RAFAEL MARTINELLI

Sem ferradura ideológica: Como a ‘obra invisível’ de Airton trouxe Lula, Leite e R$ 75 milhões para Canoas

Repasse foi oficializado durante encontro na Base Aérea / Foto: Bruno Ourique

É como escrevo desde janeiro, em A grande obra de Airton é invisível — e decisiva para Canoas e Tbt com Flávio Bolsonaro, timing e poder: Airton mostra lado sem romper pontes em Canoas. Algo em extinção, como vagalume. Aquilo que deveria ser o óbvio, mas resta notícia em tempos de ‘polarização’ (capenga, de um só extremo, ferradura ideológica de uma bota só): há obras que se medem em metros cúbicos de concreto ou pela altura da terra batida nos diques. Outras, no entanto, são erguidas longe dos canteiros, na frieza do cálculo político e institucional. Em Canoas, a mais recente dessas estruturas invisíveis — porém decisivas para a sobrevivência da cidade — ganhou contornos oficiais na Base Aérea local.

Com a assinatura do repasse de R$ 75 milhões pelo Governo Federal, provenientes do Fundo de Apoio à Infraestrutura para Recuperação e Adaptação a Eventos Climáticos Extremos (FIRECE), o município garante a construção das Casas de Bombas 9 e 10, no bairro Mato Grande. As novas estruturas atuarão no escoamento das águas do Pôlder Mato Grande, integrando-se ao Dique Araçá e ao restante do sistema contra cheias.

O evento reuniu na mesma mesa o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o governador Eduardo Leite (PSD) e o prefeito Airton Souza (PL). A foto registra algo raro no Brasil de 2026: um prefeito eleito sob a bandeira do bolsonarismo — que publica registros com Flávio Bolsonaro e mantém base fiel — dialogando sem constrangimentos com o governador, adversário estadual, e o presidente, adversário nacional, nas eleições de 2026.

Essa postura não reflete conversão ideológica, mas realismo fiscal. Como tenho insistido, a física e o orçamento municipal não perguntam em quem o cidadão votou.

Com 47% da receita municipal comprometida com o funcionalismo, 25% com a educação e 22% com a saúde, restam escassos 6% para investimentos livres. Sem Brasília e sem o Palácio Piratini, Canoas simplesmente não reconstrói seus diques, não reabre hospitais e não moderniza sua proteção.

“A enchente de 2024 atingiu 60% de Canoas e afetou 180 mil pessoas. Graças ao esforço conjunto da Prefeitura, do Governo Federal e do Governo do Estado, a maioria das obras de reconstrução está em andamento. A oficialização deste repasse representa um avanço decisivo para o sistema contra cheias do Mato Grande”, declarou o prefeito Airton Souza.

A postura pragmática de manter pontes políticas intactas — inclusive citando o deputado federal e ex-ministro Paulo Pimenta (PT) como um “baita parceiro de Canoas” — tem se revertido em aportes concretos.

A agenda na Base Aérea não se restringiu à celebração das Casas de Bombas 9 e 10. Aproveitando o encontro direto com o presidente Lula, Airton Souza entregou um ofício pedindo apoio para obras de proteção contra cheias no bairro São Luís e cobrou celeridade na liberação de verbas da Caixa Econômica Federal destinadas ao Hospital de Pronto Socorro de Canoas (HPS).

A cobrança sobre o HPS ocorre em um momento crítico de judicialização da saúde local, como o Seguinte: noticiou em HPS de Canoas deverá ter obras concluídas até setembro de 2027, prevê plano judicial pós-enchente.

A 3ª Vara Cível de Canoas homologou recentemente um plano de ação formulado pelo Ministério Público para a recuperação da unidade, fechada desde a tragédia de maio de 2024.

Apesar do teto fixado para o fim das obras no segundo semestre de 2027, o acordo não crava uma data oficial para a reabertura dos atendimentos, pois a operação dependerá da compra e instalação de equipamentos.

