Fosse Gravataí um país, seria o 13º do mundo em taxa de letalidade pela COVID-19. É ciência, matemática, mas uma conta mentirosa. Até a ‘ideologia dos números’ precisa de contexto. Alívio? Não. A redução do índice diagnostica a subnotificação e a falta de testes. O perigo é o mesmo – ou maior.
A taxa de letalidade é calculada pela divisão simples do número de casos oficiais pelo número de óbitos. Gravataí tem 25 casos e uma morte, 4%. O Brasil é o sétimo no ranking produzido em 30 de abril pelo ECDC, o centro europeu para prevenção e controle de doenças.
A mortalidade de 7% supera em um ponto o primeiro epicentro da COVID-19, Wuhan, na China, 2,3%, e o atua ‘covidário’ mundial, os EUA, 6%.
Siga o gráfico e, depois, analiso.

ARTE: Estado de Minas
Seria preocupante o 4% de letalidade, caso Gravataí não tivesse feito apenas 234 testes. Os dados desta terça da Secretaria Municipal da Saúde apontam 1 óbito, 15 infectados, 15 pacientes aguardando testes, 7 recuperados e 194 descartados. A conta é simples: quanto mais testes, menor a taxa de mortalidade. Consequência lógica, quanto mais testes, maior a realidade do número de infectados.
O descontrole da pandemia é fato no Brasil. É o que indicam diferentes modelos matemáticos e epidemiológicos. Enquanto o número de infectados começa a cair até nos EUA, no Brasil dobra a cada 5 dias. O boletim 14 do Ministério da Saúde mostra que foram feitos 339 mil testes, 3 para cada caso positivo.
– Seria necessário 300 mil por dia para o Brasil não estar com uma vela na mão, enquanto outros países tem uma lanterna – compara Átila Iamaraino, biólogo e pesquisador brasileiro.
A Imperial College mostra que a taxa de contágio brasileiro é hoje a maior do mundo: 1 infecta 3, enquanto é considerado “preocupante” 1 para 2, da Suécia, e em queda o 1 para 1 da Alemanha e, sim!, já de Nova Iorque, que começa a superar a tragédia.
Em Gravataí não há indícios de que será diferente, já que a média de casos, que era de um a cada dois dias já chega a 1 por 24h. Uma estimativa sobre dados do Governo do RS e do Google calcula que 40% das pessoas não estavam em isolamento social mesmo antes da reabertura das atividades econômicas nesta segunda que, conforme cálculos da Prefeitura, terá como consequência pelo menos 100 mil pessoas circulando pelas ruas.
Para efeitos de comparação, países europeus e asiáticos estão ‘reabrindo’ somente após a queda de casos e uma ‘quarentena’ a qual era respeitada por 70% das pessoas. Em Portugal, metade da população ficou em casa no primeiro dia da 'retomada'.
As estimativas da subnotificação são umas piores que as outras. Pela Imperial, o Brasil tem os dados mais irreais do mundo: 90% de subnotificação. Em Gravataí, seriam mais de 2 mil infectados. Já pelo estudo do Governo do RS, usado para definir Gravataí como ‘bandeira laranja’, e seguido pela Prefeitura, seriam 300 casos.
Mas o dado parcial que melhor ilustra a pandemia é o de hospitalizados pela SRAG, a síndrome respiratória aguda grave – a ‘cara’ da COVID-19. Em Gravataí, entre março e abril de 2019 foram 3 casos; no mesmo período em 2020, 78.
É uma análise parcial porque não é possível analisar o número de mortes pela SRAG, já que ainda não há dados oficiais. Conforme a SMS, os cartórios não estão alimentando o sistema nacional, devido ao fechamento na pandemia. O exemplo maior é que o único óbito por COVID-19 em Gravataí sequer está registrado no Portal Transparência de Registro Civil.
Ao fim, uma verdade é incontestável nos números: algo está hospitalizando 30 vezes mais gravataienses por falta de ar nos quatro primeiros meses de 2020. Como jornalismo é dar nome às coisas: é o SARS-CoV-2, vírus que causa a COVID-19.
Aguardemos os número daqui a 14 dias, a partir desta semana do dia das mães, em que as ruas e comércios voltaram a ficar cheios em toda região metropolitana.
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