Um projeto de lei que aguarda análise na Câmara de Cachoeirinha pode representar mais do que uma homenagem simbólica a uma espécie ameaçada de extinção. Pode se tornar mais uma trincheira de proteção ao Mato do Júlio, a floresta urbana que, em maio de 2024, funcionou como uma gigantesca esponja natural e ajudou a impedir que a catástrofe climática fosse ainda maior.
As comissões do Legislativo aguardam manifestação do DPM, órgão que presta assessoria técnica a câmaras e prefeituras, para dar andamento ao Projeto de Lei 80/2026, de autoria do vereador Leo da Costa (PT), que declara o gato-do-mato-pequeno (Leopardus guttulus) Patrimônio Natural de Cachoeirinha e institui o Dia Municipal do Gato-do-Mato.
À primeira vista, pode parecer apenas uma iniciativa de valorização ambiental. Mas, numa realidade onde há anos se disputa o destino dos mais de 250 hectares do Mato do Júlio, cada nova proteção legal tem peso político, jurídico e simbólico. E o simbolismo, neste caso, caminha ao lado da ciência.
Foi justamente no Mato do Júlio que uma armadilha fotográfica registrou, pela primeira vez em Cachoeirinha, a presença do gato-do-mato-pequeno, espécie considerada ameaçada de extinção. O registro, divulgado em 2023, revelou que a última grande floresta nativa do município abriga um animal raro, de hábitos discretos, cuja sobrevivência depende da preservação de remanescentes de Mata Atlântica.
À época, Leo da Costa — que ainda não era vereador — resumiu o significado da descoberta, como ambientalista integrante do Coletivo Mato do Júlio:
– É justamente por aquela área de Mata Atlântica ser tão bem preservada que ele está tendo uma vida tranquila ali e nunca antes tinha sido visto.
O próprio projeto destaca que a espécie está classificada como “Em Perigo” e sofre com a fragmentação de habitats causada pela expansão urbana e imobiliária. A justificativa cita estimativas de menos de 2,3 mil indivíduos maduros e reprodutivos em todo o Brasil e uma redução populacional de cerca de 26% em apenas uma década.
Não é difícil perceber a conexão. Se o gato-do-mato depende da floresta para sobreviver, proteger o animal significa, na prática, fortalecer argumentos para preservar a própria floresta. É aí que o projeto ganha relevância além da fauna.
Por anos o Mato do Júlio está no centro de uma disputa entre preservação ambiental e interesses urbanísticos. A área privada, que já chegou a ser avaliada em cerca de R$ 200 milhões, permanece cobiçada pelo mercado imobiliário e inserida em debates sobre revisão do Plano Diretor, parcelamento do solo e possíveis empreendimentos.
Ao mesmo tempo, sucessivos estudos, alertas técnicos e mobilizações da sociedade civil apontaram que a área desempenha papel estratégico para a drenagem da Região Metropolitana.
A enchente de 2024 transformou a teoria em evidência prática. Levantamento do Coletivo Mato do Júlio, baseado em dados da Defesa Civil e do MapBiomas, indicou que aproximadamente 35% da água que atingiria Cachoeirinha foi absorvida pela floresta.
Ao Seguinte:, o geólogo Sérgio Cardoso, então presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Gravataí, definiu a área como uma “esponja natural”. Milhares de pessoas deixaram de ser atingidas porque a água encontrou ali um lugar para ficar.
Desde então, surgiram propostas para desapropriação, criação de parque ambiental, destinação de recursos do Plano Rio Grande e transformação do local em uma espécie de ‘Central Park gaúcho’. Mas nenhuma delas avançou a ponto de produzir uma solução definitiva.
Nem o governo estadual nem o governo federal apresentaram até agora uma resposta concreta capaz de resolver o impasse histórico sobre o futuro da área.
O resultado é que o Mato do Júlio continua protegido principalmente por dispositivos do Plano Diretor de Cachoeirinha que o classificam como Área Especial de Interesse Ambiental.
Agora, o projeto do gato-do-mato acrescenta uma nova camada de proteção.
Não impede sozinho qualquer empreendimento. Não transforma automaticamente a área em unidade de conservação. Mas cria um novo fato político. Porque toda vez que surgir uma proposta capaz de degradar a área, haverá também uma lei municipal reconhecendo que ali vive uma espécie ameaçada de extinção elevada à condição de Patrimônio Natural de Cachoeirinha.
Pode parecer pouco. Também pareciam pouco os alertas dos ambientalistas quando defendiam que o Mato do Júlio funcionava como uma esponja natural. Até que veio a enchente.
Hoje, depois que a floresta ajudou a salvar milhares de moradores das águas do Gravataí, a discussão deixou de ser apenas ambiental. Tornou-se climática, urbana e econômica.
Ao fim, o projeto do gato-do-mato talvez não seja a solução definitiva para o destino do Mato do Júlio. Mas é mais um tijolo numa muralha que vem sendo construída aos poucos pela sociedade civil, pesquisadores, ambientalistas e parte do meio político.
Um ‘dique’ que tenta proteger não apenas um felino raro. Mas a floresta inteira que permitiu a Cachoeirinha respirar quando a água subiu.






