Em algum momento das noites de tempestade que continuam a fustigar o Rio Grande do Sul, a previsão do tempo deixou de ser um assunto banal. Deixamos de querer saber se vai chover para tentar adivinhar se a cidade ainda existirá inteira no dia seguinte. O leitor de Gravataí ou Cachoeirinha sabe exatamente do que estou falando. É a dor visceral trazida por aquela tirinha do Rodrigo Geraldi que citei recentemente no Seguinte:: a apreensão de quem acorda consultando a cota do rio ou do Guaíba com o pavor de quem aguarda o resultado de uma biópsia. Há algo de profundamente errado na engrenagem social quando olhar a régua do rio antes de escovar os dentes passa a ser um método de sobrevivência.
E é sob essa atmosfera de permanente ansiedade coletiva que o governo do Estado lançou, no Diário Oficial, o edital de uma concorrência decisiva. No dia 5 de outubro de 2026, será aberta a licitação para contratar a empresa que atualizará os anteprojetos de engenharia e estudos ambientais para o sistema de proteção contra cheias e minimização de estiagens na Bacia Hidrográfica do Rio Gravataí.
O valor da licitação, definida pelo critério de técnica e preço, é de R$ 5,7 milhões. O objetivo direto é recalcular a chamada “mancha de inundação”. O objetivo de fundo? Tentar salvar vidas e destravar uma bolada histórica.
A matemática financeira, nesta equação, é tão brutal quanto a hidrologia. A atualização é a precondição exigida para que o Palácio Piratini possa utilizar os R$ 2,9 bilhões destinados à Bacia do Gravataí no Novo PAC, dentro do pacote de socorro do governo federal após a catástrofe de maio de 2024. Estamos falando do Fundo de Apoio à Infraestrutura para Recuperação e Adaptação a Eventos Climáticos Extremos, gerido pela Caixa Econômica Federal. Um dinheiro blindado que, nas palavras da Casa Civil da União, não poderá ser contingenciado.
O problema é a velocidade do mundo real diante da lentidão do tempo burocrático. O projeto executivo desse robusto cinturão de diques — que prevê barreiras no Parque da Matriz, Vale Ville, Vila Rica, Caça e Pesca e Sarandi — só estará finalizado em 2028. Ou seja: as obras no terreno só devem começar no final daquele ano. A conclusão? 2030, talvez.
Para quem vive com a água no calcanhar a cada alerta vermelho emitido pela Defesa Civil e pelo Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da UFRGS, o prazo soar como uma eternidade é uma constatação do óbvio.
Para compreender o tamanho do desafio que a empresa vencedora terá pela frente, é preciso olhar para o espelho do passado. O estudo que o Estado busca atualizar agora começou a ser desenhado no primeiro semestre de 2015, pela Metroplan, e foi publicado em 2018 na revista técnica da instituição.
Aquele documento — fruto de um esforço inédito de aerofotogrametria e topobatimétrica — traçou a “mancha de inundação” observando o rigor técnico de um Tempo de Recorrência (TR) de 100 anos. O diagnóstico da época assustava: avisava que, no Cenário 0 (ou seja, se o Poder Público se omitisse e nada fizesse em 30 anos), o prejuízo da sociedade ultrapassaria R$ 5 bilhões. Apenas a mancha de 100 anos da Metroplan mapeava mais de 1,3 milhão de metros quadrados de área edificada atingida no eixo metropolitano, engolindo 2.908 edificações em Cachoeirinha e 1.210 em Gravataí.
O estudo previa que a solução responsável exigia um investimento de R$ 2,5 bilhões em intervenções estruturais e não estruturais. Mas o mapa de 2015 caducou, antes de qualquer real aplicado em projetos articulados pela lógica das bacias hidrográficas. A fúria inimaginável da enchente de maio de 2024 rasgou as projeções estatísticas de 100 anos e mostrou que a crise climática mundial não obedece a cronogramas acadêmicos. As cotas de inundação mudaram. O patamar é outro. E a linha d’água avançou onde antes se imaginava ser terra firme.
Historicamente, essa fragilidade teórica foi agravada pela omissão dos municípios. A não observância rígida das recomendações da Metroplan no passado permitiu aterramentos silenciosos e construções ruidosas em áreas onde a física sempre avisou que a água voltaria. Sempre insisti neste espaço: prefeitos e vereadores precisam funcionar como um “dique” legislativo através de seus Planos Diretores. Não adianta receber R$ 2,9 bilhões em obras se as leis municipais de ocupação de solo permitirem que a especulação imobiliária continue empurrando moradias para dentro da mancha. O interesse coletivo não pode continuar sendo deixado de fora do barco.
O ouro que não pode virar ‘ouro de tolo’
Do ponto de vista financeiro e de engenharia, a Bacia do Gravataí está diante de uma oportunidade sem precedentes. O pacote anunciado no PAC desenha um cinturão de proteção metropolitana denso.
São R$ 2,5 bilhões para as obras de contenção na ligação do rio entre Alvorada e Porto Alegre (diques do Arroio Feijó e áreas de pôlderes). Outros R$ 450 milhões focados no miolo da bacia, abrangendo as extensões de diques e casas de bombas em Cachoeirinha (com a continuidade da proteção na ponte até o Cadop) e Gravataí (foco no Parque dos Anjos e Vila Rica), além das barragens de regularização. E mais 13 minibarramentos projetados para o Banhado Grande, vitais para amortecer a velocidade da água no inverno chuvoso e garantir reservatório no verão de seca para evitar o esgotamento do abastecimento.
Entretanto, o ouro na mão corre o risco de virar “ouro de tolo” se a burocracia ou a disputa política e federativa prevalecerem sobre a urgência social. O momento exige cooperação cega e celeridade cirúrgica.
A realidade atual nos coloca no meio de um hiato perigoso. Recentemente, o governo estadual lançou o Prepara RS – El Niño, mobilizando recursos em radares, estações de monitoramento e centros de logística humanitária. É um passo importante para combater o negacionismo e evitar que o Estado seja pego de surpresa.
Mas criar sistemas de alerta não é o mesmo que estar protegido. Um radar avisa quando a tempestade chega; ele não impede que o rio invada as casas da Vila Rica ou do Parque da Matriz.
Com modelos meteorológicos apontando probabilidade altíssima de eventos severos como o Super El Niño 26/27, e com o cronograma oficial empurrando o início das obras físicas das contenções na Bacia do Gravataí para o final de 2028, a Região Metropolitana viverá os próximos anos em um estado de vulnerabilidade explícita. A grande barreira de engenharia só estará totalmente em pé, na melhor das hipóteses, perto da virada da década. Até lá, paliativos.
Ao fim, como sempre insisto, a água não vota, não consulta o Diário Oficial e não respeita os prazos de licitação de R$ 5,7 milhões. Ela simplesmente encontra seu caminho. A dor maior é saber que, enquanto os anteprojetos do estudo de 2015 são reescritos na mesa dos técnicos para se adequarem à realidade pós-2024, a cada pancada de chuva noturna quem arruma os pertences às pressas na periferia de nossas cidades continuam sendo aqueles que chamo de ‘os pobres de sempre’.
A licitação de 5 de outubro é um passo burocrático vital e inescapável. Mas a pergunta de R$ 2,9 bilhões que paira sobre a Bacia do Gravataí continua sem resposta no curto prazo: os projetos conseguirão encontrar o seu caminho na velocidade de que precisamos, ou a física impiedosa da natureza chegará primeiro outra vez?






