Com Jair Bolsonaro em prisão domiciliar, não houve medalha de “imbrochável, imorrível e incomível”. Mas, em ato na sexta-feira, o vereador Policial Evandro Coruja foi oficializado como pré-candidato a deputado estadual pelo PL, o partido do ex-presidente. E o principal: é o candidato da família Bolsonaro em Gravataí.
Mais do que uma candidatura, o que se consolidou foi um rótulo político: Coruja é, hoje, o candidato do ‘bolsonarismo-raiz’ na aldeia.
Não por marketing. Por acúmulo. Já tratei da alcunha em uma série de artigos anteriores.
No último texto, Três homens e um mito — as aventuras dos gravataienses Coruja, Clebes e Bombeiro rumo à AL, desenhei a cena política gravataiense: três vereadores, um campo ideológico em disputa e um mito que segue organizando paixões mesmo fora da urna.
Para facilitar o entendimento do eleitor, hoje e com dois acréscimos, vou dar “o nome aos demônios”, como ensinava o padre de O Exorcista — esta é só uma analogia, não se assustem.
Começo pela personagem principal deste artigo: Coruja sempre ocupou um lugar específico como o ‘bolsonarista-raiz’ de Gravataí. Já tinha analisado em Coruja é o Flávio Bolsonaro de Gravataí: a estratégia do vereador por trás da troca de partido — e os oportunistas.
Sem entrar no mérito de se isso é bom ou ruim, nunca modulou discurso. Nunca fez selfie de conveniência. Nunca praticou a coreografia da ‘direita líquida’.
Enquanto outros políticos locais orbitavam entre o governo de Eduardo Leite e os vídeos de Nikolas Ferreira, Coruja fincou raízes. Já atuou, inclusive, como segurança pessoal de Jair Bolsonaro.
Essa coerência — ideológica, nacional — agora ganha chancela institucional. A filiação ao PL não é apenas partidária. É simbólica.
A dobrada com Felipe Pedri — ex-secretário de Comunicação de Bolsonaro, próximo do filho Eduardo (o grande responsável pelo presidenciável ser o irmão, Flávio, e não o representante do que chama “direita limpinha”, Tarcísio de Freitas) e articulador do núcleo duro bolsonarista — funciona como selo de autenticidade.
Coruja não chega sozinho. Sua candidatura nasce alinhada a três pilares do PL e do bolsonarismo gaúcho: Luciano Zucco e Ubiratan Sanderson, candidatos a governador e senador, e a própria família Bolsonaro.
Com Sanderson, divide algo além da política: a origem na Polícia Federal e uma amizade de longa data. Com Zucco, compartilha o projeto eleitoral. Com os Bolsonaro, a identidade. Pedri, sua ligação direta com a família, terá a campanha coordenada por Evandro Soares, presidente do PL municipal e secretário de Governança e Comunicação de Gravataí.
Não é pouca coisa. Em política, poucos candidatos podem dizer que são “os escolhidos”. Coruja pode.
Se Coruja ocupa o espaço do ‘raiz’, é porque há, ao redor, versões distintas — e, para seu eleitorado, problemáticas — de candidaturas.
Até o momento, são quatro as candidaturas locais anunciadas para a Assembleia Legislativa: três na base do governo Luiz Zaffalon, uma na oposição.
Nomino.
Dimas Costa (PSD), ex-deputado estadual e hoje na Secretaria de Governo de Eduardo Leite, é o ‘embaixador’ do governador em Gravataí.
É o que se pode chamar de ‘extremo centrista’, apesar do passado de esquerda, década atrás.
Para o eleitor do ‘bolsonarismo-raiz’, não há meio-termo: ou está contra ou está junto.
E Dimas, assim como Leite, nesse imaginário, não está.
Há o ‘bolsonarismo performático’, encarnado por Bombeiro Batista (Republicanos), vereador mais votado nas duas últimas eleições.
Participa de atos por anistia e afins, embarca em trends bolsonaristas, tira fotos com Zucco. Mas, para o ‘bolsonarismo-raiz’ — e isso aparece nos bastidores, em prints e mais prints — parece mais um político com senso de oportunidade do que um representante ideológico.
Há registros de proximidade com o governo Leite, inclusive episódios simbólicos como recepção em helicóptero durante visita a Gravataí.
Há também influências internas, como a de um dos seus principais ideólogos, Luis Felipe Teixeira, com histórico político distante do bolsonarismo. O comunicador já concorreu a vice-prefeito pelo PSOL e prints de seus posts críticos ao ex-presidente circulam em coleção nos zaps dos mais fanáticos pelo ‘mito’.
Também na base de Zaffa, há Clebes Mendes (PSDB), que já chamei de ‘Bolsonaro da Aldeia’, no passado.
Surfou a onda em 2018. Vestiu a máscara. Encarnou o personagem. Mas política também é timing.
Hoje o vereador, cujo gabinete e casa foram alvos de cumprimento de mandados de busca pela Polícia Civil, pediu licença por 14 dias e foi denunciado à comissão de ética da Câmara, é investigado por suspeita de abuso sexual de vulnerável.
enfrenta uma investigação por suposto abuso sexual de vulnerável.
Para completar, na oposição, Marco Alba (MDB) representa outra categoria: o ‘bolsonarismo envergonhado’.
Em podcast do Giro de Gravataí, o ex-prefeito disse: “Votei em Bolsonaro”. Mas acrescentou a ressalva clássica da direita que é mais antipetista do que bolsonarista: “gosto do Paulo Guedes”.
Na política, o “mas” costuma falar mais alto que a frase.
A escolha do vice em 2024, Thiago De Leon (PDT), crítico declarado do ex-presidente, reforça essa leitura.
Para o eleitor do ‘bolsonarismo-raiz’, não basta ter votado. É preciso ter estado na trincheira.
Ao fim, reputo que essa lista de motivos faz com que a candidatura de Coruja tenha potencial para receber, das urnas, a medalha de “imbrochável, imorrível e incomível” do ‘bolsonarismo-raiz’ de Gravataí.
Candidato da família Bolsonaro, de Zucco e Sanderson, já é.
A força dessas raízes será medida nas urnas, em outubro.






