RAFAEL MARTINELLI

A métrica do medo: Enquanto Canoas leva o povo para ver diques de perto, a Bacia do Gravataí resta na fila para 2030

Insisto, como em O mapa rasgado pela enchente: RS licita atualização do estudo do Gravataí para destravar R$ 2,9 bi do PAC e A biópsia da tempestade: a ansiedade que corrói o RS enquanto a água reencontra ‘os pobres de sempre’: em algum momento das noites de tempestade que continuam a fustigar o Rio Grande do Sul, a previsão do tempo deixou de ser um assunto banal. Deixamos de querer saber se vai chover para tentar adivinhar se a cidade ainda existirá inteira no dia seguinte.

O leitor de Canoas, Gravataí e Cachoeirinha sabe exatamente do que estou falando. É a dor visceral trazida por aquela tirinha do Rodrigo Geraldi que citei recentemente: a apreensão de quem acorda consultando a cota dos rios com o pavor de quem aguarda o resultado de uma biópsia. Há algo de profundamente errado na engrenagem social quando olhar a régua do rio antes de escovar os dentes passa a ser um método de sobrevivência.

Entretanto, dentro deste mesmo mapa metropolitano rasgado pela tragédia de maio de 2024, a gestão da ansiedade coletiva e o ritmo das respostas concretas começam a desenhar dois polos dramaticamente opostos.

De um lado, Canoas, prioridade dos governo estadual e federal no socorro após a enchente, decidiu colocar o pé na lama e levar a comunidade para conhecer as estruturas que foram a última fronteira de pavor em 2024. Do outro, Gravataí e Cachoeirinha continuam presas à incerteza da burocracia estatal, assistindo ao trâmite lento de editais e esperando por obras de proteção definitiva que, no papel, só verão a luz do sol na virada da década.

Na tarde deste sábado, enquanto a incerteza do clima voltava a pairar sobre a Região Metropolitana, a Prefeitura de Canoas promoveu uma experiência pedagógica e política: uma visita guiada presencial às obras e estruturas do seu sistema de proteção contra cheias.

Dois ônibus partiram da sede do Executivo municipal carregando 110 moradores previamente inscritos. Não se tratava de uma comitiva formal de gabinete ou de um passeio contemplativo para autoridades, mas de um itinerário técnico e humano pela linha de frente do combate às águas.

O roteiro passou pelo emblemático Dique do bairro Mathias Velho — epicentro da dor na enchente de 2024 — e pela Casa de Bombas 7, além de percorrer as contenções do Mato Grande e do Rio Branco, o Muro da Cassol e a sede da Defesa Civil. Em cada parada, engenheiros e técnicos apresentaram os números, explicaram a vazão dos equipamentos, os detalhes das intervenções em andamento e a lógica de monitoramento do município.

A comitiva contou com a presença do prefeito Airton Souza, do vice-prefeito Rodrigo Busato, do secretário de Obras e Reconstrução, Rudinei Mendes, e do secretário de Defesa Civil e Resiliência Climática, Vanderlei Marcos.

A iniciativa de Canoas ataca diretamente a engrenagem do trauma. Para o prefeito Airton Souza, abrir os canteiros de obras para o olhar atento da população é a única forma de garantir transparência e devolver um mínimo de previsibilidade às famílias que ainda vivem sob estresse pós-traumático. Tanto que anunciou que a agenda passará a ser mensal.

“Nossa intenção é mostrar, de forma presencial e transparente, como estão sendo executadas as obras de reconstrução e de proteção da nossa cidade. Sabemos que muitas famílias ainda carregam o trauma da enchente de 2024 e que a informação é fundamental para recuperar a confiança e trazer mais tranquilidade. Hoje é um dia muito especial porque estamos mostrando, de perto, o que está sendo feito, como as obras estão avançando e quais são as medidas que estamos adotando para tornar Canoas mais segura. Nossa intenção é que essa visita aconteça uma vez por mês, para que cada vez mais pessoas possam conhecer e acompanhar esse trabalho”, destacou o prefeito Airton Souza.

O vice-prefeito Rodrigo Busato reforçou que a iniciativa funciona como um antídoto contra o pânico generalizado e as correntes de desinformação que prosperam em períodos de crise climática.

