RAFAEL MARTINELLI

Jussara é favorita — e negar isso é negar o óbvio da política de Cachoeirinha

Jussara, na convenção em que foi lançada candidata

Acerta o jornalista Roque Lopes, em O Repórter. E acerta não por ‘torcida ou secação’. Acerta porque olha para o que, em eleição, costuma ser mais decisivo do que discurso: estrutura, contexto e história.

Seu artigo — Porquê Jussara é a favorita para vencer a eleição polarizada em Cachoeirinha — foi mal compreendido por alguns. Normal. Eleição não é ambiente para análise fria. Vira torcida organizada, confronto de interesses, opinião financiada por cargo ou por pix. Analistas são poucos. E, quando aparecem, a polêmica cola junto.

Porque trabalham com fatos, aqueles chatos que atrapalham argumentos.

Façamos um exercício simples — e didático.

Troquemos os nomes. Sai Jussara, entra Cristian Wasem. Sai Claudine, entra David Almansa. Voltamos para 2022. Também uma eleição suplementar. Cristian, como Jussara, era uma dissidência de governo cassado.

O que aconteceu? Cristian venceu.

E venceu por quê? Porque era o prefeito em exercício, porque tinha estrutura, porque tinha vereadores, porque tinha capilaridade. Não era o mais conhecido antes de assumir. Mas passou a ser. E isso basta.

Jussara está exatamente nesse lugar hoje — com uma diferença relevante: chega mais forte.

É prefeita interina, tem seis mandatos como vereadora — não dois —, conhece a máquina, conhece a política local e, principalmente, tem base.

Uma base robusta: 13 dos 17 vereadores.

Cristian tinha 15. E venceu.

Esse número, em eleição suplementar, pesa mais do que parece para quem olha de fora. Não há centenas de candidatos a vereador disputando votos para si e para a candidatura que apóiam à Prefeitura. Há uma rede concentrada de lideranças pedindo voto. Estruturada e interessada. São os atuais vereadores.

Cada gabinete é um núcleo eleitoral. Cada cargo é um vetor de influência. Cada família ligada à estrutura pública vira multiplicadora de voto.

É matemática política — não ideologia.

Do outro lado, Claudine ocupa o papel que, ontem, foi de Almansa. A oposição. Com um detalhe: Almansa era oposição histórica. Claudine tornou-se oposição por circunstância: a cassação.

Sua principal aposta é Cristian como ‘Grande eleitor’. Pode funcionar? Pode. Ao contrário de Miki, não foi afastado sob acusação de corrupção pelo sistema judiciário. Mas não muda o eixo estrutural da disputa.

Porque eleição não se ganha apenas com narrativa. Ganha-se com presença, com base, com recurso e com gente na rua. E nisso, novamente, Jussara leva vantagem.

São nove partidos em sua coligação. Mais fundo eleitoral e partidário, ou seja, mais dinheiro, mais estrutura na campanha. Claudine está isolada. Tem seu partido e divisões internas que enfraquecem ainda mais o campo.

A história recente de Cachoeirinha reforça a tese. Miki Breier governou com 16 dos 17 vereadores. Cristian, com 15. Agora, Jussara caminha com 13.

O padrão se repete: quem governa com maioria larga, em eleição suplementar, larga na frente.

Roque captou isso.

Quando escreve que há uma “simbiose perfeita” entre discurso social e conservadorismo, com apoio massivo da Câmara, ele descreve um fenômeno típico de cidades médias: a política pragmática, que conversa com diferentes públicos sem perder sustentação institucional.

Sem colocar a ferradura ideológica ou a lacração no centro da campanha, Jussara equilibra-se entre os pólos do lulismo e do bolsonarismo, passando pelo ‘extremo centrismo’ de Eduardo Leite.

Enquanto isso, a oposição aposta na narrativa do “golpe”, do vitimismo, da polarização emocional. E em Cristian.

Funciona? Às vezes. Mas, via de regra, perde para a máquina em movimento. Uma máquina que guarda Cristian no ontem e da qual Jussara tem a chave da ignição.

Ao fim, é leitura de cenário, sem ‘torcida ou secação’. Jussara é favorita.

Se “merece”, ou “é melhor”, não importa para esta análise. Fato é que reúne, hoje, as condições objetivas que historicamente definem eleições desse tipo em Cachoeirinha.

Negar isso não é discordar de Roque. É ignorar a política como ela é. Goste-se ou não.


LEIA TAMBÉM

Jussara Caçapava e Mano confirmam chapa com 9 partidos e 12 vereadores em Cachoeirinha; o samba da unidade — com MDB de Cristian & tudo

Participe de nossos canais e assine nossa NewsLetter

Facebook
WhatsApp
Twitter
LinkedIn
Pinterest

Conteúdo relacionado

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Receba nossa News

Publicidade