Com a bênção explícita do vice-governador Gabriel Souza (MDB), Cleo do Onze (MDB) teve lançada a pré-candidatura a deputado federal, em seu aniversário de 43 anos.
– Precisamos de ti, Cleo – convocou o pré-candidato ao Palácio Piratini em 2026.
Gabriel não apenas compareceu. Assumiu a paternidade política da candidatura. Disse ser o principal incentivador do projeto. Traduzindo do português para o dialeto da política: Cleo terá estrutura e atenção de quem hoje é uma das figuras mais influentes do MDB gaúcho.
O partido perdeu nomes competitivos nas últimas eleições e procura reposicionar sua chapa federal.
Mas a principal notícia da noite talvez não tenha sido Brasília. Foi Cachoeirinha. Porque a festa reuniu praticamente todas as peças centrais do grupo político que perdeu a eleição suplementar de abril por apenas 530 votos.
Estavam lá o ex-prefeito Cristian Wasem (União Brasil), a esposa Fabi Medeiros (União Brasil), pré-candidata a deputada estadual, o ex-vice-prefeito Delegado João Paulo Martins (PP), a vereadora Claudine Silveira (PP), que concorreu a prefeita, o vice da chapa, pastor Marco Albernaz (PP) e o presidente municipal do MDB, André Lima.
Separadamente, poderiam ser apenas presenças protocolares. Juntos, representam uma mensagem. O grupo continua unido. E continua olhando para frente. Ou, mais precisamente, para o Tribunal Regional Eleitoral.
A política de Cachoeirinha vive há anos aquilo que costumo definir como o permanente estado de exceção eleitoral da ‘Pobre Cachoeirinha!’.
Cassações. Impeachments. Operações policiais. Ações eleitorais. Eleições suplementares. Recursos. Uma espécie de ‘Dia da Marmota’ (como no filme) institucional.
A eleição suplementar de abril encerrou um capítulo, mas não necessariamente a história. A prefeita Jussara Caçapava (Avante) venceu Claudine Silveira por apenas 530 votos. Uma margem mínima.
Hoje, Jussara permanece no cargo enquanto tramitam ações eleitorais que podem chegar ao julgamento definitivo no TRE. Não há qualquer garantia de cassação. Tampouco de absolvição.
Como escrevi recentemente, a Região Metropolitana ingressou numa espécie de era da judicialização permanente da política. A ‘loteria de toga’. Mas o simples fato de existir essa possibilidade ajuda a explicar o significado político da fotografia produzida na festa de Cleo.
O grupo que perdeu não se dispersou. Não entrou em processo de fragmentação. Não iniciou disputa interna por espaço. Ao contrário. Apareceu reunido. Quase como se continuasse em campanha.
Outro detalhe chama atenção. A presença de Cristian. Desde o impeachment que encerrou seu governo, o ex-prefeito vem demonstrando uma capacidade rara na política: permanecer relevante mesmo sem mandato.
Primeiro, transformou a eleição suplementar em um plebiscito sobre sua própria cassação. Perdeu. Mas perdeu por apenas 530 votos. Foi o ‘Grande Eleitor’ de Claudine, que saiu da primeira eleição a vereadora com 876 votos para 22.065 votos um ano e meio depois.
Depois, trocou o MDB pelo União Brasil de Luiz Carlos Busato, em movimento que já analisei como parte de um projeto político mais amplo envolvendo a esposa Fabi, em 2026 e 2028.
Agora, aparece ao lado de Cleo. A mensagem parece inequívoca. A relação política entre ambos segue intacta. Não é detalhe. Cleo foi um dos três vereadores que votaram contra a cassação de Cristian na Câmara. Mais do que isso. Foi uma das vozes mais enfáticas na defesa do então prefeito durante o processo de impeachment.
Na época, nos bastidores, restou inclusive ameaçado de responder em comissão de ética na Câmara.
Na festa estava Rafael Braga, a dobradinha partidária de Cleo. Mas a parceria com Fabi é inevitável na política real.


O ‘Grande Eleitor’, Claudine e o fim das especulações
Talvez ainda mais simbólica tenha sido a presença de Claudine Silveira e Delegado João Paulo Martins. Porque a eleição suplementar produziu uma dúvida legítima nos bastidores. Haveria ressentimentos internos?
Cleo desejava ser o candidato do grupo de Cristian. Mas a escolhida acabou sendo Claudine. O resultado apertado das urnas transformou a vereadora numa das principais lideranças de oposição do município.
A fotografia da festa sugere que eventuais divergências ficaram para trás. Ou, ao menos, foram colocadas em segundo plano diante de um objetivo comum. Na política, não existe cola mais eficiente do que a perspectiva de poder. E o grupo parece entender que ainda possui chances reais de voltar ao protagonismo municipal.
Há também um componente eleitoral mais amplo.
Até o momento, o principal nome local lançado para deputado federal ligado ao grupo governista é Paulo César Agliardi, o Tetê (Avante), filho da prefeita Jussara.
No campo do MDB, existe ainda a candidatura da hoje deputada estadual Patrícia Alba à Câmara Federal, que embora tenha família em Cachoeirinha, construiu sua história política a partir da Gravataí governada pelo marido, Marco Alba (MDB).
Nesse cenário, Cleo surge tentando ocupar um espaço próprio. Mas seu lançamento não pode ser interpretado apenas pela ótica da eleição proporcional. A noite teve muito de construção de candidatura federal. Mas teve igualmente algo de demonstração de musculatura para futuras disputas municipais.
Ao fim, Gabriel Souza talvez tenha ido ao Clube Onze Unidos para lançar um candidato a deputado federal. Saiu de lá tendo participado também de um ato político com significado local muito maior — e que pode, inclusive, atrapalhar sua aproximação com a prefeita na eleição para o Piratini, jogando o grupo de Jussara para Juliana Brizola (PDT).
Porque a principal conclusão da noite não foi que Cleo será candidato. Isso já era esperado. A principal conclusão foi outra.
O grupo político que governou Cachoeirinha até janeiro, que depois perdeu a Prefeitura por apenas 530 votos e que hoje acompanha atentamente os processos judiciais envolvendo a atual administração, continua existindo.
E continua aguardando os próximos capítulos. O lançamento de Cleo revela algo maior. Que, para uma parcela importante da oposição, a eleição suplementar de abril talvez ainda não seja considerada o capítulo final da história. Apenas o penúltimo. Com Cristian como ‘Grande Eleitor’.