“Esta é uma agenda muito importante porque estamos falando de estruturas e obras que despertam muitas dúvidas justamente por serem novas e por terem um papel fundamental na proteção da cidade. O primeiro passo para que as pessoas se sintam seguras é ter acesso à informação. Aqui, elas podem ver as estruturas com os próprios olhos, conversar diretamente com as pessoas envolvidas com as obras, fazer perguntas e entender como tudo funciona. É um exercício de transparência que ajuda a combater a desinformação e permite que esse conhecimento também chegue a outras pessoas da comunidade”, afirmou.

Nas vozes de quem esteve a bordo dos ônibus, a dimensão humana da iniciativa fica ainda mais evidente. Maria Aparecida Mendes, de 54 anos, moradora do bairro Niterói e presidente da Associação das Senhoras da Campanha dos Bebês, participou do roteiro com uma missão comunitária nas mãos: traduzir a engenharia em alívio para mães e crianças desoladas.

“As crianças e as mães ficam desesperadas a cada chuva. Essa preocupação deixou marcas muito profundas depois da enchente. Por isso, considero este momentoso muito importante. A comunidade tem a oportunidade de estar junto do poder público, acompanhar o trabalho que está sendo realizado por profissionais capacitados e conhecer onde e como os recursos estão sendo investidos. Acredito que muitos dos que estão aqui hoje estão buscando justamente essa paz de espírito, que ficou tão difícil de encontrar depois da enchente”, comentou a líder comunitária.

A mesma busca por respostas diretas levou o morador do Mathias Velho, Gilson Janir de Oliveira Azevedo, de 50 anos, a trocar o disse me disse das redes sociais pela observação direta no terreno.

“Eu queria ouvir diretamente do prefeito e dos secretários o que está sendo feito, porque nas redes sociais circulam muitas informações diferentes, que às vezes acabam deixando a população ainda mais apreensiva. Achei uma ideia incrível poder vir aqui, conhecer as estruturas de perto, ouvir os responsáveis pelas obras e tirar as dúvidas. Ver tudo pessoalmente traz uma tranquilidade muito maior”, avaliou Gilson.

Ao abrir as portas das obras e permitir que o morador meça com os próprios olhos a altura e a solidez da terra batida nos diques, Canoas compreendeu que a reconstrução não se faz apenas com concreto e retroescavadeiras, mas também com a recomposição do tecido psicológico da sua gente.

A maratona burocrática de Gravataí e Cachoeirinha

Infelizmente, a poucos quilômetros dali, a realidade que se impõe para os moradores das margens do Rio Gravataí é de outra natureza. Enquanto Canoas já mostra o maquinário operando em seus diques e casas de bombas, Gravataí e Cachoeirinha ainda amargam o fim de uma longa e exaustiva fila burocrática.

É sob uma atmosfera de permanente ansiedade coletiva que o governo do Estado lançou, no Diário Oficial, o edital de uma concorrência decisiva. No dia 5 de outubro de 2026, será aberta a licitação para contratar a empresa que atualizará os anteprojetos de engenharia e estudos ambientais para o sistema de proteção contra cheias e minimização de estiagens na Bacia Hidrográfica do Rio Gravataí.

O valor da licitação, definida pelo critério de técnica e preço, é de R$ 5,7 milhões. O objetivo direto é recalcular a chamada “mancha de inundação”. O objetivo de fundo? Tentar salvar vidas e destravar uma bolada histórica.

A matemática financeira, nesta equação, é tão brutal quanto a hidrologia. A atualização é a precondição exigida para que o Palácio Piratini possa utilizar os R$ 2,9 bilhões destinados à Bacia do Gravataí no Novo PAC, dentro do pacote de socorro do governo federal após a catástrofe de maio de 2024. Estamos falando do Fundo de Apoio à Infraestrutura para Recuperação e Adaptação a Eventos Climáticos Extremos, gerido pela Caixa Econômica Federal — um dinheiro blindado que, nas palavras da Casa Civil da União, não poderá ser contingenciado.

O problema é a velocidade do mundo real diante da lentidão do tempo burocrático. O projeto executivo desse robusto cinturão de diques — que prevê barreiras no Parque da Matriz, Vale Ville, Vila Rica, Caça e Pesca e Sarandi — só estará finalizado em 2028. Ou seja: as obras no terreno só devem começar no final daquele ano. A conclusão? 2030, talvez.

