RAFAEL MARTINELLI

No Impeachment 1.0, relator sobe o tom, defesa protesta e Cristian fala em legado — como quem já prevê a queda em Cachoeirinha

Prefeito Cristian prestou depoimento por videoconferência nesta terça

O depoimento do prefeito de Cachoeirinha, Cristian Wasem (MDB), no Impeachment 1.0, nesta terça-feira (23), deixou claro que o processo, embora juridicamente mais frágil do que o 2.0, entrou em um novo patamar político.

Desta vez, não foi o prefeito — que depôs por videoconferência — quem conduziu o confronto desde o início.

O relator da comissão, vereador Mano do Parque (PL), subiu o tom — de forma deliberada — ao trazer para dentro da oitiva declarações feitas por Cristian no depoimento do Impeachment 2.0, quando afirmou ter “fechado as portas da corrupção” em Cachoeirinha.

A pergunta veio direta — e com o troco embutido.

– No depoimento à outra comissão o senhor disse que fechou portas da corrupção. Eu não sei de Polícia Federal visitando casa de vereador. Por que a Polícia Federal foi na Prefeitura? Por que foi na sua casa? – questionou Mano.

A linha adotada pelo relator não passou despercebida.

A defesa, representada pela advogada Maritânia Lúcia Dallagnol, protestou de imediato, alegando que a comissão do Impeachment 1.0 estaria se “unindo” à do 2.0 para uma espécie de revanche política pelo discurso feito dias antes.

O protesto ficou registrado em ata.

Mano respondeu no mesmo tom.

Disse que não aceitaria mais “ataques contra a Câmara” e passou a instigar o prefeito com referências explícitas à atuação da Polícia Federal e do Gaeco — algo que até então não fazia parte do roteiro formal do Impeachment 1.0.

O presidente da Comissão Processante, Zeca Transportes (MDB), questionou diretamente Cristian sobre ter dito, no depoimento anterior, que ouviu de “articulador do impeachment” que deveria “dar um brinquedinho para cada um”.

– O que é o brinquedinho? – perguntou.

Cristian disse que não se referia a nenhum vereador.

– Falo no geral da política – explicou.

O prefeito confirmou que a PF esteve em sua casa e que entregou o celular com senha. Disse que foi investigado no caso das telas interativas, mas que há despachos do delegado o isentando de qualquer desvio, superfaturamento ou crime.

– Tenho despacho do delegado dizendo que não houve desvio de dinheiro público. Entreguei meu celular com senha. Duvido que algum político faça isso – disse.

Sobre o mérito da compra das telas, repetiu o argumento já conhecido: decisão tomada pela Secretaria de Educação, respaldada por pareceres da Procuradoria-Geral do Município e de escritório jurídico terceirizado, com julgamento semelhante do TCE em Gravataí afastando superfaturamento.

Mano insistiu.

Questionou por que o prefeito não seguiu parecer contrário da área de Compras, se sabia que só poderia aderir a 50% da ata e se houve estudo de mercado.

Cristian respondeu que soube das limitações depois, mas que não poderia “deixar salas sem equipamento” e que tudo está sendo respondido no Tribunal de Contas.

O embate deixou claro: o relator não queria apenas respostas técnicas — queria confrontar a narrativa política construída por Cristian no outro processo.

Quando questionado pela defesa se algum vereador, partido ou aliado da base havia apontado irregularidades durante a campanha, Cristian respondeu que não — e voltou ao argumento de que ouviu “muita bobagem” no ambiente político, mas que jamais cederia.


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“Não vou me vender”: o discurso que já soa como despedida

Se o relator subiu o tom, Cristian respondeu em outro registro: o da memória e do legado.

Em vários momentos do depoimento, o prefeito falou como quem antecipa um desfecho desfavorável.

Disse, mais de uma vez, que seu nome será lembrado pela “moralidade”, pelas obras, pelas escolas, unidades de saúde e pelo maior plano de pavimentação da história da cidade.

– Eu não vou me vender. Eu não vou compactuar com nada de errado. Eu não vou fazer parte de nenhuma negociata que estrague o meu nome, da minha família, da família Medeiros. Se esse julgamento for político, nós saímos pela política, não por crime algum – disse, fazendo referência ao sogro, o ex-prefeito Francisco Medeiros, já falecido.

– Meu nome será lembrado pelo legado de moralidade – insistiu.

Reputo não parece linguagem de quem projeta continuidade. Soa vocabulário de quem prepara a narrativa do depois.

O processo — e o que vem agora

O Impeachment 1.0 apura três eixos: a compra das telas interativas; o repasse de recursos durante as enchentes de 2024 e o uso de mídias institucionais.

O vice-prefeito Delegado João Paulo Martins (PP) já foi excluído deste processo, restando apenas o prefeito como denunciado.

Encerrado o depoimento, a Comissão Processante — presidida por Zeca Transportes (MDB), com Mano do Parque (PL) como relator e Gilson Stuart (Republicanos) como membro — deliberou pela abertura do prazo de cinco dias para apresentação das alegações finais da defesa, a contar desta quarta-feira (24).

Com isso, encerra-se a fase de instrução.

Na sequência, a comissão emitirá parecer pela procedência ou improcedência das acusações e encaminhará à presidência da Câmara, que marcará a sessão de julgamento.

Será ali que os 17 vereadores decidirão, voto a voto, se cassam ou não o mandato do prefeito — decisão que exige 12 votos e que, se confirmada, torna Cristian inelegível por oito anos.

A única certeza é que os julgamentos do 1.0 e do 2.0 encerram até 15 de janeiro. Os prazos, porém, permitem a possibilidade do ‘júri político’ acontecer ainda este ano, já que a Câmara comunicou aos funcionários que estará aberta nos dias 24, 26, 29 e 30.

Nos bastidores, permanece a leitura central: o Impeachment 1.0 é mais frágil e pode até perder objeto caso haja cassação no Impeachment 2.0, considerado o mais robusto e politicamente decisivo por processar também o vice

Mas o depoimento desta terça mostrou algo além da técnica.

Mostrou um prefeito que, diante do abismo, já fala como quem escreve as últimas linhas do próprio mandato.

E, como já escrevi antes: se escorregar, não parece que cairá em silêncio.


Assista abaixo ao depoimento na íntegra

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