RAFAEL MARTINELLI

PT rompe com todos e — sem David Almansa — vai de chapa pura na eleição suplementar de Cachoeirinha; o sacrifício dos ‘guris’

David Almansa comunicou PT que não vai concorrer na eleição suplementar

O PT terá chapa pura na eleição suplementar de 12 de abril, em Cachoeirinha. A decisão foi aprovada na noite desta sexta-feira pelo diretório municipal do partido.

Não haverá unidade da oposição no enfrentamento à chapa formada pela prefeita interina Jussara Caçapava (Avante) e o vereador Mano do Parque (PL).

O PT não quer coligar com o ex-prefeito José Stédile (PSB), nem com as candidaturas apoiadas prefeito e vice cassados. Cristian Wasem (MDB) e Delegado João Paulo Martins (PP) apoiam a chapa Claudine Silveira (PP) e Cleo do Onze (MDB).

Como já antecipei, o PT tem uma avaliação unânime de que foi um desastre a composição com o PSDB de Dr. Rubinho, bolsonarista que foi vice de David Almansa na eleição de 2024. Tanto que resultou num 7 a 1 a favor de Cristian.

Chamei a chapa de ‘MarxDonalds’.

Para esta eleição suplementar, o nome mais natural era o de David Almansa.

Candidato a prefeito em 2022 e 2024, principal rosto do PT local, liderança que enfrentou Cristian nas duas últimas eleições.

Recebeu apelos internos para disputar. Manteve a negativa.

– Minha posição foi pública contra o impeachment. Não queria que esta eleição acontecesse. Minhas candidaturas sempre foram de diálogo e construção. Não posso entrar agora em uma campanha, de forma atabalhoada, e abrir mão da função que exerço no governo federal e na campanha de reeleição do presidente Lula – disse ao Seguinte:.

Almansa é hoje diretor de direitos na rede e educação midiática da Presidência da República, em Brasília.

Há coerência na recusa. David foi uma das vozes mais críticas à cassação. Comparou o processo às pedaladas que derrubaram Dilma. Falou em crise institucional. Alertou para o “faroeste” político.

Disputar a eleição nascida desse processo seria, para ele, uma contradição.

Mas defende candidatura própria:

– Preciso de um tempo das urnas. Mas defendo que o PT tenha candidatura. Farei campanha com unhas e dentes.

Sai da cabeça de chapa, mas fica no palanque.

A unidade com ‘os guris’

Com a confirmação de David fora da disputa, o partido convocou novo diretório para a tarde deste sábado. A missão agora é pacificar.

O Seguinte: já havia antecipado a possibilidade de uma composição entre os dois vereadores da sigla: Gustavo Almansa e Leo da Costa.

A tendência, dado que o grupo dos Almansa tem maioria no diretório, é que Gustavo seja o candidato a prefeito e Leo componha como vice.

Os dois ‘guris’ do PT. Os dois que estiveram em lados distintos no momento mais traumático da política recente da cidade.

Gustavo votou contra o impeachment de janeiro. Leo votou a favor da cassação do prefeito — foi contra no caso do vice — e recorreu à direção estadual quando o diretório municipal fechou posição diferente.

Foi o auge do ‘deu PT’. PT de ‘Perda Total’ na unidade partidária.

Agora, o entendimento interno é que ambos devem fazer o “sacrifício” pelo partido. Se não por entusiasmo, por necessidade. Pela campanha futura de Lula.

No impeachment, o PT viveu sua maior crise interna recente. Diretório municipal contra a cassação. Executiva estadual orientando a favor. Recurso de vereador. Nota pública. Ameaça de comissão de ética.

Era a ‘oração a São PT’ sendo rezada por lados opostos. De possível milagre para salvar Cristian, virou danação nas relações internas.

O partido acabou rachado no plenário. E Cristian e Delegado cassados.

Ao fim, se confirmada a chapa Gustavo & Leo, será um teste de reconciliação interna. O partido que quase se implodiu no julgamento político precisa demonstrar que consegue caminhar unido nas urnas.

Inevitavelmente, porém, precisará explicar ao eleitor por que foi ‘contra e a favor’ da cassação.

Se a chapa pura é gesto de coerência, ou de sobrevivência, as urnas dirão.

O PT resta sob teste daquela máxima humorística do Millôr: de erro em erro, a gente chega no poder.


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