“Meu medo é o guarda da esquina”. Essa é uma sentença clássica para os veteranos que viveram a ditadura no choque ou que, como eu, aprenderam pelo relato e testemunho da dor no contar de desconhecidos famosos ou de parentes. Se virasse hashtag ou meme, arrisco dizer que a frase funcionaria com efeito contrário — tal como o lapso geracional de Lula, no debate, ao dizer que acabaria com a polícia quando se referia (e todo mundo que viu sabe) à milícia.
Ah, mas Martinelli, tu queres então acabar com a polícia? É até ridículo. É apostar que o corte, mesmo no erro, substitui a realidade. Mas voltemos ao guarda da esquina. Para forçar ainda mais a memeficação e a crítica — até porque o algoritmo adora —, avanço: meu medo é o guarda nas paradas. Quem é da Região Metropolitana entendeu. Bora explicar o “meme”.
Na noite de sexta-feira (23), duas moradoras do Centro Histórico de Porto Alegre colocaram na janela do apartamento uma bandeira de apoio a Lula durante o debate presidencial. O vizinho do andar de baixo, tenente da reserva da Brigada Militar e apoiador de Flávio Bolsonaro, puxou o pano para dentro de seu imóvel.
Quando as mulheres desceram as escadas para reaver seu patrimônio usurpado, foram recebidas por um homem que abriu a porta engatilhando e apontando uma arma de fogo contra elas. Diante do pânico, correram e acionaram a polícia. Tudo registrado em vídeo, por elas mesmas, com todo o terror da cena.
A resposta institucional registrada em vídeos que viralizaram nacionalmente é o verdadeiro organograma do “guarda da esquina”: os policiais militares acionados ouviram o agressor em seu próprio apartamento, recusaram-se a conduzi-lo à delegacia sob a justificativa de ausência de “flagrante” e relativizaram a ameaça. “A arma dele está no nome dele. Está tudo certo”, disse o agente às vítimas aterrorizadas, que precisaram abandonar a própria casa e buscar abrigo com parentes.
Está no Sul21, do RS; está no UOL, maior portal de notícias do Brasil. O episódio, além da síntese genial de Pedro Aleixo sobre o “guarda da esquina”, lembra-me o conceito de Hannah Arendt sobre a “banalidade do mal”. Explico.
Em 13 de dezembro de 1968, o então vice-presidente civil da República, Pedro Aleixo, recusou-se a assinar o Ato Institucional nº 5 (AI-5). Interpelado por Artur da Costa e Silva, até ali presidente da “ditadura envergonhada”, que garantia ter a “honra pessoal” para não cometer abusos, Aleixo cometeu história: “Presidente, o meu problema não é o senhor. O meu problema é o guarda da esquina.”
Pedro Aleixo foi óbvio: em regimes autoritários ou sob o avanço da arbitrariedade, o perigo não reside apenas na figura do governante que concentra o poder, mas na autorização implícita que esse poder concede aos agentes da ponta para agirem sem amarras institucionais. Quando a lei se curva à força e as instituições de controle fraquejam, a liberdade do cidadão passa a depender do humor ou da benevolência de quem carrega a autoridade — ou a arma.
É aí que conecto a filósofa Hannah Arendt. Em sua obra definitiva, Eichmann em Jerusalém, Arendt formulou o conceito de “banalidade do mal” ao observar que as maiores atrocidades da história não foram cometidas exclusivamente por monstros sádicos, mas por indivíduos comuns que abdicaram da capacidade crítica de julgar, naturalizaram a barbárie e agiram tomados pelo cumprimento cego de papéis ou pela sensação de impunidade.
O mal se torna banal quando a violência política deixa de causar espanto. Quando o agente da lei olha para uma mulher que foi cobrar seus direitos (sem um “marido” ao lado, registre-se) e para um homem que engatilha uma arma no rosto de duas vizinhas por causa de uma bandeira e conclui que “está tudo certo” porque a documentação da arma é válida — avaliando, por óbvio, que é só mais um suposto “incidente da polarização” —, assistimos ao mal sendo burocratizado e naturalizado. O agressor e o agente que se omite operam dentro de uma normalidade pervertida pelo afrouxamento do Estado de Direito.
Meu voto é aberto e transparente: já tratei sobre isso em artigo anterior: O ‘voto-relação tóxica’ de Gravataí: entre o container de corpos no Dom João Becker e o Rolex de Flávio Bolsonaro na orgia do lago. No entanto, minha postura jornalística é fiel à objetividade dos fatos. Como escrevi recentemente ao analisar a memória das 1.124 vidas perdidas em Gravataí durante a pandemia — marcadas pela imagem trágica e estarrecedora do container de corpos estacionado ao lado do Hospital Dom João Becker —, a crítica ao projeto político hegemonizado pelo bolsonarismo não é fruto de militância.
Ao fim, se o poder total for entregue a um grupo sem compromisso com o Estado Democrático de Direito, o “guarda da esquina” de Porto Alegre se multiplica nas “paradas” de Gravataí ou de Cachoeirinha e nas vilas de Canoas. O medo deixa de ser uma figura de linguagem histórica da ditadura e volta a ser a rotina diária do cidadão que pensa diferente ou que estende uma bandeira.
Pedro Aleixo nos alertou há quase seis décadas sobre a força descontrolada do “guarda da esquina”; Hannah Arendt nos ensinou sobre o perigo de aceitarmos o mal como algo rotineiro e burocrático. A fusão desses dois alertas é o grande desafio da nossa democracia no domingo. Faça o que você quiser. É democracia. Ainda.






