3º NEURÔNIO

Um país de abusadores

“Uma parcela grande da sociedade brasileira considera nulas as vidas de milhões de mulheres e meninas”. Recomendamos o artigo da jornalista Eliana Alves Cruz, publicado pelo ICL Notícias


Contra fatos não há argumentos. Olhando de perto ou de longe, o Brasil é um país de abusadores. Você não terminará de ler este texto sem que uma criança esteja em profundo sofrimento, pois segundo os dados do Fórum de Segurança Pública, a estatística aqui é de cerca de um estupro de vulnerável — aquela pessoa menor de 14 anos ou em situação que não consegue se defender — a cada dez minutos.

É pior. O Brasil não é apenas um país de estupradores, mas dos que violentam e podem se ocultar embaixo do manto da fé, pois a bancada evangélica está em peso empenhada em premiar o abusador e martirizar a vítima da violência. A prioridade é o PL 1904/24, apresentado pelo deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), que equipara o aborto realizado após 22 semanas de gestação ao crime de homicídio simples, até mesmo nos casos em que a gravidez é resultante de estupro. Até mesmo quando em estado de total vulnerabilidade, alguém tem seu corpo invadido e semeado com sangue.

Na eterna e proposital mistura de religião com política, o Congresso brasileiro transforma em pauta de costumes questões criminais e de saúde pública, manchando a laicidade do estado e retirando direitos de milhões de cidadãs.

Em nenhum país criminalizar a mulher que pratica um aborto verificou-se eficiente, mas racionalidade não é o forte de parlamentares que caçam votos às custas do cultivo sistemático da ignorância e da cegueira ideológica.

O que vale é jogar para um plateia ávida pelo agrado de Deus como se fosse conquista algo que se voltará contra ela mesma, pois em uma nação com estatísticas tão estarrecedoras de violência de gênero, nenhuma fé ardorosa impede que seja o apoiador de tal lei a vítima dela própria.

Entre os muitos horrores que o noticiário nos traz todos os dias, esta semana foi a vez de nos enojarmos com o pai que abusou da filha imobilizada em uma UTI após uma parada cardiorrespiratória. Vulnerável é pouco para descrever o estado desta menor.

Não é difícil fazer as muitas perguntas que este caso levanta. Quem faz algo assim com a filha no hospital o que não fará com ela (e com outras pessoas) fora dele? E se esta menina engravida? Talvez demore para provar que foi o próprio pai, talvez ultrapasse 22 semanas, talvez tenha alguém fundamentalista por perto, talvez, talvez e talvez… Não podem existir tantas brechas para possibilidades macabras em uma legislação.

Outra possibilidade nefasta em uma sociedade tão permissiva com abusadores é a de alguém estuprar, gerar uma criança, conseguir a posse desta criança e abusar dela seguidamente como fez com a mulher que a gerou. Segundo o texto proposto, a pena para a mulher que aborte após 22 semanas pode chegar a 20 anos, o dobro da que é estabelecida para os estupradores.

O resultado prático da votação importa… e muito! No entanto, há algo perturbador para além dele: Uma parcela grande da sociedade brasileira considerou e considera como nulas as vidas de milhões de mulheres e meninas. Um grupo significativo de eleitores chancela e vota em quem defende a violência e, em alguns casos, a pratica. O Brasil arreganha os dentes ferozes contra o corpo feminino e contra tudo o que possa garantir autonomia para ele, pois não se trata de defender a vida, mas de assegurar o direito de controlar estas vidas a qualquer preço e de acobertar quem atente contra elas.

Tudo choca nos descalabros propostos, mas também estarrece a covardia em ser frontalmente contra às obtusas e brutais propostas vindas de extremistas que estão sentados no parlamento pelo voto, mas empurrados pela força do ódio, das fake news e dos mais diversos matizes de intolerância. É como se os contrariar em seus propósitos teocráticos fosse sentença de morte eleitoral.

Nunca foi tão importante se pronunciar e exercitar a cidadania, pressionando pelo debate e pelo enfrentamento de ideias. Nunca foi tão vital o chamamento à responsabilidade da sociedade civil disposta a disputar por cada palmo de um país menos embrutecido, livre e democrático que não seja governado orientado pela crença de um grupo, mas pelo bem-estar de todas e todos.

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