isso melhor do que Zaffa, ao Seguinte:, nesta segunda. Ao comentar o retorno do parceiro de chapa reeleito em 2024, o prefeito falou menos como chefe do Executivo e mais como amigo.
– É um homem decente, ponderado, de muita civilidade. Um amigo fiel, pessoa de bem, que ajuda sempre quem está por perto, mesmo neste ambiente da política, da vida em uma sociedade dividida, de ruptura permanente, mau-caratismo sempre em alta, fakes por toda parte. Levi fez muita falta. Rezei muito por ele e ele está de volta. Fico muito feliz – disse.
Existe outro elemento que diferencia este momento daquele que analisei em março. Na ocasião, sustentei que discutir eleição era quase inadequado diante de alguém que ainda reaprendia a reconstruir a própria vida.
Hoje o cenário é diferente. Porque a candidatura deixou de ser especulação. Levi já confirmou que disputará uma vaga na Câmara dos Deputados em 2026. E os movimentos realizados nos bastidores mostram que o projeto não apenas sobreviveu ao período mais difícil da sua vida como continuou sendo organizado. A entrada do secretário da Saúde Régis Fonseca na coordenação política da pré-campanha e a reorganização do grupo demonstraram isso semanas atrás.
Naquele momento, a leitura principal era que a estrutura política estava sendo preservada até que Levi pudesse voltar. Agora ele voltou. A engrenagem passa a funcionar novamente com sua principal liderança presente.
Existe ainda um fator humano impossível de ignorar. Durante meses, Levi deixou de ser apenas um político. Transformou-se numa história de superação acompanhada pela cidade. Recebeu orações, mensagens, demonstrações públicas de apoio. Mobilizou adversários e aliados.
Criou uma rara zona de consenso em uma atividade que normalmente se alimenta do conflito. Esse capital simbólico não substitui voto. Mas produz algo igualmente importante: atenção. E Levi volta à cena pública com atenção de sobra.
A política volta. Mas diferente.
Em março escrevi que a política sempre volta. Ela voltou. Mas talvez não da forma que imaginávamos. Porque o retorno de Levi não é apenas o retorno de um candidato. Nem apenas o retorno de um vice-prefeito. É o retorno de alguém que enfrentou uma experiência capaz de reorganizar prioridades.
O homem que voltou à Prefeitura nesta segunda-feira é o mesmo Levi da fotografia institucional. Mas não é exatamente o mesmo Levi que entrou no hospital em dezembro. A doença deixou marcas. A recuperação continua. A fisioterapia segue fazendo parte da rotina. Os desafios permanecem.
Mas existe uma diferença fundamental. Meses atrás, a principal notícia era que ele havia sobrevivido. Hoje, a principal notícia é que ele voltou. E, para a política de Gravataí, isso muda muita coisa.
Para Levi, talvez a mudança seja ainda maior. Porque, antes de retomar uma candidatura, um projeto ou um mandato, ele retomou aquilo que parecia ameaçado no momento mais difícil de sua trajetória. A própria vida.
E é justamente por isso que sua volta ao trabalho tem um significado que ultrapassa os limites da política. A política reaparece. O ser humano permanece.
E é essa ordem dos fatos que explica por que o retorno de Levi produz tanto impacto dentro e fora da Prefeitura.
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