A convenção que confirmou Jussara Caçapava (Avante) candidata à reeleição, ao lado de Mano do Parque (PL), não foi apenas um rito partidário. Foi um espetáculo do pragmatismo implacável da política.
Telão. Escola de samba. Lotação completa. E o tamanho exato da coligação: apoio de 9 partidos e 12 dos 17 vereadores.
Dos Grandes Lances dos Piores Momentos, entre eles, o MDB do prefeito cassado Cristian Wasem. Horas antes, por 29 votos a 24, o partido decidiu apoiar Jussara.
Se Cristian chama o impeachment de “golpe”, sofreu um dentro de casa. Perdeu o próprio partido na eleição suplementar de 12 de abril.
Às vésperas do domingo final de convenções, a coligação de Jussara já reúne Avante, PL, MDB, Republicanos, Podemos, PSD, PDT, PSDB e Solidariedade.
A festa como mensagem
Jussara chegou ao lado de Mano, depois de participar da convenção do PL. Foram recebidos ao som da Imperatriz Dona Leopoldina e por crianças que gritavam: “Jussara, cadê você? Eu vim aqui só pra te ver”.
A política, às vezes, se traduz em símbolos.
A montagem do evento teve cuidado cirúrgico para valorizar cada vereador que ajudou a construir o impeachment — e antes, a reeleição de Jussara como presidente da Câmara, movimento que a levou à Prefeitura.
Cada nome citado. Cada “sacrifício” lembrado. Foi pedagogia política.
– Nunca tinha visto articulação assim – disse seu assessor especial Cláudio Ávila, com a experiência de quem já foi protagonista de impeachment em Gravataí.
– Foi aula de política. Política que só se faz quando se tem lealdade e, o principal, palavra – disse, chamando ao palco dois filhos de Jussara, Ildo Jr. e Paulo Agliardi, o Tetê, os discretos articuladores políticos da cassação e da coligação.
– Jussara vai ser uma mãe para Cachoeirinha – disse, citando que a vereadora por 18 anos criou seis filhos após a viuvez precoce.
Estavam no palco vereadores que votaram diferente em momentos distintos.
Edison Cordeiro (Republicanos), que inicialmente foi contra a abertura do impeachment e depois votou pela cassação.
Tiago Eli e Fernando Medeiros, que romperam no PP.
Paulinho da Farmácia, que abriu mão da vice e até se licenciou para a suplente assumir e ampliar a coligação atraindo o PDT.
Pricila Barra, que fez o mesmo com seu suplente, atraindo o Podemos que tem também o vereador Uilson Droppa, que votou contra o impeachment.
Otoniel Gomes, do MDB, que entregou a liderança do governo Cristian após três anos.
– A Prefeitura contraiu empréstimo de R$ 80 milhões e nunca me responderam onde foi o dinheiro – disse, acrescentando que “se teve golpe foi contra o bolso do povo de Cachoeirinha”.
A festa foi construída como síntese: não é sobre ideologia. É sobre maioria. Ao menos, reputo, pareceram querer comunicar.
Jussara, popular, de partido da base de Lula.
Mano, conservador, bolsonarista-raiz.
No palco, não havia ferradura ideológica. Havia pragmatismo.
– Estive sob ameaça de cassação. Era uma injustiça. Jussara me garantiu apoio. Nunca esquecerei.
Recebeu um novo sobrenome.
– Não é mais o Mano do Parque. É o Mano da Cidade – disse Jussara.

A destruição da chapa adversária
A adesão do MDB implode o plano traçado por Cristian e pelo ex-vice Delegado João Paulo Martins (PP).
Eles pretendiam lançar Claudine Silveira (PP), esposa de João Paulo, e Cleo do Onze (MDB), vereador fiel ao ex-prefeito.
Cristian queria testar seu capital político como ‘Grande Eleitor’.
Mas sem o MDB, o teste perde lastro. O que era confronto direto virou terreno movediço.
É Cristian, sem partido, ou com o partido-partido, colocando seu legado a teste.

Discurso de missão
Jussara falou com emoção. Lembrou dos filhos. Do marido falecido, Ildo, ex-vereador. Dos 38 anos de vida pública.
– Acabou a brincadeira. Meu sobrenome é trabalho.
Repetiu que, em 40 dias de governo, pegou Natal e Ano Novo com mato alto e lixo acumulado.
– Meu primeiro decreto foi sobre o lixo.
Falou de saúde.
– Não vai ter mais idosos nas filas de posto. Não aceito.
Prometeu o fim do teleagendamento e ganhou aplausos efusivos.
– Vou acabar com isso. Quero fichas e médicos nos postos.
Agradeceu ao deputado estadual Dimas Costa (PSD) — ‘embaixador’ do governador Eduardo Leite em Gravataí e que se propõe a exercer o mesmo papel por Cachoeirinha — pela intermediação na liberação das obras do Arroio Passinhos.
Dimas, por sua vez, lembrou que Jussara pode ser a primeira mulher a comandar a cidade e pediu aplausos — não silêncio — pela morte de uma ex-vereadora vítima do 16º feminicídio no RS apenas em 2026.
– Parem de matar as mulheres. O poder é o lugar delas.
Ao fim, se no anúncio de Mano vice, às 23h do dia 11, houve pressa calculada, agora houve demonstração de força. A unidade proposta se traduziu em festa. Em números. Em ampla coligação.
Jussara entra na campanha não apenas como prefeita interina, mas como candidata que reuniu quase toda a Câmara. E que arrancou o MDB das mãos do seu principal adversário.
Se isso basta para vencer, as urnas dirão.
Mas, na noite de sábado, a política teve ritmo de samba — ao som do bloco da maioria.
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