A eleição suplementar de 12 de abril em Cachoeirinha não é apenas disputa por votos. É disputa por sentido.
De um lado, a prefeita interina JussaraCaçapava (Avante) repete como mantra: “Acabou a brincadeira. Meu nome é trabalho”.
Do outro, o prefeito cassado Cristian Wasem (União Brasil) mantém o estilo performático que marcou sua gestão: sorrisos, bolas rolando, vídeos coreografados, metáforas esportivas e agora uma “batalha espiritual”.
Entre trabalho e brincadeira, construiu-se a principal guerra de narrativas da campanha.
E ela não é casual. É construção de contraste.
Na largada da campanha eleitoral, Jussara abriu o comitê central — no mesmo endereço onde funcionou o QG de Cristian em 2024, na Flores da Cunha — como quem ocupa território simbólico.
Discurso firme. Pouco sorriso. Ênfase na herança recebida:
– Peguei Natal e Ano Novo de mato alto e lixo acumulado. Meu primeiro decreto foi sobre o lixo.
O vice, Mano do Parque (PL), segue a mesma trilha. Cobrança. Tom severo. Repetição da ideia de ruptura:
– Chega de ilusão e mentira.
A mensagem é óbvia: o governo anterior era espetáculo; este faz gestão.
A coligação ajuda a sustentar a narrativa. Nove partidos. Doze vereadores. Entre eles, o MDB — partido do qual Cristian se desfiliou nesta segunda-feira — que, por 29 a 24, decidiu apoiar Jussara.
Se Cristian chama o impeachment de “golpe”, sofreu um dentro de casa. O MDB restou um ‘partido-partido’.
No palco da convenção de Jussara, o roteiro já tinha sido pedagógico: cada vereador citado, cada articulação lembrada, cada gesto de lealdade exibido. Política como matemática de maioria.
A festa teve escola de samba, telão e discurso emocional. Mas a narrativa era pragmática: não é ideologia, é governabilidade.
O ‘Grande Eleitor’ e a bola rolando
Cristian, impedido de concorrer, tenta ocupar outro papel: o de ‘Grande Eleitor’.
Na convenção do PP, lançou Claudine Silveira como candidata e confirmou o pastor Marco Aurélio Albernaz como vice. O discurso foi menos administrativo e mais moral.
Falou em Deus. Em “articulações diabólicas”. Em bem contra o mal.
– Tentam negar que é o bem contra o mal. Se não é o bem contra o mal, o que é então?
A eleição deixou de ser apenas administrativa. Tornou-se espiritual.
Claudine sustenta a tese da “reparação democrática”:
– Vamos fazer justiça pelo voto.
O Delegado João Paulo Martins, vice-prefeito cassado e seu marido, fala em traição.
Cristian fala em consciência tranquila.
E, na largada da campanha eleitoral, encerrou vídeo chutando a bola para o alto:
– Pra cima, Cachoeirinha.
Se Jussara diz que acabou a brincadeira, Cristian insiste na linguagem lúdica que marcou seus mandatos: skate, monociclo, bolinha de tênis nas ruas asfaltadas — agora a bola de futebol passando para os sucessores.
Não é descuido estético. É identidade política.
Jussara aposta na imagem da gestora que organiza a casa.
Nos discursos prometeu fim do teleagendamento na saúde, mais médicos nos postos e tolerância zero com lixo e mato alto. Repete que governa com maioria parlamentar. Que reuniu quase toda a Câmara. Que tem base ampla.
É narrativa de estabilidade.
Cristian aposta na emoção.
Fala de gente que quer ir embora da cidade. Fala de injustiça. Fala de Deus como árbitro final.
É narrativa de mobilização. Agora no União Brasil de Luiz Carlos Busato.
No meio, o áudio de José Stédile, ex-prefeito que desistiu de concorrer por falta de unidade da oposição, já alertou:
– A Jussara deve estar rindo de nós.
A frase virou síntese involuntária do momento.

O Deus eleitor
A disputa não é apenas administrativa.
É sobre qual memória recente vai prevalecer: a de um governo alegre, midiático, que diz ter sido interrompido injustamente; ou a de uma gestão que se apresenta como corretiva, pragmática e majoritária.
Cristian testa se ainda é capaz de transferir votos. Aposta seu legado nas urnas. Jussara testa se maioria parlamentar se converte em maioria popular.
Claudine representa a reparação.
Mano simboliza a ala conservadora incorporada ao bloco governista.
O MDB dividido expõe fissuras internas.
A eleição suplementar — como é característica das eleições modernas de rede social — virou laboratório de narrativa.
No fim, não é apenas sobre quem governa a cidade.
É sobre quem convence que governa melhor — sem brincar.
O Deus das Urnas, o eleitor, vai decidir.
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