RAFAEL MARTINELLI

O caso do suposto assessor fantasma de Canoas e a lição de De Gaulle que Airton Souza talvez precise aplicar

Existe uma frase atribuída ao general Charles de Gaulle que costuma causar desconforto quando aparece em debates políticos: “O primeiro dever do estadista é a traição”.

Não a traição no sentido vulgar da palavra. Por interesse. Conveniência. Mas a capacidade de romper com aliados, amigos e apoiadores quando a preservação do interesse público exige essa escolha.

Em resumo: o governante deve lealdade ao Estado antes de dever lealdade aos grupos que o ajudaram a chegar ao poder.

A frase cabe como no episódio revelado pela RBS TV e pelo jornalista investigativo Giovani Grizotti.

Porque o caso do suposto assessor fantasma da prefeitura de Canoas deixou de ser um problema individual no momento em que veio a público. Agora é um problema político. E, principalmente, um problema de governo.

Segundo a reportagem, Fábio Brasil ocupava cargo de assessor superior na prefeitura de Canoas, recebia salário de R$ 18 mil mensais e deveria cumprir jornada de 40 horas semanais. A investigação apontou que ele não compareceu à prefeitura durante o mês de fevereiro, embora todas as faltas tenham sido abonadas.

A equipe da RBS TV acompanhou sua rotina e encontrou o então assessor trabalhando na própria transportadora durante o horário em que deveria estar exercendo funções públicas.

Quando questionado, negou inicialmente a ausência. Depois, admitiu que sua relação com o governo estava vinculada ao trabalho político realizado durante a campanha eleitoral. Pouco depois, pediu exoneração.

É um daqueles casos que, se tentar explicar, piora. Não tente.

Não tente convencer o eleitor de que alguém pode ficar um mês sem aparecer no local de trabalho e ainda assim estar prestando um serviço indispensável à comunidade.

Não tente convencer o contribuinte de que R$ 18 mil mensais podem ser pagos sem que exista uma demonstração clara de entrega, produtividade e presença.

Não tente. A explicação costuma produzir mais desgaste do que o próprio fato.

A reação do prefeito em exercício, Abmael Almeida (PL), foi correta. Recebeu as informações, declarou espanto e determinou a abertura de sindicância. Era exatamente o que precisava ser feito.

Mais do que isso: se as irregularidades forem confirmadas, a investigação poderá apontar responsabilidades administrativas e eventualmente até resultar na devolução de recursos públicos.

Mas o desgaste político não recai sobre Abmael. Recai sobre o prefeito Airton Souza (PL). E isso acontece por uma razão simples. Governos também são julgados pelos atos dos seus auxiliares. Principalmente dos auxiliares que chegam ao poder por indicação política.

Airton construiu sua imagem pública em torno de uma rotina de trabalho intensa. Quem acompanha suas redes sociais vê vídeos chegando à prefeitura às sete da manhã, participando de agendas durante o dia e encerrando atividades tarde da noite. Sábados. Domingos. Feriados.

Pode-se concordar ou discordar de suas posições políticas. Mas dificilmente alguém dirá que sua imagem pública é a de um prefeito acomodado. Por isso o episódio se torna ainda mais contraditório.

Não existe lógica em um governo cuja principal liderança transmite uma mensagem de dedicação integral ao serviço público enquanto alguns ocupantes de cargos de confiança eventualmente se comportam como credores da eleição.

Como se a campanha eleitoral gerasse dividendos permanentes. Como se a vitória nas urnas produzisse uma espécie de crédito político resgatável em forma de cargo. Não produz. Pelo menos não deveria produzir.

Cargo comissionado não é prêmio. É responsabilidade. Aliás, responsabilidade ampliada. Porque o ocupante de um cargo de confiança não responde apenas por suas próprias ações. Ele afeta diretamente a credibilidade de quem o nomeou.

É justamente por isso que o caso pode representar uma oportunidade para Airton. Uma oportunidade de deixar uma mensagem clara dentro da própria administração. Se existe alguém que ainda não compreendeu que a campanha terminou e que o serviço público começou, talvez tenha chegado a hora de compreender.

Porque a sindicância não deveria servir apenas para apurar o comportamento de um ex-assessor. Ela deveria funcionar como alerta para todo o governo. Quem ocupa cargo público trabalha para a população. Não para partidos. Não para grupos políticos. Não para campanhas passadas. Não para interesses particulares.

Ao fim, talvez a frase de De Gaulle explique melhor a situação do que qualquer nota oficial. O compromisso de Airton Souza não é com quem ajudou a elegê-lo. É com Canoas. E, às vezes, até os amigos precisam entender isso.

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