O prefeito cassado Cristian Wasem (MDB) voltou a tratar a eleição suplementar do dia 12 de abril em Cachoeirinha como ‘guerra espiritual’, como havia feito em entrevista ao Seguinte:, em novembro, logo após a abertura dos processos de impeachment.
Foi neste domingo, na convenção do PP que confirmou como candidata a prefeita Claudine Silveira (PP), vereadora que é esposa do vice-prefeito cassado Delegado João Paulo Martins (PP).
O discurso não foi apenas político. Foi moral. Religioso. Confrontacional.
No palco, Cristian evocou Deus, falou em “articulações diabólicas” e tratou a disputa como embate espiritual.
– Tentam negar que é o bem contra o mal. Se não é o bem contra o mal, o que é então? Usar de articulações sinistras, diabólicas, para combater o que estava sendo feito, sendo entregue, e a alegria do povo – disse.
A convenção confirmou que, caso a chapa seja pura, o vice será o pastor Marco Aurélio Albernaz, ex-presidente da ACMEC, a associação dos pastores de Cachoeirinha. Mas o partido deixou em aberto a possibilidade de coligação.
E é aí que entra o nome de José Stédile.
Conversas existem. O próprio Delegado, que é presidente do PP, admitiu ao Seguinte: que há diálogo.
– É improvável, mas há possibilidade, em nome do diálogo deixamos aberta a definição do vice.
Fontes ligadas ao ex-prefeito, porém, afirmam que Stédile só aceitaria uma composição sendo ele o candidato a prefeito. Claudine cabeça de chapa é ponto inegociável para o grupo de Cristian. O impasse é evidente.
E o tempo corre. O PSB realiza sua convenção até às 17h. Mas pode lançar Stédile e delegar à direção executiva definir uma coligação até a quarta-feira, prazo final para inscrição das chapas.
A narrativa do “golpe”
Claudine assumiu a tribuna como quem assume uma causa.
– A candidatura representa justiça com nosso voto, que elegeu Cristian e Delegado. Há muita gente indignada, pelo voto não valer. O povo se sente traído. A democracia é saber respeitar a escolha das pessoas. O processo de impeachment não mostrou nenhuma irregularidade, quanto menos corrupção. Na eleição suplementar, é hora de ir às urnas e não deixar que outros escolham por nós.
O impeachment segue sendo tratado como “golpe”.
O Delegado João Paulo Martins endureceu o tom:
– Há um lamento pelo trabalho que foi descontinuado.
E mirou diretamente na Câmara:
– A escolha da Câmara para a convenção é simbólica. Não por esta casa, mas pelas pessoas que estão nos mandatos e nos submeteram a esse constrangimento da cassação. Há uma máxima de que a política adora a traição, mas não perdoa os traidores. Tenho certeza que no futuro, esse sentimento se demonstrará. Ao contrário de Cristian e eu, eles não têm facilidade de andar nas ruas. A reprovação é gigantesca. As urnas vão mostrar isso.
A palavra traição apareceu mais de uma vez.

MDB partido-partido, Cleo mantido
A eleição ganhou aquele que reputo dos Grandes Lances dos Piores Momentos com a decisão do MDB, neste sábado, de apoiar a prefeita interina Jussara Caçapava (Avante) na chapa com Mano do Parque (PL).
Cleo do Onze (MDB) não pôde ser indicado vice. Perdeu por 29 a 24.
Mas não saiu do projeto.
– Ontem o que aconteceu foi que tiraram meu nome para ser vice da Claudine. Mas, Claudine, eu assumi um compromisso contigo e vou seguir junto contigo. Diferente do que foi falado, dizendo que o MDB apoia outra candidatura, ficou provado na convenção que grande parte do MDB segue junto com o projeto Cristian, Delegado e Claudine prefeita. Meu compromisso segue aqui. E nesta eleição suplementar, o Cleo do Onze é 11 (número do PP nas urnas).
A disputa virou também disputa por narrativa interna.
O teste do ‘Grande Eleitor’
O deputado estadual Joel de Igrejinha (PP) resumiu a estratégia:
– Podemos achar que o time deles é maior, mas aqui nesta sala temos os dois melhores cabos eleitorais que qualquer chapa poderia ter: Cristian e Delegado. Porque eles representam 71% do que a comunidade decidiu nas urnas em 2024. O sentimento de revolta existe. Nós teremos uma chapa que vai honrar o que as pessoas decidiram.
É o teste do ‘Grande Eleitor’.
Cristian sabe que não pode concorrer. Mas pode medir seu capital eleitoral e legado. Em certo momento, tirou o tênis, apontando furos e dizendo que eram lembranças das últimas campanhas.
– Nós caminhamos nas ruas e a gente sente, é lindo e é triste. Porque há o reconhecimento do que fizemos, mas também muita gente lamenta o que fizeram com a gente. Há quem queira ir embora de Cachoeirinha. Eu digo: não, fica, a gente vai resolver.
E encerrou num tom quase profético:
– As pessoas sabem o que é certo e o que é errado. Eu e a Fabi (Medeiros, sua esposa) dormimos com paz de consciência. Tenho certeza que eles não dormem tranquilos. Porque a vingança não é nossa, é lá em cima. Ele diz: “é comigo a bronca, pode deixar”. Ele conhece a história de cada um.
“Ele”, no caso, é Deus.
O áudio de Stédile — e Jussara rindo
Enquanto isso, nos bastidores, circula o áudio de Stédile divulgado quando a chapa Claudine e Cleo havia sido anunciada. O Seguinte: teve acesso.
O tom é de apelo à unidade.
– Este é um momento que não podemos perder o foco. Sempre com muito respeito. O caminho da nossa unidade pode salvar Cachoeirinha. O ideal era termos uma única chapa de oposição, para unificar todas as nossas forças e não desperdiçar voto nenhum. Então, com todo respeito a todo mundo, vamos ter cautela. A Jussara deve estar rindo de nós – diz o ex-prefeito.
A frase ecoou.
Porque, do outro lado, Jussara já reuniu nove partidos e 12 vereadores. A coligação é ampla. O pragmatismo, explícito.
A oposição, por ora, está dividida entre três projetos.
Claudine vai às urnas com discurso de reparação. Stédile insiste na estabilidade. O PT mantém candidatura própria. E Jussara governa com maioria parlamentar.
Se haverá composição, o relógio dirá.
Mas a eleição deixou de ser apenas disputa administrativa e estratégica, ao menos para Cristian.
Virou ‘batalha espiritual’.
Pode até dar certo, mas não entendo um bom caminho.
A política é mundana.
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