RAFAEL MARTINELLI

O povo lá: Jussara Caçapava assume — e o desafio é fazer Cachoeirinha voltar a acreditar; assista como foi a posse

Mano abraça Jussara após a leitura do termo de posse, na Câmara

A posse da prefeita Jussara Caçapava (Avante) e do vice-prefeito Mano do Parque (PL), nesta terça-feira, na Câmara de Vereadores, é, formalmente, o início de um governo até 2028. Na metafísica, após dois mandatos interrompidos, é uma esperança desconfiada de fim de um ‘Dia da Marmota’ que, há pelo menos uma década, mistura os noticiários político e policial em Cachoeirinha.

Um ciclo que já teve cassação, impeachment, eleição suplementar, disputa voto a voto — e, talvez mais relevante que tudo isso, um silêncio de quase metade da cidade que decidiu não votar.

É sobre esse silêncio que o novo governo começa.

Jussara governa a partir de uma ideia-força: quer ser “mãe” de Cachoeirinha. Disse isso na campanha. Repetiu na posse. Chorou ao falar dos seis filhos e do falecido marido. Ampliou o conceito para a cidade inteira.

Funciona como narrativa. Aproxima. Humaniza. Conecta. Mas a política — especialmente a política municipal — cobra outra coisa: decisão.

A analogia da mãe é útil até certo ponto. Porque governar não é administrar afeto. É administrar conflito. E uma cidade de mais de 140 mil habitantes não é uma família. É um sistema de interesses.

Se levar a metáfora até o fim, o desafio aparece com nitidez. Explico.

Mãe acolhe — mas também frustra; mãe protege — mas também impõe limites; mãe explica — e, na política, isso se chama transparência; mãe organiza a casa — e aqui estamos falando de orçamento público, não de rotina doméstica.

A pergunta que fica não é se a metáfora é bonita. É se ela é suficiente.

A eleição deu a Jussara Caçapava o que a democracia exige: vitória. Mas entregou, junto, um problema que a política nem sempre sabe resolver: legitimidade social. Foram 530 votos de diferença. E 42 mil eleitores que não apareceram.

Isso cria uma equação incômoda: a prefeita governa com força institucional — maioria na Câmara, coligação ampla —, mas com um vínculo ainda frágil com parte da sociedade.

Não é só um detalhe no jogo. Porque estrutura ganha eleição. Mas não garante confiança. E Cachoeirinha, hoje, é uma cidade que não confia.

Mano do Parque representa outra transição relevante.

Construiu sua imagem como “Fiscal do Povo”. Chega ao Executivo prometendo devolver confiança. Citou a Bíblia. Falou em responsabilidade.

É um movimento clássico da política: quem fiscaliza passa a ser fiscalizado. A régua que Mano usava agora será usada contra ele.

A posse também reorganizou o legislativo.

Com a chegada da vereadora Claudia Frutuoso (PL) no lugar de Mano, o governo mantém musculatura — mas revela sua diversidade interna.

Claudia já sinalizou posição ideológica clara, com defesa de escolas cívico-militares. Não é um detalhe menor em uma base que reúne visões distintas.

A coalizão que elegeu Jussara é ampla porque foi pragmática. Mas coalizões assim funcionam melhor na eleição do que no governo. No governo, começam as escolhas. E escolha, em política, sempre desagrada alguém.

Na posse, Jussara falou em saúde como prioridade, contratação de médicos e obras contra enchentes — criticando que, em dois anos, não havia projetos prontos.

É um alerta importante. Mas traz um risco conhecido: o da narrativa de “terra arrasada”. Ela pode funcionar no início. Explica dificuldades. Organiza discurso. Mas tem limite.

Porque a eleição mostrou que quase metade da cidade não comprou integralmente essa versão — ou, ao menos, não se mobilizou para validá-la. E há um dado político relevante: a candidata ligada ao governo cassado perdeu por apenas 530 votos.

Ou seja: há memória positiva do governo anterior. E ela é eleitoralmente relevante. Há oposição.

Jussara Caçapava e Mano do Parque após a diplomação pela Justiça Eleitoral

O fim do ‘Dia da Marmota’

Cachoeirinha não começa do zero. Começa com problemas concretos: um sistema de saúde pressionado; escolas com estrutura defasada; servidores com perdas acumuladas; orçamento comprimido; e um trauma recente — a enchente de 2024 — que volta a cada previsão de chuva.

Esse último ponto talvez seja o mais simbólico. Porque ali não há ideologia. Há água. E, em política, poucas coisas são mais objetivas do que uma casa alagada.

Jussara, porém, chega com uma vantagem que poucos prefeitos têm: trânsito político amplo. Não calça ferradura ideológica.

Tem pontes com diferentes campos ideológicos, com o governo estadual e com Brasília. Isso é ativo. Mas exige método. Porque o risco é conhecido: governar pensando na próxima eleição. E, em uma cidade que já vive um ‘Dia da Marmota’ político, repetir o ciclo pode ser fatal.

O presidente do legislativo, Gilson Stuart (Republicanos) resumiu, no encerramento da cerimônia, o que se espera: equilíbrio, gestão e pulso firme. Três palavras que traduzem o que a metáfora da mãe não resolve sozinha.

Jussara representa um símbolo potente: mulher, primeira prefeita eleita, origem popular, trajetória construída na base. Mas símbolo ganha eleição. Entrega sustenta governo. É bom governo que reelege.

Ao fim, também torcendo pelo fim do ‘Dia da Marmota’, comungo com uma observação genuína que me foi feita pelo amigo e assessor especial da prefeita, Cláudio Ávila, no dia da vitória, em 12 de abril: “Rafa, é bom ver alguém do povo chegar lá, né?”. É. E acrescento: o desafio é proporcional ao preconceito.


Assista ao vídeo produzido pela SEGUINTE TV na posse de hoje e, no vídeo seguinte, a cerimônia completa

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