Acerta o jornalista Roque Lopes, em O Repórter. E acerta não por ‘torcida ou secação’. Acerta porque olha para o que, em eleição, costuma ser mais decisivo do que discurso: estrutura, contexto e história.
Seu artigo — Porquê Jussara é a favorita para vencer a eleição polarizada em Cachoeirinha — foi mal compreendido por alguns. Normal. Eleição não é ambiente para análise fria. Vira torcida organizada, confronto de interesses, opinião financiada por cargo ou por pix. Analistas são poucos. E, quando aparecem, a polêmica cola junto.
Porque trabalham com fatos, aqueles chatos que atrapalham argumentos.
Façamos um exercício simples — e didático.
Troquemos os nomes. Sai Jussara, entra Cristian Wasem. Sai Claudine, entra David Almansa. Voltamos para 2022. Também uma eleição suplementar. Cristian, como Jussara, era uma dissidência de governo cassado.
O que aconteceu? Cristian venceu.
E venceu por quê? Porque era o prefeito em exercício, porque tinha estrutura, porque tinha vereadores, porque tinha capilaridade. Não era o mais conhecido antes de assumir. Mas passou a ser. E isso basta.
Jussara está exatamente nesse lugar hoje — com uma diferença relevante: chega mais forte.
É prefeita interina, tem seis mandatos como vereadora — não dois —, conhece a máquina, conhece a política local e, principalmente, tem base.
Uma base robusta: 13 dos 17 vereadores.
Cristian tinha 15. E venceu.
Esse número, em eleição suplementar, pesa mais do que parece para quem olha de fora. Não há centenas de candidatos a vereador disputando votos para si e para a candidatura que apóiam à Prefeitura. Há uma rede concentrada de lideranças pedindo voto. Estruturada e interessada. São os atuais vereadores.
Cada gabinete é um núcleo eleitoral. Cada cargo é um vetor de influência. Cada família ligada à estrutura pública vira multiplicadora de voto.
É matemática política — não ideologia.
Do outro lado, Claudine ocupa o papel que, ontem, foi de Almansa. A oposição. Com um detalhe: Almansa era oposição histórica. Claudine tornou-se oposição por circunstância: a cassação.
Sua principal aposta é Cristian como ‘Grande eleitor’. Pode funcionar? Pode. Ao contrário de Miki, não foi afastado sob acusação de corrupção pelo sistema judiciário. Mas não muda o eixo estrutural da disputa.
Porque eleição não se ganha apenas com narrativa. Ganha-se com presença, com base, com recurso e com gente na rua. E nisso, novamente, Jussara leva vantagem.
São nove partidos em sua coligação. Mais fundo eleitoral e partidário, ou seja, mais dinheiro, mais estrutura na campanha. Claudine está isolada. Tem seu partido e divisões internas que enfraquecem ainda mais o campo.
A história recente de Cachoeirinha reforça a tese. Miki Breier governou com 16 dos 17 vereadores. Cristian, com 15. Agora, Jussara caminha com 13.
O padrão se repete: quem governa com maioria larga, em eleição suplementar, larga na frente.
Roque captou isso.
Quando escreve que há uma “simbiose perfeita” entre discurso social e conservadorismo, com apoio massivo da Câmara, ele descreve um fenômeno típico de cidades médias: a política pragmática, que conversa com diferentes públicos sem perder sustentação institucional.
Sem colocar a ferradura ideológica ou a lacração no centro da campanha, Jussara equilibra-se entre os pólos do lulismo e do bolsonarismo, passando pelo ‘extremo centrismo’ de Eduardo Leite.
Enquanto isso, a oposição aposta na narrativa do “golpe”, do vitimismo, da polarização emocional. E em Cristian.
Funciona? Às vezes. Mas, via de regra, perde para a máquina em movimento. Uma máquina que guarda Cristian no ontem e da qual Jussara tem a chave da ignição.
Ao fim, é leitura de cenário, sem ‘torcida ou secação’. Jussara é favorita.
Se “merece”, ou “é melhor”, não importa para esta análise. Fato é que reúne, hoje, as condições objetivas que historicamente definem eleições desse tipo em Cachoeirinha.
Negar isso não é discordar de Roque. É ignorar a política como ela é. Goste-se ou não.
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