SEGURANÇA

Investigação iniciada em Canoas desarticula organização criminosa especializada em fraudes eletrônicas em dois estados

A Polícia Civil do Rio Grande do Sul deflagrou, na manhã desta segunda-feira (9), a Operação Interface, uma ofensiva interestadual destinada a desarticular uma organização criminosa especializada em estelionatos eletrônicos por meio do chamado golpe do “falso executivo”. A investigação foi conduzida pela 3ª Delegacia de Polícia de Canoas e contou com apoio de órgãos de inteligência e forças policiais de outros estados.

Ao todo, foram cumpridas 87 medidas cautelares, sendo 60 mandados de busca e apreensão e 27 mandados de prisão nos estados de Mato Grosso e Rio Grande do Norte. Até o momento, 18 pessoas foram presas. Também foram apreendidos veículos, motocicletas, celulares, chips telefônicos e cerca de R$ 15 mil em dinheiro.

Além das prisões, a Justiça determinou o bloqueio de todas as contas bancárias vinculadas aos investigados, com o objetivo de interromper a movimentação financeira do grupo e facilitar a recuperação de valores obtidos por meio das fraudes.

A investigação teve início após uma empresa do setor industrial registrar prejuízo de R$ 193.601,89 em um golpe aplicado por criminosos que se passaram por executivos da companhia. O esquema utilizava aplicativos de mensagens para enganar funcionários do setor financeiro e induzi-los a realizar transferências bancárias para contas controladas pela organização.

Uma das vítimas foi uma assistente financeira da empresa. Conforme apurado pela Polícia Civil, ela recebeu mensagens de um número que utilizava a fotografia do presidente da companhia. Como o executivo estava em viagem e costumava solicitar pagamentos por mensagens, a funcionária acreditou estar cumprindo determinações legítimas.

Seguindo as orientações recebidas, ela efetuou diversas transferências para contas indicadas pelo suposto dirigente. A fraude só foi descoberta dois dias depois, quando a funcionária estranhou o volume de pagamentos realizados em um curto período e verificou que o número utilizado não pertencia ao presidente da empresa.

As investigações apontaram que o golpe foi executado a partir do estado de Mato Grosso, especialmente na região de Cuiabá, área já monitorada pelas autoridades pela recorrência de crimes semelhantes. Posteriormente, os valores foram distribuídos para integrantes do grupo localizados em outros estados.

Segundo a Polícia Civil, a organização possuía uma estrutura hierarquizada e especializada. Entre os integrantes estavam os chamados “conteiros”, responsáveis por disponibilizar contas bancárias para o recebimento dos valores ilícitos, e os “tripeiros”, encarregados de recrutar esses titulares de contas em troca de comissões. Os investigadores também identificaram os supostos articuladores e executores diretos do esquema, que possuem antecedentes por crimes semelhantes.

As apurações revelaram ainda o uso de uma estratégia conhecida como pulverização financeira. Nessa modalidade, os recursos obtidos são rapidamente fragmentados e transferidos para dezenas de contas espalhadas pelo país, dificultando o rastreamento do dinheiro e eventuais bloqueios judiciais.

De acordo com a delegada Luciane Bertoletti, responsável pela investigação, os criminosos investem cada vez mais em técnicas de engenharia social para tornar os golpes convincentes.

“Os criminosos estudam a estrutura das empresas, identificam executivos e funcionários com acesso ao setor financeiro e utilizam fotografias, nomes e informações públicas para criar perfis falsos extremamente convincentes”, afirmou.

A Polícia Civil alerta que empresas devem adotar protocolos rigorosos para validação de transferências bancárias, especialmente em situações que envolvam pagamentos urgentes, alteração de dados bancários ou movimentações de alto valor. A recomendação é que toda solicitação seja confirmada por mais de um canal de comunicação e, sempre que possível, diretamente com o responsável pela demanda.

Para a corporação, a Operação Interface representa mais uma etapa no enfrentamento às organizações criminosas que atuam no ambiente digital e movimentam milhões de reais por meio de fraudes eletrônicas em todo o país.

O diretor da 2ª Delegacia de Polícia Regional Metropolitana, delegado Cristiano Reschke, destacou que o crime organizado tem migrado para o ambiente virtual com crescente grau de especialização.

“O que testemunhamos nos últimos anos é uma transição alarmante: grupos que antes atuavam em crimes convencionais migraram para o ambiente digital, desenvolvendo uma especialização técnica sem precedentes em estelionatos e extorsões. A Operação Interface é uma resposta contundente da Polícia Civil a essa rede interestadual, reafirmando nosso compromisso em desarticular não apenas os executores, mas toda a estrutura logística e financeira que sustenta o crime organizado no ambiente virtual”, afirmou.

A investigação segue em andamento para identificar outros possíveis integrantes da organização e dimensionar a extensão dos prejuízos causados pelo grupo em diferentes estados brasileiros.

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