CULTURA

‘Colcha de Memórias’: escritora de Gravataí leva à Assembleia livro que dá voz a brasileiras nos Açores

A escritora e advogada gravataiense Viviane Peixoto Hunter apresentou, na terça-feira (9), seu livro Colcha de Memórias – Mulheres do Atlântico: tecidas entre capote e capelo durante reunião da Comissão de Educação, Cultura, Desporto, Ciência e Tecnologia da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul.

O encontro foi conduzido pela deputada estadual Patrícia Alba (MDB) e serviu para destacar a trajetória da autora, a importância dos investimentos públicos em cultura e o papel da literatura no resgate de histórias femininas frequentemente invisibilizadas.

Lançada em março deste ano, a obra é o segundo volume do projeto Colcha de Memórias, iniciado em 2025 com o livro Colcha de Memórias – Mulheres Artistas: histórias que inspiram, dedicado a retratar a vida de dez mulheres de Gravataí ligadas à produção cultural.

No novo trabalho, Viviane amplia o alcance da pesquisa e constrói uma ponte entre Brasil e Portugal ao registrar histórias de brasileiras que vivem nas nove ilhas do arquipélago dos Açores.

Segundo a autora, o conceito da colcha simboliza a união de diferentes histórias individuais que, reunidas, revelam temas universais como preconceito, traumas, ancestralidade, imigração e pertencimento.

“Todas as ilhas tinham uma brasileira com experiências de sucesso, de traumas, de preconceito, de estigmas. E a gente sabe que a mulher brasileira carrega o estigma da sexualidade. No campo da imigração, sabemos que existe esse problema”, afirmou.

Durante a apresentação, Viviane explicou que o livro não se propõe a ser uma biografia tradicional das personagens retratadas.

A proposta, segundo ela, foi registrar experiências e sentimentos a partir da escuta construída ao longo de sua trajetória profissional como advogada.

“Elas não me conheciam, mas aceitaram participar desse projeto na ânsia de serem ouvidas e comungar com as mesmas histórias”, relatou.

A autora destacou que o primeiro volume foi viabilizado por meio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), que permitiu a escolha e o registro de mulheres de Gravataí atuantes em diferentes segmentos artísticos.

Já o segundo livro foi produzido com recursos do Governo Regional dos Açores, possibilitando a realização de entrevistas e o levantamento das histórias das brasileiras residentes no arquipélago português.

Reconhecimento na Assembleia

Ao receber a escritora na comissão, a deputada Patrícia Alba destacou a relevância do trabalho desenvolvido por Viviane na valorização da memória feminina.

“É uma questão muito feminina conseguir unir cultura, identidade e a busca daqueles valores e conceitos que existiam com a história das mulheres. História que, muitas vezes, é invisível”, afirmou.

A parlamentar também ressaltou que projetos como Colcha de Memórias evidenciam a importância do investimento público na cultura como instrumento de preservação da identidade e de valorização de trajetórias frequentemente esquecidas.

Além de escritora, Viviane Peixoto Hunter atua há mais de duas décadas na advocacia, com forte atuação na defesa de mulheres vítimas de violência doméstica.

Graduada em Direito, com especializações em Direito Civil, Processual Civil e Direito Público, ela também é presidente da Casa dos Açores do Estado do Rio Grande do Sul e gestora cultural.

Durante sua participação na comissão, a autora aproveitou para abordar os desafios ainda existentes na proteção das mulheres.

Embora tenha reconhecido avanços legislativos nas últimas décadas, ela defendeu maior fiscalização e efetividade das normas já existentes.

“Mais do que novas leis, precisamos fazer cumprir esse mecanismo de proteção. Em especial no Rio Grande do Sul, onde completamos 38 mortes. É um índice alarmante e preocupante”, alertou.

Patrícia Alba concordou que, apesar da evolução das leis e do debate público, a sociedade ainda convive com comportamentos naturalizados que perpetuam desigualdades e violências.

“A gente ainda passa por situações que são consideradas naturais, mas que mantêm esse ciclo de comportamentos que nós não queremos que aconteça”, observou.

Literatura como ferramenta de escuta

Ao apresentar Colcha de Memórias – Mulheres do Atlântico, Viviane levou à Assembleia mais do que uma obra literária.

O livro se transforma em um exercício de escuta e de valorização de histórias femininas atravessadas pela migração, pela busca por pertencimento e pelos desafios de viver entre diferentes culturas.

Ao reunir experiências de brasileiras espalhadas pelas ilhas dos Açores, a autora amplia um projeto que começou em Gravataí e que hoje conecta continentes por meio de narrativas que, embora individuais, refletem desafios compartilhados por mulheres em diferentes partes do mundo.

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