RAFAEL MARTINELLI

Entre algoritmos e salas de aula: por que Gravataí entendeu antes o tamanho do problema ‘redpill’

Insisto no tema, porque há um certo atraso estrutural no Brasil quando o assunto é violência contra a mulher. Reagimos sempre depois. Depois da agressão, depois da denúncia, depois da morte. O feminicídio vira estatística, a indignação vira ciclo e a política pública, quase sempre, vira remendo.

Gravataí decidiu testar outra lógica, como já reportei em De Gravataí para o Brasil: lei que leva Maria da Penha às escolas vira política nacional em meio à onda ‘redpill’.

A Lei nº 4.752/2024, proposta pela vereadora Anna Beatriz da Silva e sancionada pelo prefeito Luiz Zaffalon, parte de uma premissa simples e, justamente por isso, poderosa: a violência não começa no ato. Começa na cultura.

Levar a Lei Maria da Penha para dentro das escolas não é sobre ensinar legislação. É sobre disputar valores. É sobre interromper, ainda na infância, um processo que, se não for questionado, termina em controle, agressão e, em muitos casos, morte.

Enquanto o país discute como punir melhor, Gravataí começou a tentar evitar que o crime aconteça. E fez isso antes de virar política nacional.

Na semana passada, o governo federal regulamentou a inclusão de conteúdos de prevenção à violência contra a mulher na educação básica. A fala do ministro Camilo Santana é correta: “não há futuro possível sem a garantia plena de direitos para meninas e mulheres”.

Mas, na prática, esse futuro já vinha sendo testado em escala local. Segundo a secretária de Educação, Aurelise Braun, o projeto começou em quatro escolas em 2025. Agora, avança para toda a rede. Funciona porque não é improviso — é método. É rede. É política pública.

E, principalmente, é escuta.

Quando ela diz que “sai muita história disso”, não é um detalhe. É o núcleo da questão. Crianças e adolescentes reconhecem, nomeiam e, às vezes, revelam violências que antes estavam naturalizadas. A escola vira, então, o que deveria ser desde sempre: um espaço de proteção.

Mas há um elemento novo e perturbador que torna esse tipo de política ainda mais urgente.

O Brasil vive um momento de reconfiguração cultural silenciosa, impulsionada por redes sociais. A chamada cultura ‘redpill’ não é mais nicho. Ela se infiltra no cotidiano, molda percepções e reorganiza o imaginário de uma geração inteira.

Não se trata mais de machismo estrutural no sentido clássico. Trata-se de uma versão atualizada, com linguagem de algoritmo, estética de meme e lógica de engajamento.

Uma pesquisa recente mostra que jovens homens estão, em alguns aspectos, mais conservadores que seus pais. A ideia de que mulheres devem obedecer aos maridos, por exemplo, reaparece com força entre a geração que cresceu conectada.

Não é nostalgia. É regressão. E, como toda regressão, vem acompanhada de violência simbólica e, cada vez mais, física.

O Congresso reage endurecendo leis. A proposta que equipara misoginia ao racismo — que muitos criticam com base no fundamento do meme — é um passo ousado. Mas é notório que punir não basta. Porque quando o problema já virou crime, a política pública chegou tarde.

É por isso que a fala de Anna Beatriz precisa ser levada a sério quando ela diz que “o feminicídio é o ápice”. Não é o começo da história. É o fim de um processo longo, feito de pequenas permissões sociais.

Naturalizar o grito. Justificar o controle. Minimizar o ciúme. Rir da piada. Silenciar a denúncia.

A escola, nesse contexto, deixa de ser apenas um espaço de aprendizado formal e passa a ser um território de disputa cultural.

Em Gravataí, essa disputa está sendo feita de forma deliberada. Do primeiro ao quinto ano, de maneira lúdica. Do sexto ao nono, de forma mais direta. Com teatro, com conversa, com intervenção. Com a frase dita pela secretária e que ainda incomoda: “em briga de marido e mulher, se mete sim a colher”.

É uma quebra de paradigma. E também uma escolha política. Porque enfrentar a cultura ‘redpill’ não é só enfrentar um conjunto de ideias. É enfrentar um ambiente inteiro — digital, social e, muitas vezes, familiar — que reforça essas ideias diariamente.

É dizer para meninos que masculinidade não é domínio. E para meninas que elas não são propriedade.

Ao fim, o que Gravataí faz não é revolucionário. É básico. E talvez seja justamente o que assusta: o básico demorou demais para acontecer.

Quando uma política local antecipa uma decisão nacional, ela deixa de ser apenas gestão. Vira sinal. Sinal de que o caminho pode ser outro. E de que, talvez, a resposta mais eficaz para um problema estrutural não esteja no aumento de pena, mas na mudança de mentalidade.

Mais cedo. Antes. Onde tudo começa.

Na sala de aula.

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