RAFAEL MARTINELLI

Greve longa em Canoas joga famílias mais contra professores do que contra o governo — a lição de Lula

Prefeito em meio aos grevistas antes de reunião na Prefeitura, na semana passada

Há um momento em toda greve em que ela deixa de ser apenas luta e passa a ser cálculo. Canoas chegou nele.

O que começou como pressão legítima — e é — começa a flertar com um risco conhecido, antigo, quase inevitável: o de trocar o alvo do desgaste. Porque, na política real, a pergunta nunca é só “quem tem razão?”. É “quem paga a conta?”.

E a conta, quando a escola fecha, não chega no gabinete. Chega na cozinha, na rotina de quem precisa trabalhar e não tem com quem deixar o filho, no improviso, no favor, na ausência. Chega, principalmente, para quem menos tem margem para reorganizar a vida.

Uma greve longa tem esse efeito perverso: ela sai do campo institucional e invade o cotidiano. E, quando isso acontece, o desgaste muda de endereço.

Goste-se ou não, é assim que funciona.

Sim, há um dado incontestável: mais de uma década sem ganho real direto. Isso não é detalhe. É o coração da reivindicação. Mas também há outro dado, menos confortável — e igualmente verdadeiro: Canoas não negocia em um cenário neutro.

Negocia dentro de uma cidade que ainda respira com dificuldade depois de uma enchente que não terminou quando a água baixou. Terminou nas imagens. Continua nas planilhas.

O impacto do ICMS — aquele dinheiro que sustenta a máquina — não cai no mesmo ano da tragédia. Ele aparece depois. No ciclo seguinte. Agora. E agora chegou.

A Prefeitura fala em mais de 95% da receita comprometida. É o tipo de número que não entra em discurso de assembléia, mas define o que é possível.

É o que chamo de ‘ideologia dos números’.

Do lado do governo, há oferta: 4,26% de reposição parcelada, aplicação do piso, ampliação do vale-alimentação, grupo permanente de negociação. Do lado dos professores, há recusa. Pela segunda vez.

A categoria quer o reajuste integral. Quer valorização real. Quer mais do que foi colocado na mesa. E é aqui que a greve muda de fase.

Enquanto não há proposta, o conflito é binário: ausência versus reivindicação.

Quando há proposta — ainda que insuficiente — e ela é rejeitada, o conflito passa a ser também estratégico. Não é mais só sobre o que se pede. É sobre até onde se vai.

A lição que ninguém gosta

Greve não é maratona até a exaustão. Ou não deveria ser. Quem ensinou isso — na prática, não na teoria — foi um metalúrgico do ABC que virou presidente. Lula nunca romantizou greve longa. Ao contrário.

Sempre disse: tem começo, meio e fim.

E mais: insistir no “tudo ou nada” costuma terminar no “nada”.

Encerrar uma greve não é trair a base. É ter coragem de dizer que o possível, às vezes, não é o ideal — mas é o que existe.

É a Realpolitik.

Para usar um exemplo vizinho, em Gravataí, que não restou com metade da cidade e da economia afogadas pela enchente, uma das reivindicações do funcionalismo é o vale-alimentação, o que Canoas já paga.

Há, é verdade, um mérito do outro lado.

O prefeito Airton Souza fez o que poucos fazem: apareceu. Foi até os grevistas. Reconheceu a legitimidade. Não terceirizou o conflito.

Acertou no método. Mas método não enche contracheque. E é por isso que o impasse persiste. Há diálogo — mas não há acordo. Há presença — mas não há convergência.

E, nesse vácuo, o tempo corre. Contra alguém.

Toda greve tem um ponto de inflexão. Não é anunciado. Não sai em nota. Mas ele chega. É quando o apoio começa a escorrer pelos dedos.

Não porque a causa perdeu razão, mas porque o custo passou a pesar mais do que o argumento. Canoas se aproxima desse ponto. Porque, enquanto a negociação trava, a vida real continua. E a vida real não espera assembleia.

O risco — e a escolha

Se a greve se alongar para além destes sete dias, há um risco claro: o movimento, que começa com legitimidade social, pode terminar com desgaste social. E esse é o pior cenário para qualquer categoria.

Porque governo administra crise. Categoria carrega percepção. E percepção, uma vez perdida, não se recompõe com nota oficial.

Ao fim, a greve dos professores de Canoas continua sendo justa no ponto de partida. A pergunta, agora, é outra: até onde ela continua sendo eficaz no percurso.

Porque, na política — e fora dela — não basta estar certo. É preciso escolher o momento de avançar.

E, principalmente, o momento de descer do caixote.

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