A sexta-feira (24) em Cachoeirinha foi de um ‘tirem as crianças da sala’ na relação política, institucional e empresarial.
Depois de um início de semana que flertou com a ruptura — ultimato de 24 horas, ameaça de multa de R$ 5 milhões, lei para zerar contas e apoio explícito a uma CPI —, a prefeita Jussara Caçapava optou por aquilo que, na política real, costuma ser mais eficaz do que explodir dutos: sentar à mesa. Mas não qualquer mesa. Com quem decide.
E aí está o primeiro ponto que fica. A gigante sentou — e não foi qualquer cadeira.
Numa relação que classifico como uma ‘guerra assimétrica’, o município conseguiu fazer a Aegea Saneamento jogar fora do script padrão. Não foi técnico local, não foi resposta protocolar.
Quem apareceu foi Fabiano Dallazen, diretor de Relações Institucionais da companhia na Região Sul — nome com peso jurídico e político, ex-chefe do Ministério Público. Ao lado dele, operando a engrenagem institucional da empresa, o diretor responsável pelo Rio Grande do Sul, Cesar Faccioli, e a gerente responsável por Cachoeirinha, Renata Rodhe.
Do outro lado, a prefeita, que começou a semana no modo ‘Inconfidência da torneira seca’ e terminou no pragmatismo implacável.
Intermediação de Dimas Costa, trânsito aberto com o governo estadual — foi deputado até o início do mês e hoje é assessor especial da Secretaria de Governo de Eduardo Leite.
Reputo que não houve recuo. Método, sim.
A Prefeitura bateu onde dói: multa de R$ 2 milhões aplicada, nova de R$ 5 milhões no horizonte, lei que mexe direto no caixa da concessionária e a ameaça concreta de uma CPI — aquele instrumento que mistura técnica com desgaste público.
Era a antecipação do que já estava contratado no horizonte: judicialização. O que chamo ‘loteria de toga’.
A diferença é que, antes de chegar ao tapetão, a pressão produziu efeito.
A Aegea veio. E com cronograma de ação.
Segundo informou Faccioli ao Seguinte:, há três movimentos práticos já em curso:
1. Força-tarefa nos bairros mais afetados
Mutirões em regiões como Anair, Fátima e Vista Alegre para identificar vazamentos — visíveis e invisíveis. Uma espécie de pente-fino no sistema.
2. Intervenções emergenciais já iniciadas
Atuação na câmara de sucção para melhorar a eficiência do abastecimento. Ou seja, tentativa de atacar o problema na raiz operacional.
3. Nova estratégia de comunicação
Explicar ao consumidor o que é descrito na conta de água, taxa de esgoto, hidrômetro e tarifa de disponibilidade (mesmo que o modelo atual siga orientação da agência reguladora).
É um acerto. Em qualquer serviço público essencial, mesmo privatizado, desinformação é crise em potencial.
O diretor da Aegea no RS ainda trouxe dois dados que ajudam a compor o cenário.
O sistema depende diretamente de energia elétrica — “o principal insumo do saneamento” — o que desloca parte da pressão para a RGE. Conforme ele, foram as oscilações que ocasionaram a falta de água no feriadão.
O município está próximo de 80% de cobertura de esgoto, com meta de 90% até 2033, dentro do marco regulatório. Cachoeirinha será a primeira cidade de porte a atingir a meta.
– Quando assumimos, há três anos, era 64% – compara Faccioli.
Ou seja: há investimento (R$ 12 milhões só em captação de água, que vem de Canoas, parte de um pacote de R$ 15 bilhões no RS), há obra — mas o serviço ainda não chegou na torneira como deveria.
E é aí que mora o conflito.
Outro efeito direto da reunião: a CPI na Câmara esfriou. Não morreu. Foi arquivada, por enquanto.
Assinaturas foram retiradas, mas não faltarão caso a base do governo desista da lógica do diálogo.
Curiosamente, a reunião teve um elemento raro no ambiente atual: presença de situação e oposição. De Claudine Silveira — que perdeu a eleição para Jussara por 530 votos — a Gustavo Almansa, passando por nomes da base.
Um sinal de maturidade — ou de cálculo coletivo.
Porque CPI, como já escrevi, vive entre dois destinos: diagnóstico ou espetáculo. Conclusão palpável ou caça-cliques. Copo cheio ou copo vazio.
Em Cachoeirinha, por ora, ficou no armário.
O episódio não nasce do nada. Ele dialoga com um cenário mais amplo, já visto em cidades como Gravataí, onde CPIs avançam sobre tarifa, falta d’água e transparência. E dialoga, principalmente, com o tamanho do adversário.
A Aegea não é uma concessionária comum. É a maior holding privada de saneamento do país, com bilhões em investimento, musculatura jurídica e experiência em ambientes regulatórios complexos. É, por definição, um jogador de longo prazo.
Por isso a analogia permanece válida: guerra assimétrica. E, como em toda guerra assimétrica, vencer não é destruir o adversário. É fazê-lo te reconhecer.
O copo: meio cheio
Ao fim da reunião, o retrato é que a multa de R$ 2 milhões foi mantida, “com amplo direito à defesa” no processo administrativo, conforme o assessor especial da prefeita, Cláudio Ávila; a de R$ 5 milhões ficou na gaveta (por enquanto); a CPI foi congelada e o diálogo institucional foi aberto no mais alto nível.
– Foi uma reunião marcada por cobrança e responsabilidade – resumiu a prefeita Jussara.
Traduzindo do politiquês: houve promessa — agora vem a cobrança.
Porque o copo está, sim, meio cheio. Mas em saneamento, meio cheio ainda é problema. A população não abre a torneira para metáforas. Abre para água.
E esse é o ponto central que fica desta sexta-feira: Cachoeirinha conseguiu ser tratada com o tamanho que tem. Agora precisa receber o serviço que foi prometido quando o sistema foi privatizado.
O resto — multa, CPI, discurso — é instrumento.
A régua é outra: é o copo que precisa encher por completo.
LEIA TAMBÉM






