A inauguração da primeira igreja luciferiana do Rio Grande do Sul acontece na virada desta quinta-feira (2) para a Sexta-Feira Santa. Será uma cerimônia reservada, para convidados e praticantes, e longe dos holofotes.
E, ao que tudo indica, a ‘loteria de toga’, incusive, também longe de Gravataí.
O endereço do templo não será divulgado. A justificativa oficial é segurança. Mas há um contexto que ajuda a explicar o silêncio: em Gravataí, onde o movimento ganhou notoriedade nacional e internacional, há uma proibição judicial definitiva para abertura de templo ao público.
O novo espaço é uma iniciativa do sacerdote Mestre Lukas de Bará da Rua, nome já conhecido no país pela atuação contra a intolerância religiosa e pela instalação do maior monumento dedicado a Lúcifer no Brasil.
A escolha da data não é casual. A abertura ocorre na véspera da Sexta-Feira Santa, uma das datas mais simbólicas do calendário cristão. Um contraste que, para críticos, provoca. Para adeptos, reafirma identidade.
O templo terá estética inspirada em capelas, mas com elementos próprios: cores preto e vermelho, gárgulas, pentagramas e um espaço voltado a práticas espirituais com entidades demoníacas dentro da linha da chamada alta magia.
Segundo o idealizador, a proposta é oferecer estrutura para rituais mais “profundos”, voltados a praticantes que buscam maior comprometimento espiritual.
A inauguração ocorre em meio a um impasse que se arrasta desde 2024. Naquele ano, a tentativa de abrir um templo luciferiano em Gravataí foi barrada pela Justiça a pedido da Prefeitura. O motivo: ausência de alvará e enquadramento legal da atividade religiosa.
A decisão transitou em julgado em 2025. Não cabe mais recurso.
Desde então, o espaço onde foi instalada a estátua de cinco metros dedicada a Lúcifer permanece interditado.
O movimento, no entanto, não parou. Rituais seguiram ocorrendo de forma privada, em outros locais e residências de seguidores. O número de adeptos, segundo o próprio líder, cresceu.
Agora, a estratégia parece ser inaugurar, mas fora do alcance direto da decisão judicial que marcou o caso em Gravataí.
A nova igreja integra as atividades do Instituto Mestre Lukas, voltado ao autodesenvolvimento espiritual.
A iniciativa dialoga com a estruturação do chamado noltismo, religião criada pela Nova Ordem de Lúcifer na Terra (N.O.L.T.), que busca organizar práticas de demonolatria sob uma doutrina própria.
Para os adeptos, Lúcifer não é o “mal” do imaginário popular, mas símbolo de conhecimento, transformação e liberdade individual.
A proposta, segundo os fundadores, é oferecer uma experiência espiritual menos superficial — e mais orientada.

O Moleiro de Sans-Souci
A trajetória do grupo é marcada por polêmicas.
Desde a instalação da estátua de Lúcifer, em 2024, Gravataí entrou no noticiário nacional — e até internacional — dividida entre debates sobre liberdade religiosa e reações de intolerância.
Houve pressão política, decisões judiciais, mobilização nas redes e até episódios de violência simbólica.
No centro de tudo, uma questão que permanece em aberto: até onde vai a liberdade de culto quando ela desafia o senso comum?
A Constituição garante. A prática, nem sempre.
A inauguração na madrugada santa não significa abertura irrestrita. O templo funcionará, ao menos neste primeiro momento, apenas para convidados e indicados por praticantes. A localização seguirá em sigilo.
É, ao mesmo tempo, uma igreja e uma espécie de clube de iniciados.
Um espaço que nasce estruturado, mas ainda cercado por limites.
Jurídicos, sociais e culturais.
Ao fim, essa polêmica sempre me lembra do conto “O Moleiro de Sans-Souci”. Às avessas.
Em versos, François Andrieux conta que em 1745, na Prússia, um moleiro tinha o seu moinho nas cercanias do palácio do rei Frederico 2º. Um dos puxa-saco do soberano tentou removê-lo dali, porque julgava que aquilo maculava a paisagem. Ele se negava a sair. Frederico o chamou para saber a que se devia a sua resistência. Ouviu a célebre frase: “Ainda há juízes em Berlim”. Para o moleiro, a Justiça, aquela com a qual contava, não haveria de distingui-lo do rei.
No caso do templo luciferiano — ao menos no formato que se apresentou em 2024 — os juízes de Berlim não atenderam ao moleiro.






