Evangélico e conservador, o vereador Roger Corrêa (PP) fez uma das manifestações mais honestas que testemunhei nos últimos anos de cobertura da Câmara de Gravataí. Na tribuna, contou que um sobrinho apresentou o namorado em casa — uma realidade inédita para sua família. Consciente de suas limitações, em vez de se entrincheirar no preconceito, ele procurou Liniker Fraga, assessor de políticas públicas LGBTQIA+, para entender como “ser um tio melhor” e acolher o familiar “a partir do próprio lar”.
Foi durante votação na sessão da quinta-feira (9), quando Gravataí tornou-se pioneira no Rio Grande do Sul ao institucionalizar, por lei, o Conselho e o Fundo Municipal dos Direitos da População LGBTQIAPN+.
Uma manifestação de quanto o ‘espírito do tempo’ pode ser santo em compaixão.
O projeto, enviado pelo prefeito Luiz Zaffalon (PSD), não cria privilégios, não tem nada de ‘woke’; ele fortalece políticas públicas, abre portas para a captação de recursos municipais, estaduais e federais e amplia a participação social. Trata-se de um avanço civilizatório indiscutível.
Reputo não há vergonha alguma em reconhecer a dificuldade de acompanhar as rápidas mudanças sociais. O mundo muda, e nos arrasta com ele. Vergonhoso é transformar o desconforto em discriminação, ou usar a porta doas fundos para não encarar o dever público.
Como o próprio Roger resumiu: se o parlamentar não compreende que está ali para defender o conjunto da sociedade, talvez seja melhor levantar da cadeira e ir embora de vez. Dos Grandes Lances dos Piores Momentos, alguns políticos levaram parte do comando ao pé da letra.
Os vereadores Bombeiro Batista (Republicanos), Carlos Fonseca (Podemos), Fábio Ávila (Republicanos), Hiago Pacheco (PP) e Claudecir Lemes (MDB) deixaram o plenário antes da votação. Evandro Coruja (PL), o ‘bolsonarista-raiz’, de atestado médico, não participou da sessão.
Não votaram contra, nem a favor. Escolheram a invisibilidade. No entanto, na política, a ausência também comunica — e, às vezes, de forma devastadora. Ao abandonarem o trabalho para não votar a criação do conselho e do fundo, ao menos permitem a interpretação de que, para eles, essa comunidade simplesmente não deveria existir.
É um comportamento que já virou rotina em Gravataí quando o tema é a diversidade. Recordo-me de 2017 e 2019, quando às vésperas da votações de projetos para criação do Dia do Orgulho Gay, antecipei que o ‘Stonewall da Câmara’ não seria feito de discursos inflamados, mas de cadeiras vazias. A profecia sempre retorna como um potencial cálculo eleitoral.
A justificativa para a debandada, quase sempre implícita, repousa no espantalho das crenças religiosas — ou, sendo mais exato, na forma como alguns transformam e faturam essas crenças como ativo político. Agem como despachantes de seus dogmas particulares, calçados em ferraduras ideológicas. Esquecem-se, porém, de um princípio básico da República: o respeito à proporcionalidade das urnas. Os 21 eleitos em Gravataí representam 100% da população, e não apenas as fatias que rezam pelo mesmo livro.
Conforme dados do IBGE e pesquisas acadêmicas, até 12% da população adulta se identifica como parte da comunidade LGBTQIA+. Em Gravataí, cruzando as estimativas, estamos falando de cerca de 30 mil pessoas. São vizinhos, pagadores de impostos, professores, comerciantes, filhos e irmãos. Ao fugirem do plenário, os parlamentares colaboram para decretar a morte institucional dessa representação.
Mas para onde eles correm se essas pessoas estão em suas próprias redes, círculos profissionais e, inevitavelmente, em suas famílias?
A sessão ainda teve momentos de lucidez de nomes como Paulinho da Farmácia (Podemos), Cláudio Ávila (Avante), Airton Leal (MDB), Alex Peixe (PSDB), Anna Beatriz (PSD) e Vitalina Gonçalves (PT), além do presidente da Câmara, Dilamar Soares, o Dila (Podemos), que lembrou que um plenário lotado por pastores motivou a reprovação, em 2015, de projeto seu que permitia alteração de nome e gênero no assento de registro civil; identidade social depois reconhecida pelo STF, em 2018.
Assista as manifestações a partir de 1h no vídeo. Abaixo, sigo.
Está no Livro
Em entrevista ao Seguinte:, o prefeito Zaffa agradeceu aos vereadores que “sabiamente” aprovaram o projeto na quinta-feira.
– É um público discriminado, que ainda sofre preconceitos inaceitáveis, que precisa de políticas públicas para trabalho, saúde e afirmação social, e conquista uma ferramenta institucional para receber recursos municipais, federais e estaduais. Agradeço aos vereadores que sabiamente dotaram nosso município deste fundo, e em especial a secretária Thaís Marcelino, da Mulher e Direitos Humanos, pelo envolvimento neste delicado tema – disse.
É um ótimo exercício semântico fixar-se no adjetivo. Sábio é quem equilibra conhecimento, sensatez e compaixão. O antônimo de sábio, por sua vez, desenha perfis.
Ao fim, a pergunta que resta gravada na ata moral daquela noite é menos sobre quem disse “sim”. É mais sobre quem covardemente preferiu sumir quando a cidade decidiu que 30 mil da sua comunidade tinham o direito de existir aos olhos do poder público.
Curiosamente, o vereador-pastor Fábio Ávila, na leitura do trecho bíblico que abre as sessões, citou versículo de Provérbios 15:33: “O temor do Senhor é a instrução da sabedoria, e a humildade precede a honra”.
Na Bíblia, “temor do Senhor” não significa medo de Deus. Significa reconhecimento de que existe uma autoridade moral acima de nós. Em Provérbios, essa sabedoria não é apenas conhecimento intelectual; é fazer boas escolhas e agir com justiça. E a humildade não representa submissão; significa não agir com arrogância, reconhecer que não se sabe tudo, estar disposto a aprender, admitir erros, tratar os outros com respeito.
Enfim, o óbvio até no livro está.
LEIA TAMBÉM
Gravataí cria Conselho e Fundo LGBTQIAPN+ e se torna pioneira no Rio Grande do Sul






