São três vereadores, um campo ideológico em disputa e um mito que, mesmo inelegível, segue organizando paixões, votos e projetos pessoais.
Evandro Coruja, Clebes Mendes e Bombeiro Batista decidiram transformar a eleição de 2026 numa travessia rumo à Assembleia Legislativa. Em comum, mais do que o endereço eleitoral em Gravataí, está a tentativa de se colar ao bolsonarismo como ativo político.
Basta percorrer a timeline dos três: críticas sistemáticas ao governo Lula, postagens com bandeiras caras ao projeto familiar dos Bolsonaro, guerra cultural, disputas simbólicas e diatribes nacionais recicladas para consumo local.
Mas há diferenças — e elas importam.
Chamo de aventura não por desdém, mas por realismo eleitoral. Nenhum dos três parte como favorito natural.
Evandro Coruja (sem partido) foi o 10º a entrar entre os 21 vereadores na última eleição municipal. Reeleito com 2.057 votos, ficou no meio da tabela. A expectativa interna era maior — afinal, representa o ‘bolsonarismo-raiz’ numa cidade que deu seis a cada dez votos a Jair Bolsonaro em 2022, e sete a cada dez em 2018.
Além disso, capitalizou entregas do governo centrista de Luiz Zaffalon (PSD): ruas asfaltadas, protagonismo na criação do cartão escolar — suspenso este ano após apontamentos do TCE — e a escola cívico-militar Murialdo, seu bunker ideológico.
Clebes Mendes (PSDB), em quarto mandato, foi o terceiro mais votado, com 2.837 votos. Experiente, ambiciona voo mais alto. Em 2018, quando vestia máscara de Sérgio Moro na era Lava Jato/Vaza Jato e defendia Jair Bolsonaro com fervor, chamei-o de ‘Bolsonaro da Aldeia’. Agora parece querer recuperar essa alcunha.
Bombeiro Batista (Republicanos) é quem parece apresentar maior potência eleitoral. Foi o vereador mais votado pela segunda vez consecutiva, com 3.213 votos.
Três perfis distintos, um mesmo alvo: o eleitor conservador.
O ‘bolsonarista-raiz‘
Se há um personagem central nessa narrativa, é Coruja.
Em reportagem anterior, analisei sua desfiliação do PP como estratégia “Flávio Bolsonaro”: preservar identidade ideológica antes que oportunistas ocupem o espaço.
Coruja é o ‘bolsonarista-raiz’ da Câmara. A análise está lá, em Coruja é o Flávio Bolsonaro de Gravataí: a estratégia do vereador por trás da troca de partido — e os oportunistas.
Nunca modulou discurso conforme conveniência. Nunca fez selfie oportunista com o governador Eduardo Leite para agradar base governista local. Nunca omitiu Lula para aparecer em obras federais. Nunca flertou com a ‘direita líquida’.
Enquanto outros políticos da cidade posavam com o governador ‘extremo centrista’ Eduardo Leite (PSD) pela manhã e compartilhavam vídeos de Nikolas Ferreira (PL) à tarde, Coruja manteve coerência.
É exatamente essa coerência — ideológica, nacional — que tenta transformar em plataforma estadual.
No domingo, confirmou a pré-candidatura durante protesto do movimento “Acorda Brasil”, no Parcão de Porto Alegre. No palco, defendeu anistia aos presos do 8 de janeiro, oposição frontal ao governo federal e contagem pública de votos.
Recebeu apoio telefônico do amigo e colega de Polícia Federal Eduardo Bolsonaro. Aceitou convite do deputado federal Ubiratan Sanderson (PL) para integrar a linha de frente do ‘bolsonarismo-raiz’ gaúcho.
Não esconde o lado da trincheira.
Clebes e Bombeiro: o bolsonarismo performático
Clebes e Bombeiro também apostam no campo conservador — mas com outro estilo.
Clebes publicou críticas ao financiamento do Carnaval do Rio, com emoji de palhaço sobre rostos, acusando “a esquerda” de bancar festa. Ignorou, no cálculo retórico, que seu próprio prefeito investiu R$ 200 mil na Acadêmicos de Gravataí, enquanto o R$ 1 milhão por escola de samba no Carnaval carioca tem um retorno econômico que ultrapassa bilhões.
Não faltaram posts associando Lula a Maduro, nem comentários sobre polêmicas culturais que pouco alteram a vida concreta do gravataiense, como a do chinelo havaianas.
Bombeiro trilha caminho semelhante. Comemorou o rebaixamento do pobrerio da Acadêmicos de Niterói, que homenageou Lula, entrou na onda da “família conservadora nas latas de conserva” e replicou pautas nacionais com pouca conexão municipal.
Ambos buscam capturar o voto conservador pela via da indignação digital.
Coruja busca pelo selo de autenticidade.
O campo congestionado, a aldeia e Roma
Os três disputarão o mesmo eleitor — e não estarão sozinhos.
O voto conservador em Gravataí não é exclusivo. Sempre há candidatos “importados”, que só conhecem Gravataí porque passam pela Freeway rumo ao litoral. Pouco aparecem em anos sem eleição.
A votação de nomes da extrema direita nas últimas eleições mostra que o eleitorado está pulverizado.
E, como ensina a política, identidade não garante mandato.
Ao fim, a estratégia de Coruja lembra a lógica descrita na minha análise anterior: melhor ser o primeiro de uma aldeia do que mais um em Roma.
Mesmo que não vença, pode consolidar posição como guardião local de um campo ideológico.
Clebes tenta reviver o personagem que já encarnou.
Bombeiro aposta na força das urnas recentes.
Três homens. Um mito que organiza o jogo. E uma aventura eleitoral que pode redesenhar o mapa da extrema direita gravataiense.
Porque, no fim, pode não ser apenas sobre chegar à Assembleia Legislativa.
É sobre quem ficará com a chave simbólica do bolsonarismo na aldeia.






