Em uma cidade que viu a água chegar ao teto de casas, engolir bairros inteiros e deixar cerca de 180 mil pessoas fora de casa em 2024, visitas técnicas carregam um peso diferente. Quando vereadores de Canoas percorreram, na quarta-feira (3), as obras do Dique Mathias Velho, do Dique Mato Grande e das casas de bombas do município, não estavam apenas fiscalizando uma obra pública. Estavam visitando a principal promessa de reconstrução da cidade.
E, desta vez, o governo tinha o que mostrar.
O dado mais relevante da visita não foi político. Foi físico. Segundo a Secretaria Municipal de Obras e Reconstrução, o Dique Mathias Velho alcançou 55% de execução. O trecho 3 do Dique Rio Branco já atingiu sua cota definitiva. O trecho 2 entrou em obras. O Muro da Cassol foi concluído. O Dique Mato Grande avança e Niterói voltou a ter frente de trabalho.
Para uma cidade que passou boa parte de 2024 discutindo o colapso do sistema de proteção e grande parte de 2025 elaborando projetos, contratando empresas e buscando recursos, existe uma diferença importante entre apresentar maquetes e apresentar concreto.
A visita dos parlamentares aconteceu justamente nesse ponto de transição.
Durante muito tempo, a reconstrução de Canoas foi quase invisível para a população. Ela acontecia em reuniões técnicas, projetos executivos, licitações, negociações com Brasília, conversas com o governo estadual e disputas por financiamento. Era uma reconstrução burocrática. Necessária, mas difícil de enxergar. Agora ela começa a aparecer.
O próprio secretário Guido Bamberg apresentou aos vereadores uma sequência de números que ajudam a entender isso. Não existe apenas um dique em obra. Existe um sistema inteiro sendo reconstruído simultaneamente. Mathias Velho, Rio Branco, Mato Grande, Niterói, casas de bombas, muro de contenção e estruturas complementares avançam ao mesmo tempo.
É justamente essa lógica que diferencia a reconstrução atual das intervenções pontuais do passado. Porque a enchente de 2024 deixou uma lição brutal: a água não respeita limites administrativos nem pontos isolados de proteção. Um sistema só é forte quando o conjunto funciona.
Mas existe um componente que nenhum cronograma consegue eliminar. O trauma. Quem perdeu móveis, documentos, carros, fotografias e, em alguns casos, familiares, não acredita facilmente em discursos. A régua mudou. Em Canoas, depois de maio de 2024, a população passou a avaliar governos por uma métrica simples: o que está efetivamente pronto?
Foi exatamente por isso que a entrega do Muro da Cassol, em maio, teve um peso simbólico tão grande. Ali estava o local por onde a água entrou. E ali surgiu a primeira grande obra concluída do sistema de proteção.
A inauguração não eliminou dúvidas. Mas ofereceu algo raro no pós-enchente: uma evidência física de reconstrução. A visita dos vereadores ao Mathias Velho segue a mesma lógica. Não resolve o problema. Mas ajuda a responder uma pergunta que a população faz diariamente: as obras estão andando?
Os números indicam que sim.
A obra visível e a invisível
Há, porém, uma camada menos perceptível nessa história. Talvez a principal. Nenhuma das obras que os vereadores visitaram existiria apenas com recursos municipais.
A reconstrução de Canoas continua dependente da mesma engrenagem institucional que a cidade precisou construir após a tragédia. Recursos estaduais. Recursos federais. Convênios. Financiamentos. Projetos compartilhados. É a mesma lógica que permitiu a ampliação do Hospital Universitário, o avanço das obras dos diques e a retomada de projetos estruturantes.
A grande obra de Airton Souza continua sendo, em boa medida, invisível. Ela não aparece em fotografias aéreas. Aparece nas reuniões em Brasília, nos encontros com o Piratini e na capacidade de manter canais abertos com governos de diferentes espectros políticos.
Sem isso, dificilmente haveria diques para visitar.
Ao fim, há uma armadilha comum em processos de reconstrução. Confundir obra em andamento com missão cumprida. Não é o caso. O governo sabe disso. Os técnicos sabem disso. E os moradores sabem ainda mais.
O Dique Mathias Velho está em 55%. O Mato Grande segue em execução. Niterói ainda avança. As casas de bombas exigem operação permanente. Porém, o sistema metropolitano de proteção contra cheias continua incompleto.
Nada disso é irrelevante. Pelo contrário. Significa que Canoas está mais protegida hoje do que estava antes da enchente. Mas não significa que o problema foi resolvido.
O verdadeiro teste não será a visita dos vereadores. Nem a próxima coletiva. Nem a próxima inauguração. Será a próxima grande cheia.
Quando ela vier — porque os eventos extremos voltarão a acontecer — a cidade descobrirá se os números apresentados nesta quarta-feira representam apenas avanço de cronograma ou, de fato, uma nova relação de Canoas com a água.
Até lá, a política continua visitando obras. E as obras, pela primeira vez desde 2024, começam a responder.
LEIA TAMBÉM
Como uma aliança improvável está ajudando a salvar o HU de Canoas






