A pergunta do título tem sido uma constante nos últimos meses, desde que comecei meu processo de avaliação com uma neuropsicóloga e cheguei na resposta para atravessamentos de toda uma vida: autismo nível 1 de suporte + Altas Habilidades/Superdotação. Do autismo, eu já vinha desconfiando. Que sou neurodivergente, já estava óbvio, nessa altura do caminho. Cada vez mais óbvio. A surpresa foi receber o laudo da superdotação. Porque apesar de ter sido a criança inteligente que já escrevia poesia e ter um bom raciocínio lógico, parece que vim com alguma peça faltando para lidar com números e esportes. Ah, mas são vários tipos de inteligências! E ter um cérebro superdotado não é um superpoder, também é exaustivo.
A ironia do destino é que justamente ter Altas Habilidades (essa pessoa insuportavelmente inteligente com as palavras) foi um dos fatores que mascarou meu autismo ao longo da vida. Inclusive para mim mesma. Por ser habilidosa com as palavras, pelo menos assim, por escrito, eu não percebia o quão literal e direta demais acabo sendo. Quantas vezes fui apontada por ter um jeito “agressivo” de me expressar? E na minha cabeça, estava sendo somente bem objetiva… Então era isso! O jeitinho autista de falar.
Agora fez sentido também porque eu sempre parecia deslocada, “deixada de fora” das conversas e dos planos, orbitando todos os grupos sem nunca conseguir realmente fazer parte de nenhum. Durante a adolescência sempre achei que era excluída, mas agora sei que eu não acompanhava os “adolescentes comuns”. Imagina se a menina hiperfocada em livros desde a primeira infância ia querer falar de roupas, maquiagens e paqueras? Sempre fiquei meio alheia nesses assuntos. Até porque as regras sociais sempre me pareceram sem sentido ou lógica. Mas quando o tema é cultura e arte, também não tenho a noção de que só eu estou empolgada com o papo. Não sou chata de propósito: o cérebro autista não bloqueia informações como o neurotípico faz, as palavras só saem. A gente também pode ter dificuldade de saber quando falar e quando parar de falar. Principalmente em assuntos de hiperfoco. Com o diagnóstico, posso trabalhar em terapia estratégias para melhorar essa percepção e a leitura social. E também me importar menos em ser vista como “sem noção”, porque agora sei que não é um defeito, mas apenas a forma como meu cérebro funciona.
Então é por causa do combo autismo + AH/SD que o mundo sempre foi barulhento demais, que eu parecia me incomodar mais do que a maioria das pessoas com sons do dia a dia, e as festas dos vizinhos eram torturantes! Hipersensibilidade sensorial não é um negócio divertido. Tem dias que tudo chega amplificado. E o cérebro superdotado tem mais receptores e trabalha mais simultaneamente, então imaginem um monte de informação sonora entrando junta e amplificada? Enlouquecedor. Os fones com cancelamento de ruído viraram recurso de sobrevivência. E de prevenção também, porque a sobrecarga me provoca enxaqueca. Então, se acostumem a me ver de fones…
E então é por causa do autismo que vários cheiros me incomodam de um jeito que parece me agredir? Que não consigo comer nada que tem cheiro forte, dá ânsia só com o odor? E que as texturas de vários alimentos chegam a me dar arrepios? Nunca foi frescura. Mas seletividade alimentar é um conceito bem recente. Minha mãe conta que fui uma criança que não botava nada na boca, ao contrário do que a maioria faz para explorar o mundo. O autismo já estava ali, só ninguém iria pensar nisso no início dos anos 80.
Eu vivia cismada com o cansaço e as dores que me acompanham, procurando alguma explicação. Agora tenho a resposta: são os efeitos de um cérebro superestimulado, que não pára de pensar e receber informações sensoriais. Lembram que eu disse que superdotação é exaustivo? É ter um cérebro que busca explicação para tudo e está sempre criando novas conexões para qualquer coisa. Como se a gente tivesse um Google instalado na mente, onde tudo vira link e leva para outra página, e mais outra, mais outra. Nosso mundo interno é tão “povoado” que falta energia para o lado de fora, as tarefas básicas do dia a dia. E o cérebro autista precisa de mais energia para fazer essas tarefas, a conta da dupla excepcionalidade nunca fecha. Não posso mudar de cérebro, mas entendendo como ele funciona é possível entender onde dá para poupar energia e canalizar melhor.
Alguém deve estar se perguntando de que adianta o diagnóstico nessa altura da vida. Ah… É um alívio tão grande saber que a gente nunca teve um “defeito”, apenas uma forma diferente de funcionar. E quanto mais entendemos esse funcionamento, mais sabemos respeitar nossos limites e também conviver melhor socialmente. É uma questão de saúde física mesmo e de qualidade de vida.
Mas um fato é que a arte sempre foi fundamental. Seja a música ajudando a me regular (quando eu nem sabia que desregulava), seja o artesanato e o desenho ajudando a silenciar a mente, seja a escrita ajudando a organizar os pensamentos e sentimentos. A arte é suporte, remédio e fonte de energia. É a bóia que sempre me ajudou a não afundar. É a luz que ilumina os dias sombrios. Se eu não fosse artista, talvez seria apenas uma pessoa esquisita. O autismo e a superdotação fazem parte do meu jeito de ser. E a arte também.
Então é isso. Sou artista, autista e superdotada. E ainda estou entendendo como esse cérebro funciona. Também compreendendo muitas coisas da minha vida inteira. Mas agora não estou mais perdida e confusa. A cada dia entendo mais um pouquinho dessa mente cheia de ideias e sensações. E vou aprendendo, um dia de cada vez, como viver com consciência de ser uma pessoa neuroatípica. Mais em paz do que nunca.






