RAFAEL MARTINELLI

Quando a ciclovia vira o maior debate eleitoral de Cachoeirinha, “criemos pânico”

“O prefeito está andando tipo Chaves?”

A pergunta chegou pelo celular, enviada por um colega junto de um vídeo gravado na já célebre ciclovia de Cachoeirinha. No registro, o prefeito cassado Cristian Wasem caminha saltitante pela via, dançando ao som de La Isla Bonita, de Madonna, embarcando em mais uma tendência de rede social — a do “será?”.

“Estamos aqui em Cachoeirinha, na ciclovia mais famosa do Estado, será?”, diz ele. “Rola nas redes que foram gastos R$ 14 milhões, será?” “Os golpistas acharam mais uma forma de fazer ciclovia, será?”

A política municipal virou trend.

A resposta não demorou.

Do outro lado da trincheira digital, o secretário municipal Daniel Cavalheiro apareceu em vídeo publicado em rede social encenando uma esquete com o comunicador conhecido como Pensador. Na cena, o personagem simula cair de bicicleta na ciclovia.

“Só pode ser coisa dessa prefeita. Vi vídeo do prefeito cassado”, diz o comunicador.

“Não é dessa gestão. Não contratamos, não pagamos um real. Vamos consertar”, responde o secretário, exibindo documento em que Cristian aparece como “contratante”.

O roteiro seguiu.

Em novo vídeo, Cristian voltou à carga.

“Que papelão. Desorganização dessa Prefeitura interina que assumiu através de um golpe”, disse ao comentar reportagem da RBS sobre o caso.

O ex-prefeito também atacou o assessor especial da prefeita interina Jussara Caçapava, Cláudio Ávila, que havia afirmado que a empresa responsável pela obra deveria ter notificado o município antes de executar o trecho mais polêmico — uma “anomalia mundial”, conforme Ávila.

“Não é cara de pau desse assessor da prefeita. É cara de bloco de concreto redondo de fazer calçada. Não mente, cara”, disse.

Ávila respondeu diretamente nas redes do ex-prefeito.

“Ex-prefeito, ao meu ver, o senhor está se expondo ao ridículo. Os vídeos parecem uma comédia de péssimo gosto e não condizem com a postura que se espera de quem já ocupou o cargo máximo do Executivo municipal”, escreveu.

E foi além.

Cobrou explicações sobre contratos da empresa responsável pela ciclovia durante a gestão Cristian e mencionou apontamentos envolvendo recursos do Fundeb e serviços que, segundo ele, não teriam sido devidamente executados na área de mobilidade.

“Enquanto isso, o senhor prefere gravar vídeos caricatos e tentar desviar a atenção daquilo que realmente importa”, completou.

A política local, assim, ganhou contornos de roteiro de internet.

Mas o episódio tem origem concreta.

A polêmica começou após a divulgação de imagens da ciclofaixa pintada sobre o piso tátil destinado a pessoas com deficiência visual. O vídeo, publicado pelo vereador Léo da Costa (PT), rapidamente ganhou repercussão nas redes e chegou à imprensa estadual.

A prefeitura abriu expediente administrativo e deu prazo de 48 horas para avaliação técnica do caso.

Dois dias depois, publicou o Decreto nº 8.732 determinando a remoção de trechos da ciclofaixa implantados sobre calçadas e a abertura de investigação para apurar responsabilidades administrativas, técnicas e contratuais na execução da obra.

O projeto faz parte do programa federal Pró-Transporte e começou em 2019, ainda na gestão do ex-prefeito Miki Breier. A obra atravessou o governo Cristian e chegou, agora, ao governo interino de Jussara Caçapava.

A administração municipal reconheceu que parte da intervenção não observou critérios adequados de segurança e acessibilidade e determinou revisão técnica completa do traçado.

Até aqui, tudo dentro do roteiro esperado de um erro de obra pública que precisa ser corrigido e investigado.

O que chama atenção é outra coisa.

O fato de que a ciclovia — com sua tinta sobre piso tátil e seus 4,5 quilômetros de constrangimento urbano — tenha se tornado, até agora, o principal debate político de uma cidade que caminha para uma eleição suplementar.

Claro que o caso importa.

Importa investigar, corrigir, responsabilizar.

Mas uma semana inteira de debate público sobre o tema não desvia a atenção de problemas mais estruturais da cidade?

“Será?”, para usar a brincadeira de Cristian.

É o espírito do tempo — o Zeitgeist.

Há uma corrida permanente por engajamento. A política local, como a nacional, também se tornou refém da lógica das redes: vídeo curto, ironia rápida, polêmica fácil.

Preservar biografia virou detalhe.

Vale para políticos. Vale também para muitos cidadãos.

Talvez por isso a ciclovia tenha virado espetáculo.

Ela oferece tudo o que o algoritmo gosta: erro visível, indignação instantânea, meme fácil.

Mas cidades não se governam por algoritmo.

Cachoeirinha tem desafios muito maiores do que a tinta mal aplicada em uma ciclofaixa.

E talvez fosse saudável que começássemos a debatê-los com a mesma energia que hoje dedicamos a vídeos de rede social.

Se o ex-prefeito realmente “andou como Chaves”, como perguntou o colega que me enviou o vídeo, confesso que não sei.

Mas se o debate público da cidade continuar nesse tom de trend digital, talvez seja o caso de recorrer — às avessas — ao bordão do personagem: “criemos pânico”.

Não por causa da ciclovia. Mas pelo nível da conversa pública que ela acabou revelando.

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