A Câmara de Vereadores de Gravataí já fez a primeira reunião após a formalização da instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a prestação dos serviços de água e saneamento no município e, com isso, abriu mais do que uma apuração técnica. Abriu um teste.
De um lado, vereadores que dizem representar um cidadão cansado de falta d’água, cobranças pouco compreensíveis e obras que parecem não terminar. De outro, uma das maiores empresas privadas de saneamento do país, a Aegea, que opera a Corsan após a privatização.
A pergunta que paira — e que não está no requerimento, mas define o jogo — é simples: a empresa tratará a CPI como trata o consumidor comum, que muitas vezes não consegue resposta? Ou reconhecerá, na prática, a autoridade do Legislativo municipal?
A comissão foi criada a partir do requerimento 244/2026, apresentado pelo vereador Hiago Pacheco, e terá prazo inicial de 90 dias, podendo ser prorrogado.
O foco, oficialmente, é amplo e sensível: falta recorrente de água, com análise da frequência e duração das interrupções; ausência de comunicação prévia à população; possíveis falhas estruturais e operacionais; tarifas e cobranças consideradas pouco transparentes ou abusivas; e obras de saneamento inacabadas ou com problemas de execução.
É, na prática, a síntese do que já vinha sendo relatado por moradores e também apontado na fase prévia da investigação política.
Um exemplo simples — e, ao mesmo tempo, revelador — apareceu já na coletiva de apresentação da comissão.
O comunicador Chiquinho Nunes, da Folha do Vale, relatou que a empresa teria reduzido o prazo para ligações de redes de 120 para 30 dias, sem comunicação prévia à população. E mais: estaria aplicando multas.
A questão, aparentemente burocrática, expõe o impacto direto na vida real: famílias que organizaram seu orçamento com base em uma regra passam a ser penalizadas por outra, sem aviso.
– Como ficam famílias que já gastaram seu orçamento? – questionou.
A resposta do presidente da CPI veio na forma de escopo: esse tipo de situação está no centro da investigação. Segundo Hiago, a comissão terá três eixos principais: “as taxas obscuras, a falta de água constante e as obras inacabadas”.
Transparência — ou a falta dela
A CPI também nasce com uma cobrança que vai além de Gravataí: a necessidade de transparência nos investimentos.
Embora a Aegea anuncie cifras bilionárias — mais de R$ 4 bilhões investidos desde 2023 e previsão de R$ 1,5 bilhão apenas neste ano, segundo a própria empresa —, municípios ainda relatam dificuldade em acessar informações básicas: quais obras serão feitas, quando e com que recursos.
Para cumprir a meta de universalizar o esgoto até 2033, prevista no novo marco do saneamento, será necessário mais do que anúncios.
Será necessário cronograma. Ano a ano. Cidade a cidade. E esse é um tipo de resposta que a CPI pode — ou não — conseguir extrair no caso de Gravataí.
Como já mostrado, há um elemento político que atravessa a investigação.
Parte dos vereadores que agora cobram explicações apoiou, direta ou indiretamente, o modelo de privatização que transferiu a operação à iniciativa privada.
O prefeito Luiz Zaffalon, alinhado ao governador Eduardo Leite, não se opõe à CPI.
O que cria um cenário curioso: o modelo é defendido, mas seus resultados são questionados. Não é contradição. É política em estado puro.
Entre a técnica e o espetáculo
A CPI nasce com discurso técnico, rito formal e apoio amplo. Mas carrega, desde o início, o risco conhecido: virar selfie.
Porque investigar água — tarifa, acesso, qualidade — nunca é apenas técnico. É serviço essencial. É contrato. É dinheiro. É poder. E é também comunicação.
A Aegea, por sua vez, já afirmou em outros espaços que segue o marco regulatório, que as obras muitas vezes causam transtornos temporários e que os resultados “ficam debaixo da terra”, mas virão.
A CPI vai testar essa narrativa.
Vai tentar transformar promessa em dado, cronograma em documento, discurso em transparência. Ou não.
Ao fim, mais do que relatórios e oitivas, a CPI será medida por algo mais simples: se os vereadores conseguirão respostas que o cidadão comum não consegue, se os convites para depoimentos serão atendidos, se os documentos serão entregues, ou se tudo terminará como tantas outras comissões.
Entre selfies, posts — e um copo de água vazio.