Para quem vive com a água no calcanhar a cada alerta vermelho emitido pela Defesa Civil e pelo Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da UFRGS, o prazo soar como uma eternidade é uma constatação do óbvio.

Para compreender o tamanho do desafio que a empresa vencedora terá pela frente, é preciso olhar para o espelho do passado. O estudo que o Estado busca atualizar agora começou a ser desenhado no primeiro semestre de 2015, pela Metroplan, e foi publicado em 2018. Aquele documento traçou a “mancha de inundação” observando o rigor técnico de um Tempo de Recorrência (TR) de 100 anos, mapeando mais de 1,3 milhão de metros quadrados de área edificada atingida e engolindo 2.908 edificações em Cachoeirinha e 1.210 em Gravataí.

Mas o mapa de 2015 caducou antes de qualquer real aplicado. A fúria inimaginável de maio de 2024 rasgou as projeções estatísticas de 100 anos e mostrou que a crise climática não obedece a cronogramas acadêmicos. As cotas de inundação mudaram. O patamar é outro. E a linha d’água avançou onde antes se imaginava ser terra firme.

Historicamente, essa fragilidade teórica foi agravada pela omissão dos municípios. A não observância rígida das recomendações da Metroplan no passado permitiu aterramentos silenciosos e construções ruidosas em áreas onde a física sempre avisou que a água voltaria. Sempre insisti neste espaço: prefeitos e vereadores precisam funcionar como um “dique” legislativo através de seus Planos Diretores. Não adianta receber R$ 2,9 bilhões em obras se as leis municipais de ocupação de solo permitirem que a especulação imobiliária continue empurrando moradias para dentro da mancha. O interesse coletivo não pode continuar sendo deixado de fora do barco.

Do ponto de vista financeiro e de engenharia, a Bacia do Gravataí está diante de uma oportunidade sem precedentes, como tratei com exclusividade no Seguinte:, na última semana. O pacote anunciado no PAC desenha um cinturão de proteção metropolitana denso.

São R$ 2,5 bilhões para as obras de contenção na ligação do rio entre Alvorada e Porto Alegre (diques do Arroio Feijó e áreas de pôlderes); R$ 450 milhões focados no miolo da bacia, abrangendo a extensão de diques e casas de bombas em Cachoeirinha (com a continuidade da proteção na ponte até o Cadop) e Gravataí (foco no Parque dos Anjos e Vila Rica), além de barragens de regularização; e 13 minibarramentos projetados para o Banhado Grande, vitais para amortecer a velocidade da água no inverno chuvoso e garantir reservatório no verão para evitar o colapso do abastecimento.

Entretanto, o ouro na mão corre o risco de virar “ouro de tolo” se a burocracia ou a disputa política e federativa prevalecerem sobre a urgência social. O momento exige cooperação cega e celeridade cirúrgica.

A realidade atual nos coloca no meio de um hiato perigoso. O governo estadual lançou o Prepara RS – El Niño, mobilizando recursos em radares, estações de monitoramento e logística humanitária. É um passo importante. Mas criar sistemas de alerta não é o mesmo que estar protegido. Um radar avisa quando a tempestade chega; ele não impede que o rio invada as casas da Vila Rica ou do Parque da Matriz.

Com modelos meteorológicos apontando probabilidade altíssima de eventos severos como o Super El Niño 26/27, e com o cronograma oficial empurrando o início das obras físicas das contenções na Bacia do Gravataí para o final de 2028, a Região Metropolitana viverá os próximos anos em um estado de vulnerabilidade explícita. A grande barreira de engenharia só estará totalmente em pé, na melhor das hipóteses, perto da virada da década. Até lá, ficaremos nos paliativos.

Ao fim, como sempre insisto, a água não vota, não consulta o Diário Oficial e não respeita os prazos das licitações públicas. Ela simplesmente encontra seu caminho.

A dor maior é saber que, enquanto os anteprojetos do estudo de 2015 são reescritos na mesa dos técnicos para se adequarem à realidade pós-2024, a cada pancada de chuva noturna quem arruma os pertences às pressas na periferia de nossas cidades continuam sendo aqueles que chamo de ‘os pobres de sempre’.


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