A enchente deixou cicatrizes no Rio Grande do Sul. Mas deixou também algo talvez ainda mais perigoso: a tentação da solução mágica.
Depois da tragédia climática de 2024, uma parte do debate público gaúcho decidiu que dragar rios virou espécie de vacina universal contra enchentes. Basta cavar o fundo do Guaíba, retirar areia, aprofundar canais e pronto: a água obedeceria a vontade humana como quem desentope um ralo doméstico.
A política adora esse tipo de narrativa. Ela simplifica um problema complexo, produz vídeos bons para rede social e entrega a sensação emocional de ação imediata. O populismo da enchente funciona assim: oferece retroescavadeiras como se fossem milagres hidráulicos.
O problema é que rio não é cano. E hidrodinâmica não responde a slogans.
O governador Eduardo Leite percebeu o tamanho da armadilha ao publicar vídeo nos últimos dias tentando separar duas coisas que a política resolveu misturar deliberadamente: dragagem de manutenção para navegabilidade e desassoreamento como suposta solução para controle de cheias.
A distinção é necessária. O que o governo estadual regulamentou agora, por meio das portarias da Fundação Estadual de Proteção Ambiental, é um zoneamento ambiental e o aproveitamento econômico da areia retirada dos canais de navegação do sistema hidroviário gaúcho. Não uma autorização genérica para “dragar o Guaíba para acabar com enchente”.
Os próprios documentos técnicos apresentados pelo Estado insistem no caráter de manutenção hidroviária da dragagem. O material refere-se a canais artificiais de navegação, com calado operacional próximo de cinco metros, mantidos pela Portos RS para garantir segurança logística e navegabilidade.
É diferente do discurso pseudocientífico que tomou parte das redes sociais gaúchas. Ali, o Guaíba virou quase um “ralo entupido” na imaginação de políticos, influencers e paisanos que passaram a vender a ideia de que bancos de areia seriam responsáveis pelas enchentes de Porto Alegre e região. Não são.
Especialistas do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul já desmontaram publicamente a teoria. Ao Sul21, o professor Fernando Mainardi comparou o impacto dos bancos de areia no Guaíba sobre enchentes ao efeito de um carro parado num recuo sobre um congestionamento de rodovia: praticamente nenhum.
Também ao site, o secretário-executivo do Comitê Científico de Adaptação e Resiliência Climática do RS, Joel Goldenfum, explicou algo que deveria ser óbvio, mas aparentemente perdeu para os vídeos de Instagram: bancos de areia são formações naturais em ambientes lacustres como o Guaíba.
A ciência diz isso. A política prefere a retroescavadeira. E há um risco ainda maior quando o debate abandona completamente os critérios técnicos e entra no terreno do “desassorear tudo”.
A nota técnica do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS, publicada ainda em junho de 2024, faz um alerta que deveria estar pregado na parede de muitos gabinetes públicos: dragagem para controle de cheias não pode ser feita “com base em suposições e observações subjetivas”.
O documento exige justamente o que o populismo odeia: batimetria (ciência que mede a profundidade e mapeia o relevo do fundo de oceanos, mares, rios, lagos e reservatórios), modelagem hidrodinâmica, estudos ambientais, avaliação de custo-benefício e análise de longo prazo.
Porque água não desaparece. Ela apenas muda de lugar. E foi exatamente isso que tentei explicar meses atrás quando parte das redes sociais de Gravataí e Cachoeirinha começou a cobrar o desassoreamento do Rio Gravataí como solução milagrosa contra enchentes.
Seria um desastre. O Rio Gravataí não é um grande canal de escoamento verticalizado. É um sistema hidrológico extremamente sensível, de baixíssimo desnível topográfico. Entre Santo Antônio da Patrulha e Porto Alegre, o desnível é de apenas cerca de 10 metros.
Acelerar artificialmente o fluxo da água significaria empurrar mais rapidamente as cheias para jusante — exatamente para regiões que já sofrem remanso quando o Guaíba sobe.
Em português claro: a enchente chegaria mais rápido e poderia ficar ainda pior. No verão, o efeito pode ser inverso: menos retenção hídrica e agravamento da crise de abastecimento.
Não por acaso, o Comitê da Bacia do Rio Gravataí e especialistas defendem outra lógica: microbarragens, ampliação de banhados, contenção e desaceleração da água. O contrário da obsessão simplista por “fazer a água correr embora”.
A tragédia climática produziu também uma tragédia epistemológica: muita gente passou a acreditar que qualquer crítica técnica à dragagem é “ambientalismo radical”. Como se física, geologia e hidrologia fossem opiniões ideológicas.
O biólogo Rafael Altenhofen, também ao Sul21, talvez tenha produzido a frase mais dura desse debate ao definir o programa Desassorear RS como “o maior fator de degradação ambiental no Rio Grande do Sul no último meio século”.
Pode haver exagero retórico? Talvez. Mas o alerta técnico é real: intervenções sem estudos hidrodinâmicos e ambientais adequados podem aumentar erosão, destruir APPs, acelerar novos assoreamentos e até intensificar eventos extremos futuros.
O próprio governo estadual parece ter entendido parcialmente isso ao insistir agora na ideia de que o zoneamento do Guaíba foi resultado de estudos iniciados ainda em 2021, envolvendo dinâmica hídrica, toxicidade, biologia e geofísica.
E aqui aparece um personagem que precisará observar esse debate com extremo cuidado: Davi Severgnini. Ex-secretário da Fazenda de Gravataí, agora ocupa justamente a secretaria responsável por um dos temas mais sensíveis do pós-enchente gaúcho.
Ainda não há qualquer plano concreto de dragagem do Rio Gravataí. E que siga assim enquanto não existirem estudos robustos, públicos, transparentes e cientificamente sustentáveis. Porque a tentação política do pós-tragédia é sempre produzir obras visualmente impactantes, ainda que hidrologicamente equivocadas.
Retroescavadeira rende vídeo. Batimetria não.
Ao fim, talvez o maior risco do debate sobre desassoreamento seja exatamente este: transformar medo coletivo legítimo em oportunidade para soluções simplistas, caras e potencialmente destrutivas.
Mencken dizia que, para todo problema complexo, existe sempre uma solução simples, elegante e errada. O populismo da enchente parece determinado a provar isso mais uma vez.






