“Voltei”.
A palavra é simples. Curta. Quase banal para quem a pronuncia depois de uma viagem, de um feriado, de uma licença. Mas, no caso do vice-prefeito de Gravataí Dr. Levi, ela carrega um peso que a política não comporta e talvez nem devesse tentar.
Porque, antes de qualquer cargo, projeto ou eleição, há um homem que passou 78 dias internado. Um homem que esteve na UTI, que enfrentou uma doença rara — dessas que atingem um em um milhão — e que, em algum momento, consciente, acordado, se perguntou se iria sobreviver.
E isso muda tudo.
Conversei com ele ao meio-dia desta quinta-feira, após ele voltar da fisioterapia e depois de, na noite de ontem, reunir amigos e apoiadores para comunicar seu retorno.
Este artigo do Seguinte: é sobre a metafísica de tudo isso.

É fato que a tentação da política é imediata. Classificar. Projetar. Perguntar se mantém a pré-candidatura a deputado federal, se reassume como vice-prefeito, se vira candidato natural à sucessão do prefeito Luiz Zaffalon, se fortalece ou enfraquece grupos, se altera o cenário eleitoral.
Mas há momentos em que a análise política é não apenas insuficiente — é inadequada.
Este é um deles.
Levi sempre foi, nas próprias palavras, “um cara hiperativo”, alguém que trabalhava das seis da manhã às dez da noite, todos os dias. A rotina que hoje ele descreve não poderia ser mais diferente e, paradoxalmente, mais reveladora.
Agora, vai diariamente a Porto Alegre para fisioterapia. Usa um táxi adaptado para cadeirante. Treina movimentos básicos, como sair da cadeira para o carro. Perdeu 10 quilos no hospital — e, mais do que isso, perdeu massa muscular, perdeu autonomia, perdeu o corpo que conhecia.
Segundas, quartas e sextas, clínica de reabilitação neurológica. Terças e quintas, fisioterapia na Santa Casa. Medicação em casa. Tratamentos que incluem, além do protocolo já realizado — corticoterapia, plasmaférese, imunoglobulina —, a busca por alternativas, como terapias com células-tronco e equipamentos disponíveis em São Paulo.
A medula ainda está lesionada. Do abdômen para baixo, não há força. Há uso de sonda vesical, colostomia.
E, ainda assim, há algo que resiste.
No hospital, ele teve choque séptico. Quase morreu. A descrição é seca, direta, como só quem viveu pode fazer: é terrível, disse, com o pragmatismo de um ícone da medicina gravataiense. E, naquele momento, pensava — será que vou sobreviver?
Há uma cena que talvez explique mais sobre Levi do que qualquer análise eleitoral: ele dizia à esposa que só sairia do hospital caminhando. Ela dizia que já poderia ir para casa seguir o tratamento. Depois do choque séptico, ele cedeu.
“A vida precisa continuar”.
É aqui que a política perde relevância.
Foram 78 dias sem ver o sol, por vezes sem distinguir o dia da noite. Quem nunca passou por isso talvez não compreenda o que significa. Não é apenas uma internação longa — é uma suspensão da vida como ela era.
Uma ruptura. E, quando se rompe, não se volta ao mesmo lugar.
A doença — uma mielite transversa autoimune — não é apenas rara. É imprevisível. Trata-se de uma inflamação da medula espinhal causada por um erro do sistema imunológico, que passa a atacar o próprio corpo. Os sintomas são severos: perda de força, sensibilidade comprometida, disfunções motoras e fisiológicas.
O tratamento é complexo, em etapas, com resposta gradual. Primeiro, conter o avanço. Depois, estabilizar. Só então iniciar a longa — e incerta — recuperação neurológica.
Levi passou por tudo isso. E ainda está passando.
Há, no relato dele, uma mudança que não é física. É existencial.
No início, questionava: por que eu, Deus? Por que fui escolhido? Depois, a resposta mudou. Se houve a dificuldade, houve também a condição de enfrentá-la. A esperança de reconstruir a vida.
Essa reconstrução não é retórica. É literal.
“Estou fazendo minha vida de novo”.
E talvez seja isso que realmente está em jogo na chamada “volta de Levi”. Não a volta ao gabinete. Não a volta ao consultório. Não a volta à campanha. A volta à vida. Ainda que seja uma nova vida.
Ele quer retomar aos poucos a rotina. Voltar a atender pacientes. Reaparecer na Prefeitura. Participar da política. Mas já admite que não será no ritmo “tresloucado” de antes.
Há, aqui, uma espécie de sabedoria que só o limite impõe. A política cobra intensidade. A vida, às vezes, cobra pausa.
Na reunião partidária que marcou seu retorno, Levi falou emocionado. Disse o essencial: está vivo. E isso é o mais importante. Confirmou pré-candidatura, falou de esperança de voltar a andar, agradeceu apoio.
Mas, se quisermos entender o momento, talvez seja preciso ignorar tudo isso. Ou, ao menos, colocar em segundo plano.
Porque o que há de mais forte não é a candidatura. É a possibilidade — ainda incerta — de voltar a andar. E a serenidade de aceitar que talvez não aconteça.
“Tenho esperança. Mas pode não acontecer. O que importa é que estou vivo”.
Essa frase encerra qualquer debate político.
Levi é uma figura pública. Como tal, desperta apoios, rejeições, indiferença. Faz parte. É do jogo. Ele mesmo construiu essa trajetória ao longo de décadas, como médico, como gestor, como político.
Mas há momentos em que o personagem público deve ceder lugar ao cidadão. Este é um deles.
Houve apoio da comunidade, de lideranças, de servidores. Houve fé, mensagens, orações. Houve também o núcleo essencial — a família.
A esposa, Jucilei, que praticamente fechou o consultório para ficar com ele na UTI. As filhas, que sustentaram, junto com ela, o que nenhuma estrutura pública ou privada substitui.
É nesse ponto que a narrativa deixa de ser institucional e se torna humana.
A política vai voltar. Sempre volta.
As disputas, as alianças, os cálculos, os interesses — legítimos ou nem tanto — estarão todos lá, esperando. Mas não precisam ser tratados agora.
Agora, o que há é um homem que enfrentou a possibilidade concreta da morte e escolheu viver — com todas as limitações, incertezas e dores que isso implica.
Um homem que reaprende movimentos básicos, que reorganiza sua rotina, que reconstrói sua identidade.
Um homem que, ao voltar, não retorna ao mesmo lugar.
Por isso, talvez a melhor forma de encerrar seja com aquilo que ele próprio disse — e que deveria bastar: está vivo.
E, desta vez, isso é mais do que suficiente.







