RAFAEL MARTINELLI

Na mesa de Dimas, a política de Gravataí se reorganiza — e manda um recado

Jantar na casa do deputado reuniu Zaffa, Davi e vereadores

Na política, o que é dito importa. Mas, quase sempre, o que é mostrado importa mais. O símbolo visível suplanta os discursos. Assim, o que se viu na noite de segunda-feira (16), em Gravataí, não foi apenas um jantar. Foi um recado.

Na casa do deputado estadual Dimas Costa (PSD) e da vereadora Anna Beatriz da Silva (PSD), sentaram à mesa o prefeito Luiz Zaffalon (PSD), o ex-secretário da Fazenda Davi Severgnini e vereadores de diferentes partidos: Alex Peixe, Bino Lunardi, Guarda Moisés, Márcia Becker e Mario Peres.

Chamaram de “reunião entre amigos”. A política, como sempre, chama de outra coisa.

Mas a imagem fala. Dimas aponta para Zaffa. Zaffa aponta para Dimas. Não é um detalhe. É linguagem. É a tradução visual de algo que já vinha sendo dito — e, mais importante, construído.

Segundo apuração do Seguinte:, o prefeito foi direto ao ponto:

– Quem apoia Dimas, está me apoiando – disse, em essência.

Sincericida, Zaffa deixou claro quem é seu candidato preferencial. E há grupo.

Sem contexto, o jantar é apenas um encontro. Com contexto, mostra que a política não janta à toa.

Há menos de um mês, a política de Gravataí foi sacudida pela saída de Davi Severgnini da Prefeitura. Não foi qualquer saída.

Foram 11 anos à frente da Fazenda, 14 de Prefeitura, e o papel — raríssimo — de operador político, guardião das contas e arquiteto da maior aliança eleitoral da história do município na reeleição de Zaffa em 2024.

O homem que montou a coalizão de 11 partidos, 14 vereadores e entregou 51,17% dos votos válidos ao prefeito. Aquele que chamei ‘Zaffa do Zaffa’, pelo meio político o projetar como possível sucessor em 2028.

Saiu sem foto. Sem despedida. Sem reunião final. Mas não saiu da política. Saiu com destino.

– Vou me dedicar à reeleição do Dimas – disse, à época.

Ali, já estava desenhado o que agora se materializa na mesa de jantar.

O que o jantar resolve — e o que sinaliza? A primeira leitura é simples: não houve racha. Ou, ao menos, não o suficiente para desmontar o projeto.

O encontro público entre Zaffa e Davi — o primeiro publicizado (Dimas postou a foto) após a exoneração — cumpre uma função política óbvia: estancar qualquer narrativa de ruptura.

E vai além. Mostra que a saída de Davi do governo não significou sua saída do grupo. Pelo contrário: pode ter sido um reposicionamento.

Se antes era o operador interno, agora atua como articulador externo. Algo como menos governo, mais campanha.

O jantar também consolida algo que já vinha sendo testado em atos, discursos e bastidores: a candidatura de Dimas Costa não é individual. É de grupo.

Zaffa já tinha dado sinais claros ao associar obras do governo ao mandato de Dimas, tratá-lo como ‘embaixador’ de Gravataí no governo Eduardo Leite e tratar a disputa também como um “nós contra eles” (leia-se: contra seu principal adversário, o ex-prefeito Marco Alba).

Agora, dá um passo além: coloca o grupo na mesma mesa — e na mesma foto. E foto, em política, não é registro. É construção.

O estilo Zaffa — com ajustes

Há, no entanto, uma nuance importante. Diferente de outros prefeitos da história recente da cidade, Luiz Zaffalon não parece disposto a forçar unanimidade.

Não há, até aqui, movimento de enquadrar toda a base. Não há imposição explícita. Mas há algo talvez mais eficiente: sinalização clara de preferência.

Na política real — aquela que se joga no silêncio dos corredores — isso costuma bastar.

Se há um fio condutor entre a saída de Davi e o jantar na casa de Dimas, ele é este: a política não parou. Ela se reorganizou. Davi, que ajudou a eleger Zaffa, agora ajuda a tentar reeleger Dimas.

Zaffa, que já teve um ‘Grande Eleitor’ (Marco Alba, em 2020), agora assume — ainda que à sua maneira — o papel de fiador político de Dimas.

O jantar não decide eleição. Mas organiza campo. Mostra quem está junto. E, principalmente, quem não está. Ou ainda não está.

Na política de Gravataí — historicamente marcada por guerras internas, rompimentos traumáticos e alianças improváveis —, a imagem de estabilidade talvez seja, hoje, o ativo mais valioso.

Ainda que construída à mesa. Ainda que sob o rótulo de “amigos”.

Para o leitor ter uma idéia de como fotos assim repercutem e representam um farol eleitoral, estão me perguntando quem era o fotógrafo.


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