O impacto do fechamento do HPS transborda os limites municipais, uma vez que a unidade é referência para mais de 150 municípios gaúchos.

Para conter o descompasso na rede enquanto o HPS não abre as portas, o plano judicial determinou a expansão da capacidade do Hospital Universitário (HU) de Canoas. A Prefeitura deve disponibilizar 100 novos leitos nas áreas de traumatologia, cardiologia, pediatria e cirurgia geral.

A ampliação do HU conta com um aporte federal de R$ 58 milhões anuais, somando-se a articulações anteriores que projetaram investimentos permanentes da União na ordem de R$ 150 milhões anuais para expandir a capacidade da instituição até 600 leitos.

O acordo homologado pela Justiça também determinou prazo de 90 dias para que o Estado do RS e a Prefeitura de Canoas apresentem uma solução técnica para os atendimentos de urgência no Hospital Nossa Senhora das Graças.

Entre a urgência e o tempo das águas

A entrega de recursos federais e a pactuação de prazos judiciais expõem a urgência de uma cidade que tenta reconstruir sua infraestrutura física e psicológica.

Em iniciativa recente, a administração municipal passou a promover visitas guiadas mensais para moradores acompanharem de perto a evolução das obras no Dique do Mathias Velho, no Muro da Cassol e nas Casas de Bombas. O objetivo é combater a desinformação e aplacar o estresse pós-traumático de quem ainda monitora o nível das chuvas com receio.

Enquanto projetos na Bacia do Gravataí enfrentam prazos burocráticos licitatórios cujas obras definitivas são projetadas para o final da década, Canoas tenta acelerar canteiros de obras. E o caminho encontrado pelo Executivo local para garantir que os tratores não parem passa, inevitavelmente, pela manutenção desse canal direto com o Palácio do Planalto e com o Piratini.

Como destacado pelo próprio presidente Lula durante o ato na Base Aérea: “O Governo Federal tem uma grande preocupação com os municípios atingidos pela enchente e com as famílias que ainda aguardam a conclusão da reconstrução. Estamos garantindo os recursos para que essas obras avancem e para que as cidades estejam mais preparadas diante de novos eventos climáticos extremos”.

Ao fim, o que se viu na Base Aérea de Canoas não foi apenas a assinatura de um cheque de R$ 75 milhões para erguer turbinas contra a próxima tempestade. Foi a materialização de algo cada vez mais raro no Brasil de 2026 — uma cena quase em extinção, como vagalume na escuridão do debate público: a política funcionando onde a física não aceita desculpas.

Airton Souza não deixou de ser bolsonarista. Segue postando com Flávio Bolsonaro, mantendo a base fiel e reafirmando que tem lado. A diferença é que, ao contrário de quem prefere calçar a ferradura ideológica de uma bota só para marchar rumo ao aplauso fácil das redes, o prefeito de Canoas entendeu que 6% de margem orçamentária não dão direito a bravatas.

As Casas de Bombas 9 e 10 no Mato Grande, os leitos adicionais no HU, os prazos contados no relógio da Justiça para o HPS e as bombas que ainda precisam ser liberadas pela Caixa não pertencem a Lulas, Leites ou Bolsonaros. Pertencem às 180 mil pessoas que acordam em dias de tempestade consultando a cota dos rios com o pavor de quem espera o resultado de uma biópsia.

Em um cenário onde a polarização ruidosa costuma servir de pretexto para o atraso e para a inação, Canoas escolheu a subversão do pragmatismo: estar com a oposição na foto de domingo e no telefone de Paulo Pimenta na segunda-feira pela manhã. Porque, quando a água sobe, ela não consulta a filiação partidária, não lê o Diário Oficial e não pergunta em quem você votou. Ela simplesmente avança.

Entre a guerra cultural de gabinete e a terra batida dos diques, Canoas escolheu construir pontes. E, na métrica da reconstrução, é essa capacidade de conversar sem rancor que continua sendo a obra mais invisível — e mais decisiva — de todas.


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