‘De Dias Gomes’, a novela do maior investimento industrial da história recente de Cachoeirinha ganhou spoiler — e, desta vez, com data de estréia no horizonte.
O governo da prefeita interina Jussara Caçapava confirmou que as obras da fábrica de semicondutores do Grupo Tellescom devem iniciar no segundo semestre de 2026, consolidando um aporte estimado em R$ 1 bilhão e a promessa de cerca de 1,2 mil empregos diretos e indiretos no município.
A informação foi tratada nesta quarta-feira (21), em Porto Alegre, durante reunião entre o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Trabalho, Inovação e Turismo, Vinicius Ferreira, e o secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Leandro Evaldt, com a presença do analista sênior da Invest RS, Marcelo Kanter.
O encontro teve como pauta os próximos passos para a implantação da unidade industrial em Cachoeirinha.
O projeto prevê a instalação de uma fábrica de encapsulamento e testes de semicondutores em parte do terreno da antiga Cientec, ao lado do Distrito Industrial. O protocolo de intenções foi assinado em junho do ano passado, garantindo a reserva da área.
A expectativa é que a empresa esteja em operação já em 2027, atendendo setores estratégicos como a indústria automotiva, internet das coisas (IoT) e comunicação sem fio.
O investimento é fruto de um termo de engajamento firmado durante missão da Invest RS à Malásia, em 2025, e conta com suporte do programa estadual Semicondutores RS, que busca fortalecer a cadeia produtiva por meio de pesquisa, formação de talentos e estímulo ao empreendedorismo.
Segundo Vinicius Ferreira, a Prefeitura seguirá atuando de forma ativa para destravar etapas técnicas e institucionais.
– Teremos ainda mais encontros contando com a presença de representantes da Tellescom para debater questões pontuais – afirmou o secretário, reforçando o foco em desenvolvimento econômico, inovação e geração de empregos.
Investimento bilionário sob teste político
A confirmação do cronograma ocorre em um momento simbólico.
O investimento da Tellescom foi uma das principais incógnitas do pós-impeachment, após a cassação do prefeito Cristian Wasem, que havia acompanhado pessoalmente a articulação do projeto desde 2022.
Antes de perder o mandato, Cristian chegou a fazer um alerta público sobre os riscos da instabilidade política afastar investimentos estruturantes de Cachoeirinha.
À época, absolvido pela Justiça Eleitoral, mas cercado por processos de impeachment na Câmara, o então prefeito usou de toma dramático:
– Estamos arriscando perder o investimento bilionário da Tellescom. Quem vai investir em uma cidade em crise política? – instigou, em entrevista exclusiva ao Seguinte: em novembro, que você lê em “É uma batalha espiritual”: Após absolvição pela Justiça Eleitoral, Cristian alerta para risco de Cachoeirinha perder investimentos em caso de cassação pela Câmara; leia todas as versões.
O temor não era retórico. O projeto da fábrica de chips, anunciado pelo governador Eduardo Leite como um dos maiores empreendimentos industriais em curso no Rio Grande do Sul, exigia — além de incentivos e infraestrutura — previsibilidade institucional, articulação política e segurança jurídica.
Um dos atrativos para a fábrica teria sido a promessa do governo municipal de construir um novo acesso, a Eletrovia, parte do programa Cachoeirinha 2050, com investimento chinês; leia mais em Por que é estratégico Cachoeirinha iniciar obras da ERS-010 com financiamento chinês; A Eletrovia.
A instabilidade, somada ao histórico recente de cassações no Executivo municipal, com a possibilidade do município ter quatro prefeitos em quatro anos, levantou dúvidas no meio empresarial e político sobre a capacidade de Cachoeirinha sustentar projetos de longo prazo.
A fala de Cristian, na época, ecoou como um aviso: processos de impeachment não cassam apenas mandatos — podem paralisar cidades inteiras.
Agora, o relógio voltou a andar
Passado o turbilhão político, a sinalização do início das obras no segundo semestre de 2026 funciona como um termômetro de confiança.
O avanço do cronograma indica que, apesar das turbulências institucionais, o projeto segue de pé e ancorado em uma articulação que envolve Prefeitura, Governo do Estado, Invest RS e parceiros internacionais.
Com terreno definido, plano de negócios estruturado e interesse estrangeiro — inclusive com investidor malaio compartilhando tecnologia —, a fábrica da Tellescom volta a ser tratada como um marco do reposicionamento econômico de Cachoeirinha, após a perda de grandes indústrias, como a Souza Cruz, em 2016.
Se o cronograma for cumprido, 2026 marcará o início físico de uma obra que pode redefinir o papel do município no mapa da inovação e da indústria de alta tecnologia no Rio Grande do Sul.
Ao fim, Jussara tratar o investimento como uma das prioridades de seu governo é uma necessidade. O financiamento chinês, também.






