RAFAEL MARTINELLI

Polícia Civil investiga compras da gestão Cristian durante enchente em Cachoeirinha sob suspeita de sobrepreço; o que diz prefeito cassado

Reeleito em 2024, Cristian foi cassado em janeiro após processo de impeachment na Câmara de Vereadores

Resta por característica nos últimos anos Cachoeirinha misturar o noticiário político com o policial. Dos Grandes Lances dos Piores Momentos, aconteceu de novo. Vazou que a Polícia Civil do Rio Grande do Sul investiga, desde o ano passado, o governo do prefeito cassado Cristian Wasem. O delegado responsável formalizou pedidos de informação em 24 de fevereiro; a atual gestão respondeu neste mês.

A Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Administração Pública abriu o inquérito 05/2025/700012 sobre compras emergenciais realizadas pela Prefeitura de Cachoeirinha durante — e também após — as enchentes de 2024. A suspeita central: possível sobrepreço em itens adquiridos sob o guarda-chuva da calamidade pública.

O caso ainda está em fase inicial, mas os elementos já reunidos colocam sob apuração uma engrenagem administrativa que operou em regime de urgência — e, segundo órgãos de controle, com falhas relevantes.

Entre os documentos já analisados, aparecem compras com valores que destoam do mercado. Capas de chuva adquiridas por cerca de R$ 199, quando o preço médio gira entre R$ 40 e R$ 50. Calças pantaneiro por aproximadamente R$ 799, com equivalentes encontrados por menos de R$ 200. Lanternas por R$ 359, enquanto modelos similares custam até R$ 120.

Não são casos isolados dentro do material analisado. O cálculo do atual governo aponta que mais de R$ 10 milhões em compras podem estar sob investigação.

O delegado Guilherme Calderipe Costa requisitou formalmente à Prefeitura, em 24 de fevereiro, cópias de processos administrativos, contratos e demais documentos para instruir o inquérito. A reportagem teve acesso a mais de uma centena de notas fiscais, empenhos e comprovantes de pagamento que agora passam a ser confrontados com informações oficiais.

Antes mesmo da investigação policial, os sinais de alerta já haviam sido emitidos dentro da própria Prefeitura.

A Unidade Central de Controle Interno (UCCI) produziu uma série de comunicados apontando fragilidades graves nos processos de compras emergenciais.

Entre os principais problemas identificados estão a ausência de pesquisa de preços e orçamentos comparativos, inviabilizando a verificação de valores de mercado; falta de justificativa para escolha de fornecedores; compras diretas sem comprovação de negociação prévia; quantidades adquiridas sem justificativa técnica e pagamentos por indenização sem documentação mínima exigida.

Em um dos casos mais emblemáticos, um grupo de trabalho apontou sobrepreço superior a R$ 321 mil apenas em duas notas fiscais, o que representaria mais de 55% do valor total pago.

Outro ponto sensível: a própria lógica da despesa pública foi, em situações analisadas, invertida. Há registros de compras realizadas antes do empenho formal, com pagamento feito sem comprovação do recebimento dos materiais.

Compras emergenciais — e exceções que viraram regra

Os documentos também mostram o uso recorrente de mecanismos excepcionais, como compra direta em razão da calamidade, pagamento por indenização e regime de adiantamento de numerário.

Este último, por exemplo, foi utilizado para aquisição de refeições durante o período das enchentes, mesmo sendo um instrumento que, por lei, deve ser restrito a despesas de pequeno vulto e caráter urgente.

O problema, segundo os órgãos de controle, não está necessariamente na utilização desses instrumentos, mas na falta de justificativas robustas e no descumprimento de requisitos mínimos legais.

Pelo que foi apurado pelo Seguinte:, empresários já prestaram depoimento. Integrantes da gestão anterior, sejam políticos ou técnicos, ainda não foram ouvidos. A investigação segue em coleta de provas.

Há também um componente adicional: parte dos recursos utilizados tem origem estadual, mas há indícios de verbas federais envolvidas — o que, em tese, pode atrair a atuação da Polícia Federal do Brasil.

O caso de Cachoeirinha não ocorre no vazio.

Recentemente, o ex-prefeito de Lajeado, Marcelo Caumo, foi preso em operação da Polícia Federal que investiga desvios de recursos destinados à assistência social após as enchentes de 2024. A chamada Operação Lamaçal apura contratos que podem ter causado prejuízo milionário.

Não é o mesmo caso. Não é o mesmo objeto. Mas o contexto é o mesmo: dinheiro público circulando em grande volume, com urgência extrema e controles tensionados.

Cristian fala em “organização criminosa”

Procurado pelo Seguinte:, Cristian Wasem afirma que todas as ações da sua gestão ocorreram dentro da legalidade.

– Fizemos tudo dentro da lei. Quando descobri irregularidades, eu mesmo entreguei as provas para o Ministério Público para as devidas investigações e fui excluído destas investigações – disse.

O ex-prefeito sustenta que adotou medidas internas para apurar eventuais problemas ainda durante o governo.

– Para apurar denúncias, fiz sindicância, com a participação de servidores públicos, que ouviu as pessoas e tirou conclusões. Inclusive, uma das pessoas que me ajudou a descobrir tudo teve a casa incendiada – denunciou.

Na avaliação dele, há um contexto mais amplo por trás das suspeitas.

– Desde que assumi, o que estamos tentando combater é uma verdadeira organização criminosa. Mas a Câmara de Vereadores não cumpre seu verdadeiro papel de investigar, assim como não investigaram as contratações da presidente da Câmara em 2025. Há muitas coincidências com estas compras da enchente – disse, referindo-se a pedido de investigação contra a agora prefeita interina Jussara Caçapava; que ele próprio apresentou enquanto enfrentava processo de impeachment.

Por fim, Cristian afirma confiar no desfecho das apurações: “Eu acredito na Justiça”.

O que se sabe — e o que não se sabe

O que se sabe é que há indícios, apontamentos técnicos e uma investigação formal em andamento.

O que não se sabe — ainda — é se houve crime. Não cabe aqui, portanto, transformar indícios em sentença.

Não sou policial, promotor ou juiz para investigar, acusar ou condenar. Há, inclusive, precedentes que recomendam cautela. O ex-prefeito Miki Breier, por exemplo, chegou a ser investigado por compras de respiradores apontadas como superfaturadas na pandemia — e acabou inocentado, com os preços relativizados diante da urgência e da escassez global.

A calamidade distorce mercados. Pressiona decisões. Encurta caminhos. Mas também exige responsabilidade redobrada.

O fato, neste momento, é um só: Polícia Civil do Rio Grande do Sul investiga.

E isso, por si só, já é notícia.

Político-policial.

Outra vez.

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